Verdadeiro serviço público
Todos os anos, no princípio de Setembro, a Festa do Avante! marca o calendário político e cultural de Portugal. Excepcionalmente as datas foram outras. É já uma tradição que nunca é rotina. Do ponto de vista musical, foi pioneira dos grandes concertos ao ar livre que hoje vão acontecendo nos festivais de Verão. Há uns a esta parte, o primeiro grande concerto dos três dias de festa é dedicado à música sinfónica. Milhares de pessoas ouvem, muitas delas o fizeram pela primeira vez, música que exige uma atenção maior, música que apura o ouvido e modela o belo, música cuja fruição amplia a dimensão humana. Para os intérpretes, quando actuam num palco de grandes de dimensões, perante uma plateia de dezenas de milhares de ouvintes, essa também é uma experiência diferente. Este ano, como em 2009, realizou-se a Grande Gala de Ópera. Cantar várias árias de ópera fora do contexto em que se inscrevem coloca problemas de interpretação que não são despiciendos e o primeiro dos quais é a diferença dos registos musicais e dramáticos a que são obrigados tanto orquestra, como cantores, como coro. Muitas vezes há a tendência para seleccionar sequências de repertórios que destacam as qualidades extra dos interpretes o que, obviamente, estava longe dos propósitos dos co-produtores da 2ª Grande Gala da Ópera, o Ginásio Ópera e o Avante!, que seleccionaram trechos célebres do reportório lírico, de grande exigência técnico-artística. Se alguns são bem conhecidos mesmo dos não iniciados, outros seriam só conhecidos por, e nem todos, os iniciados. Com originalidade intercalaram-se peças corais sinfónicas, que não são ópera e mesmo canções populares, como Granada de Agustin Lara, que, apesar de integrar a música popular espanhola, é de grande exigência para a voz de tenor, como o jovem João Pedro Cabral brilhantemente demonstrou. Bastante menos conhecida mas não de menor importância foi Le Chant du Depart, de Étienne Nicolas Méhul, uma das canções patrióticas da Revolução Francesa que, na época, era tão célebre como a Marselhesa.
Das obras corais sinfónicas, a grande surpresa foi o 4.º andamento, Hino à juventude, da 4.ª Sinfonia de Joly Braga Santos. No programa da Festa do Avante!, com um excelente texto de João Maria de Freitas Branco, conhecido e esclarecido melómano, presidente da Associação Cultural Ginásio Ópera, informa-se que originalmente a 4ª Sinfonia acabava com um final orquestral. Posteriormente o compositor reescreveu esse andamento, optando por um final coral dedicado às Juventudes Musicais, movimento associativo de que tinha sido um dos fundadores. Essa versão raramente é tocada e foi esse quarto andamento coral, a apoteose dessa sinfonia, que se ouviu no palco central da Festa do Avante!. Uma obra surpreendente pela riqueza e complexidade da sua tessitura que evidenciou a qualidade da orquestra, Orquestra Sinfónica do Ginásio Ópera sobre a direcção competente e segura de Kodo Yamagishi. Orquestra que demonstrou a sua solidez na peça de abertura desta Gala, o 1.º andamento da Sinfonia à Pátria de Viana da Mota e na Abertura (Final) 1812 de Tchaikovsky em que o troar dos canhões foram imaginativamente replicados por disparos de fogo-de-artifício.
Nota alta para o coro que reúne os elencos do Coro Tejo e Coro de Câmara de Lisboa, sempre muitíssimo bem, tanto nessa obra de Joly Braga Santos, como em todas as suas intervenções com destaque para as Danças Polovetsianas, da ópera o Príncipe Igor, de Borodin, para o Coro dos Prisioneiros, da ópera Fidélio, de Beethoven e os dois corais de Verdi, o Coro de Zangaralle e Mattadori, da Traviata e o celebérrimo Va, pensiero de Nabucco que, se na época era um hino à revolta do povo italiano, hoje readquire esse valor revolucionário, como se viu e ouviu na Ópera de Roma, em Março deste ano, quando o público pediu bis e o maestro Ricardo Mutti, inesperadamente, interrompeu a representação para, antes de bisar, fazer uma inédita intervenção a condenar o governo de direita de Berlusconi.
As outras árias de ópera que integraram a extensa e bem estruturada 2ª Grande Gala de Ópera puseram à prova as qualidades vocais e interpretativas dos cantores, as suas qualidades vocais e interpretativas. São árias bastante conhecidas e que são muitas vezes cantadas extraídas do seu contexto, com os problemas já apontados. Sem menorizar o brilhantismo de qualquer um dos intérpretes, apesar de alguma hesitações do tenor Mircea Nedelescu que, aqui e além, não conseguiu dar prova do seu valor, destaque-se Ana Paula Russo e Inês Thomas de Almeida que, no Dueto das Flores da ópera Lakmé de Léon Délibes, tiveram um momento particularmente deslumbrante, sublinhando todas as suas excelentes intervenções. A soprano Ana Paula Russo tem uma já longa carreira em que representou as mais diversas personagens, sempre com um saber e uma competência que tornam ainda mais expressiva a sua bela voz e que justamente a colocam entre as melhores sopranos portuguesas, como se ouviu na Margueritte a cantar do Fausto de Gounod em “Un bouquet! O Dieu! Que de bijoux” ou no dueto de Don Carlos de Verdi “Io vengo a demanadar”. Inês Thomas de Almeida é uma jovem mezzosoprano em que se entrevê mais que uma promissora carreira, como o demonstrou numa Dorabella excelente no seu exasperado desespero de “Ah scostai! Smanie implacabili” do Cosi fan tutti de Mozart e em “Mon coeur s’ouvre a ta voix” de Sansão e Dalila, de Saint-Saens.
Luís Rodrigues, barítono, Nuno Dias, baixo e João Pedro Cabral, tenor, tiveram excelentes actuações atravessando as suas provas de fogo em árias, cantadas em todo o mundo pelos mais celebrados intérpretes, submetendo-se a comparações fáceis e recorrentes o que torna mais difícil a sua representação. Saíram-se bem em todos esses confrontos. Valores seguros no panorama nacional da música sinfónica com projecção internacional.
Uma última nota para a violino concertino, julgamos ser Veliana Hristova, que ao longo de toda esta excelente e inédita 2.º Grande Gala de Ópera, teve uma actuação seguríssima, coadjuvando em grande plano o maestro Kodo Yamagishi.
Um excelente espectáculo presenciado e aplaudido por dezenas de milhares de pessoas. Um verdadeiro serviço público à cultura, como aliás a Festa do Avante! tem sido desde a sua primeira edição, o que sintomaticamente tem sido raramente referido por uma comunicação estipendiada ao serviço do poder dominante que continua a conduzir a cultura pelas ruas de uma vil amargura.