XVIII Bienal
Conviver parece, a cada edição da Festa, ser a palavra de ordem que leva tanta gente à Atalaia, três dias em cada ano. E participar. E dar depois testemunho de convicções, estimuladas por essa realização de comunistas que tantas facetas apresenta, tantas iniciativas propõe, tantos apelos convoca à nossa inteligência, às nossas capacidades de lutar por um mundo liberto e mais feliz. Entre essa diversidade de propostas – todas, no fundo, culturais – destacam-se aquelas que se apresentam como espectáculos: da música às exposições políticas, ao teatro, ao cinema, aos livros, aos próprios debates, comícios e colóquios, onde também se fazem propostas de lutas e de solidariedades, se traçam caminhos, se aplaudem palavras.
Para o repórter, o espectáculo é, a maior parte das vezes, não aquele que se desenrola num palco ou noutro lugar onde as artes e as políticas se expõem, mas o próprio espectáculo que é a participação popular nas iniciativas. Assim é com as exposições de artes plásticas, como as bienais. E, logo à entrada desta XVIII Bienal da Festa, que em certos momentos se enchia de gente e se ficava a aguardar uma ocasião mais «pacífica» para, com demora, poder apreciar as obras ali expostas, ficámos a saber das renovadas intenções de quem organiza e propõe a iniciativa:
«A nós, interessa-nos que as obras expostas sejam vistas pelo maior número de pessoas, mas interessa-nos sobretudo que a Bienal seja um contributo importante para o enriquecimento cultural de quem encontra e procura na Festa do Avante! manifestações de cultura que se repercutam e abram novas perspectivas», dizia a Comissão Organizadora.
O objectivo principal foi atingido. E quanto à exposição em si? Não somos críticos de arte e sabemos que as escolhas, em arte, são subjectivas, que o mais importante num certame destes é o próprio interesse cultural que desperta e a convivência entre uma elite «esclarecida» e todos aqueles que não tiveram a oportunidade de obterem uma educação visando a percepção mais aguda de formas e de vozes que lhes foram alheias. No entanto, e com todo o respeito pelo trabalho e nada fácil esforço dos organizadores, diremos que já vimos menos bom mas também já vimos melhor.
Pareceu-nos que, entre as muitas das obras expostas – algumas cujas formas profundamente originais chamavam o «leitor» à reflexão sobre a realidade transfigurada em arte – se sobrepôs uma excessiva tentação pelo jogo em si mesmo. Ora o jogo está sempre presente em arte, qualquer que ela seja. Ou na estrutura de cada peça ou na reflexão que a precede ou que surge na feitura dela. Mas também é certo que, tal como na realidade envolvente das nossas vidas, o jogo e o entretenimento se vêm avantajando em detrimento ou em substituição do entendimento.
Não diremos aqui que um certo gongorismo – ou o gosto excessivo pela forma e pelo seu acrescentamento abusivo que tende a apagar o essencial – haja neste caso vencido. Mas há vincadamente marcas neste certame, onde algumas peças radicaram a sua construção na secura do jogo das cores, transformando a obra de arte em obra meramente decorativa.
Mantendo-nos, ou pretendendo manter-nos no plano da nota de reportagem – escusando-nos a indicar exemplos concretos porque pretendemos chamar a atenção sobretudo para o mérito do todo que foi esta Bienal, abrimos, no entanto uma excepção para a homenagem, discreta embora, que a Bienal fez à memória de Cipriano Dourado, um artista que no seu tempo (1921-1981), rompeu com formas velhas e velhas visões de um mundo em decomposição para anunciar outras alegrias e outras perspectivas.
Ouçamos, por fim, as palavras que lemos ali, de um outro artista que tão bem nos acompanhou em vida, na busca de um mundo melhor e que a nosso lado lutou por ele. Falamos do Rogério Ribeiro que, em 1981, escreveu sobre Cipriano Dourado:
«A linha funcionava nas suas mãos como um corte, interior e exterior dessa forma a que acrescentava, com intenções diferentes ao longo do tempo, um sinuoso gesto de ritmos ondulantes, organizando rostos, cabelos, seios, ventres ou largos panos modelando corpos inquietos, soltos, plasmados e seguros na folha branca do papel.»