Festa do Livro

Ao encontro da História de Portugal contemporânea

Isabel Araújo Branco

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A Festa do Livro é um espaço de encontros e reencontros. Literários e não só. Há quem entre na tenda para fugir ao calor e ao bulício da Festa, mas a maioria fá-lo com a convicção de encontrar companheiros presentes e futuros. Temos, em primeiro lugar, autores prontos a autografar as suas obras e a conversar com os leitores. Este anos foram mais de quinze, entre eles Manuel Gusmão, João Aguiar, Alice Vieira e Miguel Urbano Rodrigues. Depois, as apresentações de novas publicações – oito no total –, abarcando áreas tão diversas como a poesia e a crónica jornalística, todos tendo como elemento comum a ligação à História contemporânea de Portugal. Mas naturalmente as estrelas são os livros: conto, novela, romance, ensaio, teatro, poesia… Os preços são convidativos, tanto nas edições mais antigas, como nas mais recentes – e há que aproveitar a oportunidade.


Doze fugas das Prisões de Salazar


Entre as obras lançadas na Festa, conta-se Doze fugas das Prisões de Salazar, da autoria de Jaime Serra. José Casanova destacou o papel da Editorial Avante! na publicação de livros sobre a resistência ao fascismo e o papel dos comunistas nesse processo de árduas décadas, «numa altura marcada pelo branqueamento do fascismo, em que se diz, por exemplo, que Salazar não era um verdadeiro ditador. Até a palavra “fascismo” é substituída pela expressão “Estado Novo”, precisamente a designação utilizada por Salazar. Esta tese é complementada pela ideia de que não houve resistência antifascista», afirmou o director do Avante!, fazendo referência às «informações falsas e deturpadas sobre 48 anos de ditadura que correm por aí».

A obra aborda tentativas de fuga bem-sucedidas e fracassadas – e é importante recordar os episódios de insucesso, até para não esquecer como era difícil escapar das prisões fascistas. «Estes homens tinham uma coragem dupla, a coragem de organizar e concretizar a fuga e a coragem de voltar à luta clandestina para dar mais força à acção do PCP. E, de facto, estas acções traduziram-se no reforço efectivo do nosso Partido, nomeadamente a fuga da prisão de Peniche, o ponto de partida da correcção do «desvio de direita», correcção feita com base num amplo debate interno», destacou José Casanova.

Jaime Serra passou quatro anos preso e evadiu-se três vezes, uma delas numa tentativa fracassada. É, pois, a pessoa mais indicada para organizar este volume, na opinião de Casanova, que sublinha que o antigo dirigente comunista faz parte de uma geração de quadros com um papel importante na história do PCP: «Importantíssimo no passado, mas ainda agora, nomeadamente com a preparação deste livro. É fundamental revelar estas questões às novas gerações de comunistas, falar de nomes tão marcantes na história deste Partido como Francisco Miguel, Blanqui Teixeira, Pedro Soares, Rogério de Carvalho ou Dias Lourenço, sem os quais o PCP não existia com as características que tem hoje, tanto no trabalho colectivo, como nos próprios princípios. São, por isso, figuras maiores deste País, porque são figuras maiores da resistência antifascista.»

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Décadas de Abril. A Talhe de Foice


Décadas de Abril. A Talhe de Foice é o título do volume que reúne dezenas de crónicas de Henrique Custódio publicadas pelo Avante! na sua rubrica «A Talhe de Foice», entre 1974 e 2010. Com leitores fiéis ao longo dos anos, estas crónicas ganham agora uma nova dimensão, permitindo uma leitura global não só destes textos, mas também dos últimos trinta anos de Portugal. Como referiu na apresentação o jornalista, escritor e dirigente do PCP Filipe Leandro Martins, «além do valor literário de cada crónica, encontramos uma panorâmica geral da História que permite fazer uma meditação política do que aconteceu no nosso país, desde o 25 de Abril até hoje. É um livro valioso sobre o caminho percorrido. Traz-nos recordações e faz-nos olhar para as nossas mãos e pensar o que podemos fazer para continuar esta senda de resistência, rumo ao socialismo.»

As crónicas que compõem o livro podem partir de episódios quotidianos, mas o seu estilo vivo apela o leitor «a pensar por si, a formar a sua própria opinião e a intervir», como defendeu Leandro Martins, lembrando ainda que Henrique Custódio assinou algumas das melhores reportagens publicadas pelo Avante! nos últimos anos.

O autor contou a génese do título escolhido, em intertextualidade com Décadas de Ásia, de João de Barros: «Esse livro tinha como objectivo exaltar a construção do império português. Este fala sobre o 25 de Abril, a construção da revolução e a sua defesa até hoje. São as décadas de destruição, assinaladas ao longo do tempo nas crónicas.»


No Percurso de Guerras Coloniais


Na tarde de sábado, um outro tema fundamental da história portuguesa do século xx esteve no centro da conversa a propósito do lançamento de No Percurso de Guerras Coloniais. 1961-1969, de Mário Moutinho de Pádua, o primeiro oficial português a desertar da Guerra de Angola, em 1961. Como afirmou Fernando Silvestre na ocasião, a obra «podia ser incluída na categoria de literatura de viagens, nas viagens especiais, sem rota e sem bilhete de regresso, numa luta consigo mesmo, num percurso revolucionário, interrogando-se perante a encruzilhada que o império fascista lhe oferecia: ser arrastado para uma guerra assassina ou resistir? Encontramos um retrato lúcido e humano do mundo que conheceu. “Coragem” é a palavra que nos surge quando acabamos de ler o livro.»


Crise e Transição Política


«O volume do livro pode assustar, mas apresenta uma linguagem clara para o grande público. Diz o que não estamos habituados a ouvir. E os curiosos e desconfiados podem consultar a bibliografia! Este livro não se parece com nenhum outro», garantiu Luísa Tovar na apresentação de Crise e Transição Política. Metabolismo Social e Material, da autoria de Rui Namorado Rosa. Já Sérgio Ribeiro considera que esta obra «é para ser estudada e é agradável fazê-lo». Abordando os vários temas em análise, o economista destacou os capítulos sobre as riquezas naturais e as guerras pelos recursos ― «e como os recursos provocam guerras. Este até é um “texto bruxo”, porque inclui um mapa que mostra a Líbia como um potencial factor de conflitos.» Sérgio Ribeiro lembrou ainda que Rui Namorado Rosa é presidente do CPPC e que desenvolve «uma acção concreta na luta pela paz».

«Temos de desmascarar a mentira e desvendar o que está oculto para compreender a realidade e transformá-la», afirmou Rui Namorado Rosa, acrescentando que, «embora o aspecto analítico possa determinar, a componente de proposta e acção é fundamental neste livro. O leitor poderá, pelo menos, questionar-se e voltar a pensar sobre o mundo.


Portugal a Produzir

 

Importante volume que reúne as análises e contribuições do PCP para a dinamização e aposta no aparelho produtivo e na produção nacional. Portugal a produzir foi alvo de uma apresentação na Festa do Livro que esteve a cargo de Vasco Cardoso. No Pavilhão Central realizou-se um debate subordinado ao tema.



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