Corações ardentes e muita organização
Se a Festa do Avante! é, cada vez mais, a festa da juventude tal deve-se em grande medida ao papel que nela desempenham os jovens comunistas. Exemplares na dedicação com que cumprem as mais variadas tarefas colocadas durante a construção e funcionamento, são também notáveis na sua entrega aos espectáculos, aos debates, à animação e, claro, aos dois comícios.
O funcionamento da Cidade da Juventude – que, nunca é de mais lembrar, é construída do primeiro tubo ao último retoque por jovens – é um exemplo ímpar de como a acção organizada não tolhe a energia revolucionária. Pelo contrário, potencia-a, dá-lhe sentido, fá-la desaguar numa torrente imensa de milhares de jovens unidos por um objectivo comum, a transformação do mundo e da vida. Se, como dizia Lénine, as revoluções se fazem com organização e corações ardentes, então podemos estar seguros de que a Juventude Comunista Portuguesa e os seus militantes estão cá para a fazer!
E nem era preciso entrar na Cidade da Juventude para nos apercebermos disto: por toda a Festa, durante os três dias, foram muitos os que venderam o AGIT, enquanto que outros, integrando as brigadas de contacto, abordaram os jovens visitantes explicando-lhes os objectivos e os ideais da JCP, tendo como base o Manifesto à Juventude Portuguesa, aprovado no 9.º Congresso da organização, em Maio passado. Muitos, esclarecidos e contagiados não só pelo ambiente da Festa mas igualmente pela capacidade realizadora dos comunistas, derrubaram as últimas dúvidas e aderiram à JCP, juntando-se assim à organização revolucionária da juventude portuguesa.
E foi com a mesma determinação que os jovens comunistas participaram (e mobilizaram outros) nos dois principais actos políticos da Festa do Avante! – a abertura e o comício de encerramento. No desfile para o comício de domingo, empunhando as suas reivindicações e dizendo de sua justiça, centenas de militantes e amigos da JCP percorreram vários espaços da Quinta da Atalaia contribuindo, com a sua alegria, para que alguns dos que por ali andavam vencessem a hesitação e se juntassem à marcha.
Uma vez no comício, foi com particular entusiasmo que ouviram o dirigente da JCP Diogo d'Ávila falar do «sorriso no rosto» com que os jovens comunistas construíram e participaram na Festa, o «sorriso do orgulho de lutarmos pela construção do socialismo, impulsionados pelo Partido da juventude, este grande Partido Comunista Português». Foi precisamente este o que foi visível naqueles rostos jovens ao longo de toda a Festa. Mesmo – ou sobretudo – quando cumpriam alguma tarefa, ainda que fosse a mais dolorosa de todas, a desimplantação do seu espaço, iniciada logo na noite de domingo.
A felicidade de estar na luta
Na Cidade da Juventude, como já se disse, tudo foi feito pelos jovens e a pensar nos jovens. Na exposição política e na decoração dos vários espaços estavam plasmadas as suas principais preocupações, aspirações e lutas: da reclamação de emprego com direitos à exigência de uma educação pública, universal e gratuita, passando pela garantia do acesso universal à cultura – efectivado, ali, no Palco Novos Valores, por onde passaram 12 bandas (oito das quais apuradas nos festivais que deram oportunidade a mais de 100 grupos de mostrarem o seu valor, perante 5000 pessoas).
Mas desengane-se quem pensar que ali se ouviram lamentos e queixas acerca das densas nuvens negras que pairam sobre o presente e o futuro de toda uma geração. Nada disso. Houve, sim, a constatação de uma brutal ofensiva contra direitos elementares e muitas reivindicações, sempre com os olhos postos numa vida melhor e com a plena consciência de que – como se lia, aliás, num dos principais painéis daquele espaço – só com a luta se constrói o futuro.
E era de luta que falava a exposição política. Da luta travada por milhares de estudantes dos ensinos Básico e Secundário, em 4 de Fevereiro e 24 de Março, para além de centenas de acções nas escolas; ou pelos estudantes do Ensino Superior, que saíram à rua em Novembro do ano passado afirmando que «somos estudantes não somos clientes»; ou ainda da luta travada pelos jovens trabalhadores, nomeadamente no dia 26 de Março, quando se manifestaram em Lisboa contra o desemprego, a precariedade e os baixos salários, que os afectam de forma particular. Os recentes ataques ao associativismo, à cultura, ao desporto e à habitação compõem o ramalhete desta política no que à juventude diz respeito.
O 9.º Congresso da JCP, realizado em Maio, foi um momento alto de «afirmação da luta juvenil», afirmava-se na exposição, enquanto que o 17.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, a ter lugar em Dezembro na África do Sul, afirmará esta mesma luta à escala planetária. No bar dedicado a esta grande realização, a agitação foi constante, assim como em todos os outros espaços onde era possível beber ou comer alguma coisa.
Na banca do AGIT, para além do jornal, vendia-se bonés e camisolas. Uma delas, azul, tinha uma citação de Álvaro Cunhal retirada de O Partido com Paredes de Vidro: «Que ninguém tenha vergonha de ser feliz, além do mais porque a felicidade do ser humano é um dos objectivos da luta dos comunistas!» E é só lutando por este objectivo que os jovens comunistas são felizes.
Palavras combativas
Nos três debates realizados na Cidade da Juventude esteve patente a ideia de que é importante conhecer a realidade que nos rodeia com o objectivo de sobre ela agir para a transformar. Fosse o tema a guerra, o ambiente ou os direitos da juventude, nunca o tom foi de resignação e de medo. Nem quando o inimigo a enfrentar assume a forma toda-poderosa de uma aliança militar agressiva como a NATO ou agita o espantalho da destruição do próprio planeta através do aquecimento global ou das emissões de carbono...
No primeiro debate, realizado à hora de almoço de sábado, Pedro Guerreiro, do Comité Central do Partido, Tiago Vieira, presidente da Federação Mundial da Juventude Democrática e dirigente da JCP, e Helena Barbosa, da Direcção Nacional da JCP, confirmaram o lema segundo o qual Quem faz a guerra não quer a paz. Pedro Guerreiro chamou a atenção para a cimeira que a NATO realizará em Lisboa no mês de Novembro, lembrando que nesta reunião não estará em cima da mesa o desaparecimento da NATO, mas sim o reforço da sua vertente agressiva. Quando surgiu, em 1949, a NATO tinha como objectivo central travar o processo libertador iniciado com o final da II Guerra Mundial, quando vários países enveredaram pela via socialista e vastos territórios do mundo se libertaram do colonialismo.
No caso de Portugal, que foi um dos 12 países fundadores da NATO, o dirigente do PCP acusou as autoridades do País de colocarem as forças armadas a reboque da NATO, transformando-as numa espécie de «corpo expedicionário dos Estados Unidos da América».
Depois de Pedro Guerreiro reafirmar o empenho do PCP na criação de um movimento de contestação a esta cimeira, Tiago Vieira chamou a atenção para a grande manifestação marcada para o dia 20 de Novembro em Lisboa. E lembrou que noutras ocasiões, mesmo em momentos mais difíceis (como é o caso da ditadura fascista), a juventude portuguesa demonstrou a sua oposição à NATO e aos seus objectivos. Helena Barbosa apelou, em seguida, à participação dos jovens no 17.º FMJE, onde a luta contra o militarismo e a guerra ocupará um lugar central.
Poucas horas depois, foi a vez de se debater O Ambiente e a Qualidade de Vida. O deputado do PCP Miguel Tiago considerou que «no capitalismo não é possível parar de destruir a natureza», devido à própria dinâmica do sistema, baseado na exploração e na apropriação da riqueza por um punhado de grandes capitalistas. Sobre Quioto e Copenhaga, Miguel Tiago afirmou que esse não é o caminho a seguir, já que se procura disfarçar as responsabilidades do sistema na destruição da natureza. «Nem todos temos as mesmas responsabilidades», lembrou. Elísio Sousa, da Comissão Política da JCP, alertou para a «privatização» da natureza e dos recursos, apelando ao combate contra a tentativa de apropriação privada de algo que pertence a todos.
Avante com a luta pelos direitos da juventude foi o tema do debate realizado no domingo, que contou com a participação de Rita Rato, Vanessa Borges, Anabela Laranjeiro e Rita Santos, todas da JCP. E aqui falou-se dos cortes na acção social escolar, na transformação de universidades em «fundações», do aumento brutal das propinas, da gestão privada das escolas. Ou seja, da diminuição da formação e da elitização do acesso e frequência... Não se esqueceu de referir a precariedade (que afecta mais de um milhão e 400 mil trabalhadores) e o desemprego, que atinge os jovens de forma muito particular (20,3 por cento dos desempregados registados têm menos de 35 anos). De todos os debates, saiu uma mesma conclusão: é preciso lutar, lutar sempre!
Palco Novos Valores
Em doze vibrantes concertos realizados no Palco Novos Valores, as jovens bandas deram o seu melhor para justificar a sua presença na Festa do Avante! e para aproveitar ao máximo o momento. O público correspondeu, com uma constante presença solidária