Palco 25 de Abril

O melhor público do mundo!

Gustavo Carneiro

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Já se escreveu por mais de uma vez que o público da Festa é diferente – exigente, sim, mas generoso, entregando-se a cada espectáculo com uma imensa devoção e reconhecimento, quer se trate de artistas famosos ou de talentos pouco conhecidos. Isso aconteceu uma vez mais este ano no Palco 25 de Abril.

Retribuindo esta dedicação do público da Festa, as bandas e artistas colocaram ainda mais energia nas suas actuações, encontrando forças para se superar arrancando, em muitos casos, performances inesquecíveis. E não foram poucos aqueles que, compreendendo bem que Festa era aquela, sentiram a necessidade de guardar algumas palavras de apreço para os seus construtores, para as suas características ímpares e para o projecto de futuro que lhe dá forma...


Música que transforma


Depois do grande espectáculo de sexta-feira (ver texto nestas páginas) coube aos
US&THEM dar início aos espectáculos no Palco 25 de Abril no início da tarde de sábado. Tarefa que, não sendo fácil, foi cumprida não só pela competência da banda mas pela participação activa e entusiástica do público, que tinha sido para aí atraído pelos primeiros acordes da Carvalhesa. Com os Diabo na Cruz viveu-se a primeira enchente do dia. E não houve calor que impedisse aquela mole humana de dançar ao som desta banda, que é uma das revelações do panorama musical português, ao fundir ritmos populares com sonoridades mais pesadas e eléctricas. A seguir vieram os Cacique' 97 e ninguém conseguiu ficar quieto com os acordes alucinantes deste grupo, que contava em palco com três percussionistas e um forte naipe de sopros.

Os Eina fizeram, mais do que um espectáculo, uma espécie de comício musical. Manifestando o seu «imenso prazer» por actuarem na «festa mais bonita do comunismo em toda a Europa», a banda catalã provocou, agitou e incitou à luta – fosse contra a exploração ou por uma paz justa na Palestina. Com uma bandeira soviética em palco e ao som d' A Internacional, despediram-se com um «muito obrigado, camaradas» e vivas ao PCP.

Com Sebastião Antunes e Quadrilha mudou o som, mas manteve-se a atitude. Entre flautas e tambores, o cantor mandou abraços para a República Árabe Saharaui Democrática e dedicou canções ao povo da Palestina. Mas mais do que as palavras ditas, também as cantadas tinham um profundo significado: «o mar não é de ninguém / ninguém é dono do mar / só aqueles que lá sabem navegar.»

Novamente num registo rock, os Bunnyranch fizeram pela vida e conseguiram conquistar o público da Festa. Antes de terminar, o vocalista – que é igualmente baterista – não poupou nos elogios: «É uma honra tocar num palco chamado 25 de Abril. É uma honra tocar na Festa do Avante!. Isto não é conversa 'tá-se bem, é a sério...»

«É bom estar de volta», começou por dizer Ana Bacalhau, cantora e personificação dos Deolinda. Se da última vez que estiveram na Quinta da Atalaia encheram o Auditório 1.º de Maio, no sábado transbordaram o recinto do palco 25 de Abril, naquela de terá sido possivelmente a maior enchente da Festa deste ano no que a espectáculos diz respeito. «Provavelmente há aqui alguém com uma história parecida com esta», afirmou a cantora imediatamente antes de Clandestino (A noite vinha fria/ negras sombras a rondavam/ era meia-noite/ e o meu amor tardava. / A nossa casa / a nossa vida / foi de novo revirada / à meia noite / o meu amor não estava. / Ai eu não sei onde ele está / se à nossa casa voltará / foi esse o nosso compromisso...). No final, o autor da canção, e guitarrista do grupo, Pedro da Silva Martins, confessou ao Avante! que o poema lhe surgiu na semana em que morreu Álvaro Cunhal, durante a qual viu vários documentários em que se contaram «histórias de amor impossíveis» entre clandestinos.

A batida impressionante de Roberto Pla All Stars manteve o público quente para o resto da noite, que avançava. João Gil e o seu Baile Popular e Pedro Abrunhosa e o Comité Caviar não deixaram os seus créditos por mãos alheias, brindando o público com espectáculos vibrantes onde não faltaram recados contra as injustiças que grassam no País e no mundo.


Momentos inesquecíveis


No domingo, os espectáculos começaram mais cedo, às 14 horas, com
Os Dias de Raiva, seguidos pelos catalães La Rumbé, que cativaram a assistência com o seu som dançante e dançável. Os Expensive Soul, contando com uma imensa e fiel audiência que cantava as canções de cor, mostraram como se interage com a audiência. A banda ficou de tal modo satisfeita com o público que apelaram no final: «batam palmas a vocês.»

Ninguém melhor que Luísa Basto para actuar antes do comício, coisa que a voz do Avante, camarada fez com o seu habitual brilhantismo. Nas suas canções, interpretadas de uma forma tremendamente sentida, falou-se do povo e dos seus sofrimentos, sonhos e lutas. A terminar, deixou «um abraço do tamanho do nosso Partido» – que, a julgar pelo comício realizado momentos depois, é mesmo muito, muito grande...

Os Dazkarieh, a quem coube a difícil missão de voltar à música depois do imenso e emocionante comício, cumpriram-na com distinção, arrancando uma bela actuação. «Os Peste & Sida estão na luta», começou por garantir o vocalista João Pedro Almendra que, mais adiante, afirmou que «isto vai ter que mudar». As próprias canções manifestam esta mesma atitude combativa, desde o «faz-te à vida / põe-te a mexer» de Revolução Rock a «Está na tua mão / mudar a situação». O baixista João San Payo constatou que a Festa «cada vez está melhor» e agradeceu a todos os que lá trabalharam, perante uma interminável multidão. Há muito que os Peste & Sida mereciam um concerto assim!

«Não há Festa como esta», começou por dizer Tim que revisitou um vasto repertório onde não faltou Zeca Afonso e Xutos & Pontapés. Quando cada um dos seus Companheiros de Aventura assumia protagonismo no palco, o público saudava-o e Mário Laginha, Vitorino, Rui Veloso e Celeste Rodrigues davam ainda mais de si próprios...



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