Viagens musicais
Um palco, três dias, 18 concertos, que corresponderam a igual número de horas, marcaram a programação do Auditório 1.º de Maio, um sucesso mais do que provado, que contou com a actuação de bandas de todo o mundo, nomeadamente de Portugal. Para além da música, que percorreu vários estilos e sonoridades, um leque enorme de ritmos, do jazz até ao fado, este espaço foi «palco» de sentimentos, de encontros e reencontros, onde foram feitas amizades, criados laços que nunca mais se deslaçam, onde aconteceu o primeiro beijo, sempre tímido e muito apaixonado.
Memórias, que ficam alojadas no tecto da memória, e que nos fazem esperar, com saudade, mais uma edição da Festa do Avante!.
Catarina dos Santos abriu a programação do Auditório 1.º de Maio, trazendo música do «triângulo negro» (Portugal, África e Brasil), onde apresentou ritmos e melodias da world músic. Cantando em português e em criolo, a cantora, com uma forte presença em palco e uma voz e um ritmo fabulosos, não deixou ninguém indiferente. Os instrumentos, numa perfeita improvisação, fizeram o resto. Os sons que nos falaram do mar, da saudade, de alegria. Um ambiente mágico, só possível na Festa do Avante!.
Os ritmos africanos prosseguiram com Dany Silva e Celina Pereira, um concerto dividido em duas partes, onde a alegria foi ininterrupta. Acompanhados por distintos instrumentos (cordas, percussão, teclas, sopro), os músicos proporcionaram uma hora com o melhor de Cabo Verde, onde as mornas e as mazurcas dominaram e fizeram dançar, como se não houvesse amanhã. O funaná extravasou todas as expectativas e fez estremecer o chão do 1.º de Maio. «É tão bom estar convosco», disse, emocionada, Celina Pereira, que interpretou, entre outras, «Beijo de saudade», numa referência ao Rio Tejo. O «obrigado, até à próxima», de Dany Silva, despertou o entusiasmo do público que pediu «só mais uma».
Os Muxima encerraram a programação do palco do mundo, numa homenagem ao Duo Ouro Negro. Um jogo de luzes iniciou o espectáculo, que num rodar de estações de rádio encontrou Janita Salomé, Filipa País, Ritinha Lobo e Yami.
«Eliza gomara saia», «Vou levar-te comigo», «Maria Rita», «Amanhã», «Menino de Braçanã», «Georgina», «Mãe preta», «Trem das onze», «Muxima», «Lindeza – moamba, banana e cola», deliciaram toda aquela plateia que, a cada minuto que passava, se enchia com cada vez mais e mais gente, tornando aquele espaço o maior palco do mundo, pelo menos em alegria, solidariedade e camaradagem.
Num carreiro de alegria e contentamento que parecia não ter fim, as pessoas saíram ordenadamente do espaço, umas em direcção a casa, outras à procura de mais animação, apreciar o último minuto daquele dia da Festa, a última bebida que se podia encontrar nas Organizações Regionais do Partido que se encontravam espalhadas por todo o recinto.
Música com raízes populares
No sábado o Auditório 1.º de Maio abriu com os Stonebones & Badspaghetti, uma banda de bluegrass, onde o banjo esteve em evidência. Um estilo com andamentos rápidos e constantes improvisos, de raízes populares e influências diversas, do folk ao blues. Um «comboio» que seguiu a todo o vapor, alimentado por uma energia incrível dos músicos, correspondida, sempre, por quem estava do lado de lá.
Claud, com uma voz quente e harmoniosa, proporcionou uma abordagem diferente, madura e concreta da música popular portuguesa. «Sejam bem vindos ao nosso pensamento», disse, no início, a cantora. Para além dos seus originais, onde não faltou «Viva a vida», «Chuva que dança e «Prantozinho da mulher inconsolada», a cantora recordou temas conhecidos, com musicalidades diferentes, de Sérgio Godinho, Nilton Nascimento e Jorge Palma. Uma semente que cresceu, desabrochou e se tornou uma bonita flor.
Os intervalos davam azo a conversas, a procurar uma bebida fresca, a escolher, olhando para a Revista da Festa, um local para jantar. Com esta ferramenta, um autêntico GPS que não falha nem precisa de actualizações, os visitantes enumeravam ainda aquilo que queriam ver e ouvir no resto do dia, face às inúmeras actividades que ali podiam desfrutar.
A música portuguesa deu lugar, entretanto, às músicas do mundo, com o grupo Monte Lunai, formação que apresentou uma sonoridade ímpar, combinando o violino, o contrabaixo e a guitarra com percussões várias e instrumentos de sopro, como a gaita de foles. Fizeram-nos viajar milhares de quilómetros, com uma extraordinária beleza musical, à Galiza, à Grécia, à Ucrânia, à Itália e, como não podia deixar de ser, a Portugal, numa roda viva de culturas e musicalidades. A malta gostava e gritava, de viva voz, «bravo» e no final «só mais uma», pedido que foi satisfeito. Os seus sons, que juntaram emoções e músicas de outros tempos, fizeram o público dançar, do início ao fim, e trilhar um mundo diferente. «Viva a vida. Viva a Festa do Avante!», disseram no fim.
Ritmos de improviso
Seguiu-se o jazz, com o Sexteto de Ricardo Pinheiro (guitarra eléctrica), um músico de fusões e multi influências, que se fez acompanhar dos melhores: Mário Laginha (piano) João Paulo Esteves da Silva (rhodes), Alexandre Frazão (bateria), Demian Cabaud (contrabaixo) e Pedro Moreira (saxofone tenor). Ali, num concerto desconcertante, foi apresentado um conjunto de influências que culminaram numa sonoridade distinta e profunda, com um som suave e límpido, onde a improvisação foi rainha e a qualidade soberba.
Com o sol a despedir-se e a noite a dar as boas vindas aos milhares que percorriam a Festa, a portuguesa Adriana subiu ao palco e deu um verdadeiro espectáculo, cantando e encantando, principalmente em português, com momentos de puro rock, entrosados com o jazz. Um som que seduziu, que envolveu docemente, «que não nos deixa voltar à nossa vida imperfeita», onde a cantora «nunca fica à espera» e toca flauta, guitarra e piano. «Banda secreta», «Em contramão», «Pedras do meu caminho», «Vida imperfeita», foram alguns dos temas apresentados, ritmos do coração que fizeram vibrar o público do 1.º de Maio. «Cara ou croa» foi a que mais entusiasmou.
A Naifa inundou o espaço com uma verdadeira depressão positiva, tão característica do fado, que a todos animou, com a sua sonoridade única. De volta à «luta», este projecto lançou à terra a semente que já deu frutos e mostrou uma imensa qualidade, com, entre outros, «Monotone», Senoritas» e «Filha de duas mães». Naquele espaço foi ainda apresentada a música «Quando disseste que me amavas», um som retirado do baú de João Aguardela, músico que fazia parte desta formação e que faleceu em 2009. Durante o espectáculo as desgarradas de Luís Varatojo entusiasmaram, a bateria de Samuel Palitos marcou tempos, intemporais, o baixo de Sandra Baptista puxava cada vez mais por nós e a voz Maria Antónia Mendes colocou ao rubro o Auditório 1.º de Maio. A «Desfolhada», interpretada por Simone de Oliveira no Festival da Canção de 1969, fechou aquele espectáculo.
Novas sonoridades
Num vai e vem de gente, que enchia por completo todo o espaço, o que é certo, e mais do que certo, é que depois do jantar a «malta» ficou com outra expressão, ainda mais risonha e grande disposição de descobrir novas sonoridades, desta vez vindas no outro lado do oceano. Os The Flawed Cowboys, banda composta por Mick Daly, Frankie Lane, Chad Dughi e Damian Evans, trouxeram-nos sons dos quatro cantos do mundo. O country, uma mistura de estilos populares, com raízes na música folk, espiritual e blues, esteve em destaque.
Quando a noite já ia longa, cada vez mais bela, subiu ao palco Bernardo Sassetti Trio, uma formação de competências superiores, composta por Carlos Barreto (contrabaixo), Alexandre Frazão (bateria) e Bernardo Sassetti (piano), que começou por tocar «Maria Faia», de Zeca Afonso, numa versão soft,que percorreu caminhos de improvisação. Seguiram-se narrativas fragmentadas, que nos levaram longe, muito longe. Um espectáculo que se pautou pela capacidade de surpreender.
Depois o tango, nascido em Buenos Aires, cidade que nasceu da dor e da solidão dos operários e dos emigrantes. Os Camba Tango trouxeram na sua «bagagem» o virtuosismo e o improviso, que ultrapassou todas as barreiras, a paixão intensa e a sensualidade, sentimentos que se entrosavam com a alegria do público, uma maneira de estar e viver diferente.
A noite terminou em grande com a Orquestra de Jazz de Matosinhos, uma formação dinâmica, constituída por alguns dos melhores músicos do País, que, para a Festa, convidou o guitarrista norte-americano Kurt Rosenwinkel. Uma sintonia perfeita entre o free jazz, sempre com o rigor da partitura, com um dos mais aclamados guitarristas da actualidade.
Alegria e boa disposição
No domingo, Os Tornados abriram as hostes, sem provocar nenhuma hecatombe, antes uma avalanche de boa disposição, com temas que nos fizeram recordar ou chegar aos anos 60. Em palco, confirmaram-se como um projecto do novo rock'n'roll nacional, tão bom de ouvir neste «Tempo de Verão» que teima em não nos abandonar. «Catraia», «Dança aí», «Coimbra», «Veludo azul», «Paris», «Valsa da despedida», «Twist do contrabando», foram alguns dos temas que fizeram dançar ao som do boogie-woogie.
Representantes máximos da recriação da música tradicional portuguesa, a Brigada Victor Jara brindou-nos, como já é hábito, com um espectáculo de «tirar a cartola», onde temas como «Mi Morena» encantaram e fizeram-nos sonhar, acordados. Pelo meio, Manuel Pires da Rocha ia falando da luta contra o fascismo, explicou o porquê do nome da formação e lembrou que «é preciso continuar a lutar contra as injustiças e desigualdades». «Todas as cantigas falam da vida. A vida é cantar a vida revolucionária», afirmou.
Da música popular voltámos para o jazz, com o contrabaixista argentino Demian Caboud a mostrar o seu olhar sobre este estilo musical, inovador, que aprofunda a liberdade de improvisação e adiciona magia a momentos especiais.
Depois de uma pequena pausa, com Ana Laíns regressou a música ligeira portuguesa e o fado. Na Atalaia, esta cantora, reconhecida internacionalmente, mostrou-se muito versátil, num concerto acolhedor e muito intimista.
As sonoridades de António Chaínho encerram sem lágrimas, antes com muitos aplausos, aquele espaço dedicado às músicas do mundo.
O mestre e embaixador da guitarra portuguesa fez-se acompanhar pela voz de Isabel Noronha e de Pedro Moutinho, trazendo até ao Avante! sonoridades do planeta, com destaque para a Índia, misturadas com a sua guitarra de 12 cordas. Momentos simples que nos fazem viver.
Era pois tempo de partir, de dançar a última Carvalhesa, de ver o último fogo de artifício, de nos despedirmos dos amigos e dos camaradas, de dizer adeus ao Verão e de nos «encontramos por aí», nas lutas que se avizinham, sempre por um mundo melhor.