Pavilhão da Ciência

A Matemática ao alcance de todos

Miguel Silva

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A singularidade da Festa do Avante!, entre muitos outros e marcantes aspectos, passa também pelo presença absolutamente incontornável do Pavilhão da Ciência, ocupando 560 metros quadrados junto ao lago, e que todos os anos materializa de forma singular e chamativa a valorização constante da importância do conhecimento científico e da sua divulgação por parte dos comunistas.

Milhares de pessoas visitaram, na edição deste ano, Ano da Matemática no Planeta Terra, a exposição «Fazer contas à vida, pensar e agir», que se afirmou ter por objectivo «contribuir para a divulgação de uma ciência muitas vezes mal compreendida, por complexo pessoal, desconhecimento da relação com a vida quotidiana ou más políticas educativas».

Dois destaques saltavam à vista na entrada daquele espaço. Um painel intitulado «Álvaro Cunhal e a Ciência», onde se reproduziam duas frases do incontornável dirigente comunista: uma relativa à concepção materialista dialéctica da evolução do conhecimento científico, e outra à usurpação dos avanços técnicos e tecnológicos como «instrumentos de exploração, de opressão, de violência e de guerra». O outro painel em destaque tinha como título «Marx e a matemática – a matemática de Marx» e como sub-título «pequeninos exemplos da grandeza de Marx». Neste segundo painel deu-se a conhecer o trabalho de Marx sobre matemática, que estando longe de ser tão reconhecido como os seus imprescindíveis trabalhos sobre economia política e filosofia, se revestem duma enorme importância, precisamente pela sua relação com todos estes trabalhos. Luís Vicente, no debate «Comunistas matemáticos: assumir a diferença», um dos cinco realizados no espaço Ciência, referiu essa relação entre o pensamento de Marx, o seu entendimento do mundo e a sua utilização da matemática como, por um lado, «uma ferramenta para a sua teoria económica», e por outro, como meio de exposição e clarificação do materialismo dialéctico.

Entrando e seguindo pela esquerda do Espaço Ciência, eram dados a conhecer aos visitantes milhares de anos de ciência exprimidos em torno da matemática, essa linguagem universal, mas que, como nesse pavilhão se aprendeu e comprovou, sempre existiu em constante evolução e enriquecimento. Desde as civilizações mais remotas na história humana, Grécia antiga, berço original da «Matemática como disciplina organizada e independente», e Babilónia, uma das «primeiras a contribuir para a evolução da Matemática», até aos primeiros desenvolvimentos da Matemática moderna, painéis informativos seguiam cronologicamente pela parede, complementados com outros que destacavam as grande personalidades matemáticas ao longo da história, desde Pitágoras, Fibonacci a Newton e Cantor, entre outros, sem esquecer Pedro Nunes, eminente matemático português do séc. XVI. De todos os expostos se ficou a saber, além da sua localização geográfica e cronológica, quais os seus principais contributos para a evolução da matemática. Uma referência destacada a Leonardo Da Vinci, “ilustrada” com uma escultura inspirada nos seus desenhos do homem-voador, acompanhada por uma referência da sua concepção de que toda a realidade poderia ser representada pela linguagem matemática.

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A magia da matemática

Como habitual, também ali estava um espaço reservado às crianças, em que saltava à vista um painel onde, sobre a duração da vida, se relacionava o tempo da vida humana contado pelo «número de duração das vidas» de outros animais, e onde se realizaram diversas actividades. Crianças que, de resto, se espalhavam como espectadores atentos e curiosos das muitas experiências levadas a cabo naquele espaço, fruto das parcerias do Espaço Ciência com diversas entidades. A Associação Ludus preencheu aquele espaço com o seu grupo de Magia Matemática (Matemagia), onde diversos circenses matemáticos, destacados dos visitantes pelas suas indisfarçáveis jardineiras de cor laranja, deslumbraram os mais novos e mais velhos com diversos truques envolvendo cartas, cordas e roupas.

Também o Núcleo de Física do Instituto Superior Técnico (NFIST) ali esteve presente, fazendo, demonstrando e explicando diversas experiências da sua área de estudo, que cativaram os muitos olhares dos presentes, envolvendo princípios da física como a inércia, electricidade, a luz, entre muitos outros.

O Auditório do Espaço Ciência confirmou, não só pela prolífica agenda de debates, mas também pela elevada participação nestes, que a expressão de Lenine: Aprender, Aprender Sempre, tem na Festa do Avante uma aplicação estrondosa. Em todos os debates, onde se discutiram diversas temáticas em torno da matemática, era notório o esforço de todos os oradores em tornar perceptíveis ideias e conceitos que se pensariam à partida ininteligíveis para a maior parte dos visitantes. Desde a explicação, apresentada no debate Fazer contas à vida: Portugal em números, pensar e agir por Carlos Santos, da base decimal da «nossa» matemática, relacionada anatomicamente com os dez dedos das mãos humanas, até à importância do ensino da matemática, da «maneira de fazer as contas», em aquele orador afirmava ser importante «não só fazê-las mas também compreender as contas que se fazem». Este debate contou ainda com a participação do militante comunista Carlos Revés, economista, que dentro da sua área relevou o papel da matemática como imprescindível para «acompanhar a sociedade» quantificando, medindo e relacionando os elementos duma economia, chamando contudo a atenção para o facto de o povo ser «bombardeado» com números e conceitos que não compreende e que induzem em erro. A este propósito, ocupando uma parede do espaço ciência, e precisamente com o tema Portugal em números, mais de uma dezena de painéis dissecavam conceitos como PIB, Défice, VAN, VAB, IRC e outros, que tantas vezes são usados, de forma enganosa, para justificar «inevitabilidades» e roubos.

Também neste auditório se debateram a vida e obras de comunistas matemáticos, com incontornáveis e destacadas referências a Bento de Jesus Caraça, mas também José Gaspar Teixeira, João Santos Guerreiro e outros. E foi precisamente neste debate que um dos oradores mostrou um livro de cálculo diferencial, com exercícios resolvidos directamente nas suas páginas, pela mão de Bento Gonçalves, 1.º Secretário Geral do PCP, durante a sua prisão no Tarrafal, campo de concentração onde este destacado dirigente comunista, operário do Arsenal da Marinha, viria a perder a sua vida.

Luís Vicente biólogo, e orador neste mesmo debate, dedicou toda a sua intervenção ao trabalho dum «matemático que era comunista e se chamava Karl Marx» e que entendia a «matemática a partir do real e daí para a abstracção». Este militante comunista referiu que o trabalho conhecido de Marx está espalhado em mais de 1000 manuscritos que só há alguns anos foram publicados.

Importa mencionar também a bela decoração do auditório no Espaço Ciência com painéis alusivos à presença da matemática nas artes, tal como a escultura, fotografia, desenho, arquitectura e outras.

A afluência ao espaço Ciência foi notoriamente elevada, multi-geracional, tendo sido facilmente observável que por ali passaram diversos níveis de «simpatia» pela matemática, bem como muito diversificados níveis de conhecimento desta ciência, mas percebendo-se de forma geral um enorme interesse, curiosidade e reconhecimento da importância da Matemática para a vida.




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