Ritmos de outro mundo
Após o Comício que abriu a Festa do Avante!, os «corações» voltaram a bater mais forte, agora no Auditório 1.º de Maio, ao som dos ritmos africanos, que nos transportaram para outros climas, quentes e muito sensuais.
Fantcha, de Cabo Verde, foi a primeira a subir àquele palco. Ao público, a lindíssima cantora apresentou a morna, estilo que reflecte a realidade insular daquele povo. 'Cinderela' foi um dos temas interpretados, que fazem recordar, com grande prazer, a voz de Cesária Évora, homenageada pela jovem artista, assim como o músico Bana. Aos dois, falecidos recentemente, Fantcha dedicou 'Carnaval de S. Vicente' e 'Mexe mexe'.
Cabo Verde voltou a estar no «centro» das músicas do mundo, com Zé Luís, uma voz quente e fascinante, que ressoa a essência do sentimento. 'Partida É Um Dor' e 'Sodadi Na Distância' foram dançados por milhares de espectadores. Entre cada um dos temas as palmas foram avassaladoras.
Seguiu-se Batida, que incutiu uma forte «pulsação» aos espectadores daquele palco. Este projecto combinou samples de músicas dos anos 60 e 70 angolanos com a electrónica moderna, interligada com a projecção de vídeos e imagens. Iniciaram a sua actuação com 'Bazuca', um depoimento de um angolano, recrutado à força para combater na guerra, onde perdeu a sua família e sobreviveu, com graves problemas de saúde. Hoje, este soldado, sem nome, enfrenta todos os dias uma nova batalha: a sobrevivência em tempo de paz. «Quem é que duvida? A guerra acabou mas o sofrimento continua», ouviu-se no espectáculo.
Seguiram-se outros sons, do chill out ao samba, sempre com um comentário político e social muito forte, como no tema 'Cuka'. «É a cerveja mais bebida de Angola. Por estranho que pareça é mais barata que a água», criticou-se. As músicas foram sempre acompanhadas por dois bailarinos que, vestidos com trajes tradicionais do seu país, ora um, ora outro, levaram ao rubro o espaço.
Música de qualidade
O segundo dia iniciou-se com os The Godspeed Society, que proporcionaram um espectáculo onde se combinou a música com o teatro. 'Jack', 'Rose Lithium' e 'Bloody City' foram «histórias» que muito agradaram. Foi no palco que se desenrolou toda a acção.
Seguiram-se os Stonebones & Bad Spaghetti, banda que regressou ao Avante! com o melhor do bluegrass, com novos e velhos temas, alguns cantados em português, como 'O quiosque lá da praça' e 'Coveiro amigo'.
Do bluegrass ao jazz contemporâneo, subiu ao palco Rodrigo Amado «Motion Trio» (Rodrigo Amado, Miguel Mira e Gabriel Ferrandin), com Steve Swell (trombonista). Aqui os instrumentos «clamaram» a sua independência, unindo-se desconcertadamente. No final, as palmas do público foram uníssonas.
Seguiram-se Os Pé na Terra, que, à Festa, trouxeram o melhor da música popular portuguesa, apresentando sonoridades únicas. Abriram o concerto com um instrumental, onde o acordeão, as percussões, as gaitas-de-foles, o adufe, a bateria, a guitarra, entre outros instrumentos, estiveram em destaque. «É sempre bom estar aqui», sublinhou Cristina Castro, vocalista que, de início ao fim, se entrosou com os amigos e camaradas que estavam à sua frente. 'Escadas de Luar', 'Balada do Sino' (de Zeca Afonso), 'Farrapeira' e 'Sentir', com a voz-off de Álvaro Cunhal, foram temas dançados pelo público, até ao último acorde.
Minutos depois subiu ao palco a Orquestra do Hot Club de Portugal, dirigida pelo maestro Luís Cunha. Esta formação surpreendeu pela positiva, trazendo pura arte saída dos instrumentos.
Influências do mundo
Mariem Hassan, do Saara Ocidental, foi a «diva» que se seguiu, tendo apresentado um espectáculo onde os blues, o jazz e os sons contemporâneos marcaram lugar. Com uma voz de tirar o fôlego, apenas aos espectadores, falou, cantando, da luta pela independência do seu país e das dificuldades que o povo atravessa. Na parte final, a cantora foi acompanhada por Sebastião Antunes. «É uma honra estar neste palco com Mariem Hassam, pelos ideais políticos que defende», disse o vocalista dos Quadrilha, que cantou a 'Cantiga da Burra', em resposta a uma provocação do antigo rei Hassan II, de Marrocos, que afirmou que os saauris eram considerados os «camelos» daquele país.
Seguiram-se os Rat Swinger, formação composta por João San Payo, Ian Mucznic e João Leitão. As influências do jazz – personalizadas em temas de, por exemplo, Duque Ellington – e do charleston foram por demais evidentes, entrosando-se com outros estilos musicais. 'That's Why They Call Me Shine' foi brilhantemente interpretado.
Serva La Bari foram os «senhores» (Joaquim Moreno, El Pulga e Carlos Mil-Homens) que se seguiram – acompanhados por Sofia Abraços e El Maleno, que, com a sua dança, hipnotizaram o público –, dando a conhecer o melhor da música flamenca. Joaquim Moreno dedicou o espectáculo «a todos os homens e mulheres que, como ele, nunca se calam».
O penúltimo concerto de sábado coube a Maíra Freitas, uma «estrela» que nasceu no Brasil e que fez brilhar, ainda mais, a Festa do Avante!. Acompanhada por Cassius Theperson, na bateria, a primeira parte do espectáculo desenrolou-se ao piano, onde a artista tocou e cantou 'Morena Rosa', 'Feeling Good', de Nina Simome, e a versão de Martinho da Vila, seu pai, de 'Boemia'. Seguiram-se outros temas, como 'Maracatu Nação do Amor' e 'Dream a Little Dream of Me', já cantada por Ella Fitzgerald, assim como por muitas outras grandes estrelas da música.
No dia do aniversário do seu irmão e da independência do Brasil, como lembrou, Maíra Freitas, tocando depois num pequeno sintetizador, onde compunha enquanto actuava, criando ritmos deliciosos, cantou 'Corselet', 'Não me balança mais' e, por último, «para todos os que não desistem», 'Mambembe', de Chico Buarque.
Os Eléctricos encerraram a programação, de sábado, com muita alegria, interpretando temas, reinventados, como 'Canção da papoila', 'A Agulha e o dedal', 'Óculos de sol', 'Papoila', 'Olhos castanhos', e apresentando outros novos: 'Boite do Estoril' e 'Love Me Tender À Beira do Mar'.
Executantes magníficos
No domingo os The Garlic Naan Band apresentaram-se como uma banda com fortes ligações ao country, ao rock e aos blues. Os cinco músicos, para além de magníficos executantes das guitarras, do baixo, da bateria e da harmónica, deram voz a temas que falam do dia-a-dia de um povo. 'Deep Pale Blue Eyes', 'The Deep Breath Before The Plunge' e 'On The Wrong Side Of The Road', entusiasmaram.
Mais tarde subiu ao palco o Quinteto Bruno Santos, que harmonizaram «músicas que misturam gerações». A sua sonoridade é, sem dúvida, alternativa, muito diferente do que habitualmente nos «obrigam» a consumir. 'Contra-baixo não é argumento' é disso um bom exemplo.
Muito esperado foi também o concerto de Kalú, o baterista dos Xutos & Pontapés, que apresentou o seu novo projecto: um manifesto de liberdade. A entrada em palco ficou marcada por uma grande ovação do público, que «curtiu», sem parar, os temas do álbum «Comunicação». Encerrou o momento com 'Contentores'.
Fado intemporal
«Silêncio que se vai cantar o fado». Depois do grandioso comício de encerramento da Festa do Avante!, Gisela João, vestida de branco, rompendo tradições, acompanhada por três outros músicos, foi a primeira fadista a subir ao palco do Auditório 1.º de Maio. Tocou temas inéditos como 'Meu amigo está longe', mas também temas de outros compositores e músicos, como Alfredo Marceneiro ou Zeca Afonso, encerrando a sua actuação com 'Os Vampiros'. Segundo Gisela João, que muitos comparam com Amália Rodrigues, aquele concerto foi «incrível» e fez «tremer as pedras da calçada, quanto mais o meu coração de pipoca».
Cristina Branco – acompanhada ao piano, contra-baixo e guitarra portuguesa – foi a fadista que se seguiu, e que voltou a encher o espaço. 'Trago um fado' foi o primeiro dos muitos interpretados. Seguiram-se outros, como 'Alice no país dos matraquilhos', de Sérgio Godinho, e 'Foi por ela', de Fausto. Do público saiu um «Lindo!». Quase a terminar, tempo houve ainda para escutar 'Se não chovesse', 'Miriam' e 'Construção', de Chico Buarque. No final, Cristina Branco deixou-nos com os seus «heróis», os músicos que a acompanhavam, e terminou, em grande, com 'Redondo Vocábulo', de Zeca Afonso, e 'Bomba Relógio', de Sérgio Godinho. «Até sempre. Viva a Festa», despediu-se a cantora.
António Zambujo, expoente máximo de nova geração de músicos, conduziu, àquele espaço, mágico por três dias, o seu encanto, simplicidade, serenidade e charme, convertidos na música que ofereceu, do fado ao jazz, passando pela bossa nova e pelo cante alentejano. 'A casa fechada', 'Algo estranho acontece', 'Fortuna', 'Maria', 'Lambreta', 'Guia', 'Apelo', de Vinícius de Morais, 'Fado desconcertado', 'Balada de Outono', de Zeca Afonso, 'A tua frieza gela', 'Quando tu passas por mim', 'Zorro', foram alguns dos temas cantados por todos, bem devagar, acompanhados pela música da guitarra portuguesa, do clarinete, do trompete e do contra-baixo. «Esta Festa é maravilhosa», disse António Zambujo, que terminou com 'Readers Digest' e 'Amor de mel, amor de fel'.