A sociedade transforma-se com arte
Dois acontecimentos marcaram a edição deste ano do Avanteatro – o centenário do nascimento de Álvaro Cunhal e a homenagem a Joaquim Benite. Ambos consideravam a cultura como «um acto político, e a política – uma expressão da cultura, visando a libertação do homem de toda a forma de exploração».
O encenador de Almada deixou-nos no final de 2012, poucos meses depois de ter lançado mãos à peça «Um Dia os Réus Serão Vocês», inspirada na defesa que o líder comunista apresentou ao tribunal fascista em Maio de 1950.
O monólogo, protagonizado por Luís Vicente com encenação de Rodrigo Francisco, actual director do Teatro de Almada, teve duas apresentações que terminaram invariavelmente com o público de pé, ovacionando os actores, e emocionado com a profundidade de um texto que evidencia as contradições insanáveis do sistema capitalista, seja em sob a repressão aberta do regime fascista, seja sob a violência dissimulada da democracia parlamentar burguesa.
Por isso, no final, público e actores, de punho erguido, uniram-se num só grito: «Fascismo nunca mais, a luta continua!».
Antes de o pano cair (ou as luzes se apagarem), no anfiteatro ouviu-se a voz gravada de Joaquim Benite condenando as políticas culturais seguidas nas últimas quatro décadas em Portugal.
No breve extracto, o intelectual e militante comunista salientou que «o homem precisa tanto de cultura como das outras coisas» e deixou claro que a sua actividade, enquanto criador cultural, se inscreve na «luta geral» do Partido, a que sempre pertenceu, e de «outras forças progressistas para transformar o país: temos a total convicção de que o transformaremos».
Como nos explicou Manuel Mendonça, membro da Comissão do Avanteatro, a evocação de Álvaro Cunhal e de Joaquim Benite dominou directa e indirectamente toda a programação deste ano.
Para além das duas representações do julgamento, o líder histórico comunista foi também lembrado no espectáculo «Barrigas e Magriços», adaptado do conto infantil da sua autoria pelo Teatro Fórum Moura em parceria com o grupo almadense Teatro Extremo.
Ainda integrado no centenário, o público da Festa pôde assistir à estreia do espectáculo «Coragem hoje, abraços amanhã», criado e interpretado por Joana Brandão, a partir de testemunhos de dezenas de mulheres que foram presas e sofreram as mais bárbaras torturas pelos verdugos da PIDE.
Um criador de públicos
Grande parte dos grupos e artistas que actuaram este ano no Avanteatro desenvolvem a sua actividade ou têm raízes em Almada. Não foi uma casualidade, como nos confirmou Manuel Mendonça, mas uma forma de pôr em evidência a importância e alcance do trabalho pioneiro de Joaquim Benite, que apostou na descentralização cultural e na criação de novos públicos na periferia da capital ao instalar, em 1978, o Teatro de Campolide no concelho da margem sul.
Desde então gerações de novos actores deram vida à Companhia de Teatro de Almada. E foi dela que partiram para abraçar novos projectos artísticos – sementes que vingaram e se multiplicaram, transformando radicalmente a vida cultural do concelho, onde hoje existe uma moderna rede de infra-estruturas para a criação e fruição artística.
«A vida não pode restringir-se à economia do quotidiano. A arte – sonho do Homem – é o destino final do Homem». Esta epígrafe estava inscrita na fotografia de grandes dimensões de Joaquim Benite, que dominava o átrio do Avanteatro, interpelando milhares de pessoas que por ali passaram nos três dias da Festa.
No mesmo espaço uma interessante exposição convidava os visitantes a percorrerem dezenas de manuscritos do encenador, que nos revelaram a sua escrita burilada, a profundidade do seu pensamento sobre a cultura e a vida, a minúcia com que preparava a organização dos eventos, entre eles a maior criação da sua vida – o Festival de Teatro de Almada, hoje considerado como um dos maiores festivais de teatro do mundo.
Destas e de outras facetas de Joaquim Benite falaram vários oradores no debate que teve lugar no sábado (ver caixa). No domingo, um notável documentário realizado por Catarina Neves permitiu-nos acompanhar aquela que seria a última criação do encenador: «Timão de Atenas», de Shakespeare.
O filme mostra-nos um artista inteiramente dedicado ao seu trabalho, resistindo à doença com todas as forças para levar à cena mais um texto, mais um espectáculo, que veio a ser estreado em 20 de Dezembro de 2012, já sem a presença de Joaquim Benite, falecido 15 dias antes.
Diversão, humor e realidade
A vasta e variada programação incluiu como já é tradicional as manhãs infantis, desta vez com a divertida peça «Os Gatos», da Companhia de Teatro de Almada, e no domingo, com os «Contos da Mata dos Medos», pela Associação Cultural O Mundo do Espectáculo, um projecto diversificado desenvolvido a partir do concelho de Almada que abrange desde a produção de espectáculos à formação de professores, educadores de infância e monitores de ATL, bem como oficinas para o público infantil, juvenil e adulto.
O público mais novo pôde ainda deliciar-se com o teatro de marionetas Valdevinos, que apresentou no sábado à tarde a peça «Constantino “O Contador de Fábulas”».
Ainda nas tardes de sábado e domingo, uma delegação chinesa deslumbrou o público do Avanteatro com a sua milenar cultura. Assistimos a um teatro de marionetas muito especiais, articuladas por mais de três de dezenas de fios que, pela sua complexidade e perfeição foram reconhecidas pela UNESCO como património imaterial da humanidade.
Entre vários outros prodígios, foi também oportunidade para ouvir uma espantosa cantora lírica, que interpretou belas melodias chinesas, um das quais, composta há mais de 250 anos, entrou na famosa ópera «Turandot» de Giacomo Puccini.
O humor marcou a noite de sexta-feira, com a clown Cármen, que nos contou de forma peculiar a história do Romeu e Julieta, e com «Adalberto Silva Silva, um espectáculo de realidade», com texto de Jacinto Lucas Pires, para rir a sério.
O trabalho precário que afecta em particular os jovens, assunto grave mas também tratado com muito humor, foi trazido, no sábado à noite, pelo Grupo Gentes, com a peça estreada no Fundão «Um dia de Raiva».
No exterior, as noites foram animadas pela Companhia Marimbondo, com o espectáculo «Miss E@sy, a Matrafonia Total», em que a música alterna com divertidos números teatrais.
A dança encerrou a programação no palco, com o espectáculo «Sempre Benvindo», pela Companhia de Dança de Almada. A apresentação incluiu excertos de dois espectáculos: «Casa do Rio», estreado em 2011, e Edzer, estreado no mesmo ano pela Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo. Este último contou com a participação do grupo de percussão Batucadeiras de Bibinha Cabral.
No palco do bar
Este apontamento não ficaria completo sem uma referência aos músicos de jazz que fecharam as noites de sexta e sábado. Foram eles o Nuno Tavares Trio, formado Luís Candeias, bateria, Pedro Teixeira, contrabaixo e Nuno Tavares ao piano.
Na noite seguinte, madrugada dentro, actuou o Mano Quarteto, grupo liderado por André Santos, guitarra, e igualmente integrado por Nuno Tavares, piano, Carlos Mil-Homens, percussão, e Óscar Torres, contrabaixo.
Este projecto musical estreado em Abril de 2011 explora o universo da música erudita, atravessando as sonoridades do jazz ou os ritmos do flamenco. Para quem os ouviu, as noites foram longas mas inesquecíveis.
O espaço encerrou no domingo com os Voodoo Marmelade, que tal como o nome indica é um grupo que faz uma «marmelada» de estilos, passando dos clássicos dos anos 50 e 60, do rock dos anos 80 até ao pop contemporâneo.
Com um som original, a banda consegue misturar Madredeus com Manu Chau ou George Michael com Johnny Cash, ou ainda músicas tradicionais dos Açores com Metallica. Tudo isto com a particularidade de utilizarem para além do baixo e da percussão, seis ukuleles – a instrumento criado no século XIX no Havai a partir de instrumentos levados por madeirenses que emigraram para aquelas ilhas para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar.
E foi assim que a edição do Avanteatro terminou em ambiente de grande festa e alegria, com a promessa firme de voltarmos para o ano.
Homenagem a Joaquim Benite
Um lutador
No sábado à tarde, o átrio do Avanteatro encheu-se de gente. Não estava marcado nenhum espectáculo, mas um debate sobre a vida e obra de Joaquim Benite.
A sessão foi introduzida por Pedro Pina, em representação do Avanteatro, que deu a palavra sucessivamente a Margarida Botelho, membro da Comissão Política do PCP, Luís Vicente, actor que trabalhou mais de 30 anos com o encenador, Teresa Gafeiro, companheira de Joaquim Benite ao longo de 36 anos, Miguel Tiago, deputado do PCP na Assembleia da República e por fim a Amélia Pardal, vereadora na Câmara Municipal de Almada.
No final das intervenções alguns dos presentes fizeram questão de ali deixar o seu testemunho sobre o encenador falecido, caracterizado por todos com um homem de combate, um lutador.
«Um Dia os Réus Serão Vocês, O Julgamento de Álvaro Cunhal», Companhia de Teatro de Almada
«Julieta», Teatro dos Aloés
«Miss E@sy, a Matrafonia Total», Companhia Marimbondo
«Os Gatos», Companhia de Teatro de Almada
«Constantino, O Contador de Fábulas», Valdevinos – Teatro de Marionetas
Música e teatro da província de Fujian (China)
«Coragem Hoje, Abraços Amanhã», Joana Brandão
Nuno Tavares Trio
«Contos da Mata dos Medos», Associação Cultural O Mundo do Espectáculo
«Os Barrigas e os Magriços», Teatro Fórum de Moura
«Sempre Bem-Vindo», Companhia de Dança de Almada