Alegria de viver e de tocar
Os artistas que ao longo dos três dias da Festa do Avante! pisaram o Palco Paz cumpriram a promessa de uma programação diversificada e de qualidade. A estes juntou-se um público alegre que só acrescentou ao bom ambiente que ali se fez sentir.
O PCP, os seus militantes, amigos e simpatizantes voltaram a demonstrar que ninguém ergue uma festa como aquela que acontece anualmente na Atalaia. Foi isso o que a 45.ª edição da Festa do Avante! demonstrou ser: linda, incrível, grandiosa, (quase) indescritível.
Para quem já lá esteve e viveu três dias do mais puro sentimento de fraternidade que ali se respira, neste ou noutro ano anterior, não é novidade a variedade de momentos e espaços capazes de aguçar o interesse de qualquer visitante. Ainda assim, nesta Festa, o Palco Paz foi particularmente entusiasmante. Do rock psicadélico e da música ligeira ao jazz e à música tradicional do planalto de Miranda, no mais recente palco da Festa do Avante!, não houve visitante que não tenha encontrado algo de que não gostasse.
«O importante da Festa são as pessoas»
A primeira Carvalhesa do Palco Paz soou quase imediatamente após a mensagem de boas-vindas de Jerónimo de Sousa ecoar por todo o recinto. Era o toque de chamada para os Rua entrarem em cena.
Oriundos de Lisboa, o grupo encontrou um público ansioso e expectante na plateia, mas foi o ritmo tradicional vestido de uma sonoridade contemporânea que atraiu a atenção dos que subiam ou desciam as alamedas que ladeavam o palco, dos que desfrutavam da vista privilegiada do Espaço Aveiro logo atrás da plateia ou dos que aproveitavam a sombra do lado esquerdo da plateia.
Para os Rua, que «já não tocavam ao vivo “há não sei quanto tempo”», o melhor do seu concerto foi terem a oportunidade de estar com pessoas a ouvir a sua música.
A noite no Palco Paz continuou com mais dois concertos, o último dos quais de Toy. Sem sombra para dúvidas, este foi um dos momentos mais marcantes das muitas horas de programação daquele palco.
Não existem muitas pessoas que não o conhecem. Dos que o conhecem, poucos são os que não estão cientes da sua capacidade de reinvenção e do talento para surpreender. Toy é um músico do povo e soube agradar à plateia. Num concerto com forte cunho político, o músico natural de Setúbal não escondeu o seu reiterado apoio à CDU e a sua afinidade com o PCP. Muito embora não seja militante, afirmou, é o Partido com o qual se identifica.
A noite que se fez sentir fresca no Seixal foi completamente tomada pelo calor humano tão próprio do sentimento de alegria que ali se viveu. Momentos inéditos foram ainda a interpretação dos temas Traz outro amigo também e Vejam Bem, de José Afonso, uma pequena homenagem a Adriano Correia de Oliveira e ainda uma curta interpretação de AInternacional.
Música do mundo
No sábado, La Mauvaise Réputation não foi a primeira banda a pisar o palco, mas fê-lo de forma confiante. Vanessa Borges, João Novais e Gonçalo Mendonça trouxeram consigo o objectivo de assinalar o centenário do nascimento de Georges Brassens, um dos maiores nomes da Canção Francesa. O público aclamou-os quando apresentaram o tema que dá nome ao seu grupo, La Mauvaise Réputation (ou A Má Reputação).
Já no domingo, o Palco Paz recebeu também os concerto de Senza e Hill’s Union. Os primeiros guiaram os visitantes da Festa por uma enorme viagem. As suas músicas são sobre as suas viagens. Da mesma forma que um fotógrafo se vê tentado a capturar uma viagem e um escritor a escrevê-la, os Senza expressam todas as suas emoções e memórias das viagens que realizaram através da música.
Os Hill’s Union formaram-se com o objectivo de dar a a conhecer a obra do sindicalista e compositor estado-unidense Joe Hill. Desde então, o seu repertório distanciou-se da ideia original, mas foi assim que abanaram o público que no último concerto do Palco Paz esperavam um bom adeus: uma fusão entre um rock poderoso e blues, com muita consciência de classe à mistura.
Novos valores
Puçanga, Zé Cantigas e El Gordo, Conjunto Júlio e Feynman foram as quatro bandas finalistas ou convidadas pelo Concurso de Bandas da Juventude Comunista Portuguesa. Tanto umas como outras, com diferentes estilos, actuações e géneros musicais, souberam mostrar alguns dos novos e promissores novos valores da música portuguesa.
Valorizar a cultura e a tradição
No Palco Paz a tradição, para além da qualidade e do valor de todos as actuações que por lá passaram ao longo dos três dias, assumiu uma forte presença na programação.
Quatro dos 13 grupos ou artistas que subiram ao Palco Paz trouxeram consigo à Festa do Avante!, e de forma soberba, sonoridades muito ligadas aos sons tradicionais portugueses.
Logo na noite de sexta-feira, as gaitas-de-foles dos Cabra Çega anunciaram ao que o grupo, que entrou em palco sem rodeios, vinha: «Boa noite Avante! Bem-vindos ao melhor concerto das vossas vidas!». Os sons mais lentos e suspensos intermediados com os ritmos mais frenéticos de roupagem mais moderna marcaram o concerto do grupo que afirmou no final «Isto não é um festival, é uma Festa. Tem alegria, amor e amizade. Isto não há em mais lado nenhum».
Já a Orquestra de Foles, que actuou no sábado, não deu um toque moderno à sua música. Não foi preciso, o público bailou e dançou da mesma forma ao som das gaitas que quase evocam um Portugal de outrora ou o planalto Mirandês.
Ainda no sábado, a seguir à Orquestra, entraram Os Burricos, que na sua totalidade lembram e respiram cultura mirandesa. Desde o nome, uma homenagem ao burro mirandês, um elemento central da cultura mirandesa, até aos instrumentos e língua em que tocaram e cantaram.
Por fim, a Charangaencerrou o Palco Paz no segundo dia da Festa. Desta vez, a estrela foi o cancioneiro popular português e galego, com diferentes nuances e recursos que foram capazes de dar a estas músicas tradicionais um novo folgo e novas roupagens.