Lisboa - Unidos e firmes
Os trabalhadores assumem a vanguarda da luta
Assaltados nos seus salários e direitos; confrontados com a regressão das condições de vida da esmagadora maioria dos portugueses, mas unidos e firmes na vontade de reconduzir o País ao projecto de Abril roubado por décadas de contra-revolução, os trabalhadores do distrito de Lisboa deram uma expressiva resposta na greve geral.
Foram horas a fio num combate de classe. À porta de centenas de empresas, logo a partir dos primeiros turnos do dia 24, os piquetes asseguravam o sucesso da jornada, ora convencendo os que ainda hesitavam em tomar partido ao lado dos seus camaradas, ora garantindo o cumprimento da Constituição e da legislação laboral.Numa dessas situações, Manuel Carvalho da Silva acompanhado por outros dirigentes sindicais do distrito e trabalhadores da recolha de resíduos sólidos urbanos da Câmara Municipal de Lisboa, lograram ganhar para a greve alguns dos que ainda hesitavam.
Minutos depois, rodeado pelo piquete presente nos Olivais, o Secretário-geral da CGTP-IN sublinhou que, com aquela forma de luta, são os trabalhadores quem mais se sacrifica. Mesmo perdendo um dia de salário, e não raramente arriscando retaliações posteriores por parte dos exploradores, assumem a vanguarda de uma batalha para resgatar Portugal do atoleiro em que se encontra, fruto do endividamento promovido pelo grande capital e pelos sucessivos governos ao seu serviço, que multiplicaram roubos públicos e privados e agora apresentam a factura a quem trabalha ou já trabalhou, esclareceu.
Grande resposta
A resposta dada pelos trabalhadores foi expressiva, já o dissemos. Os dados confirmam a afirmação. Adesão absoluta à greve geral foi registada em alguns segmentos dos transportes do distrito. Metro, EMEF, NAV ou CP Carga são exemplos.
Paralisação total, igualmente na maioria das áreas da Administração Pública central e local, com escolas, hospitais, câmaras municipais, juntas de freguesia e empresas municipais, repartições das Finanças e Segurança Social, correios e outros balcões de serviços públicos encerrados.
No Porto de Lisboa, controlo de tráfego e estiva encerraram completamente.
No sector privado, os trabalhadores pararam a produção na Tudor, Centralcer e Provimi. Significativas adesões aconteceram na Cerâmica da Abrigada e na Cavam, na Celcat e na Vitrohm, na Kraft, Impormol e na gráfica Mirandela. Na Parque Escolar, estiveram em greve metade dos 180 trabalhadores. Na Tempo Team, somente cinco das 24 linhas do call-center da EDP entraram em funcionamento.
Na Refer e CP, funcionaram os serviços mínimos, embora, nestes casos, valha a pena relatar a batalha travada por trabalhadores e população, que se uniu aos piquetes elevando o protesto.
Resistir sempre
Nos comboios suburbanos da Linha de Sintra, a convocatória para os serviços mínimos não cumpriu as normas. Alertados para a situação, vários piquetes móveis deslocaram-se às estações de Sintra e Meleças. A ocupação dos carris impediu que se consumasse a ilegalidade, mas ao início da manhã, já na Estação do Cacém, um contingente policial obstruiu a acção dos piquetes e identificou todos os membros. Nenhum dos elementos da PSP estava identificado e recusaram-se a fazê-lo.
Situações em que as forças da ordem foram colocadas ao lado do patronato e da sua comissão de negócios no Governo, intimidando e reprimindo os piquetes, deputados do PCP incluídos, ocorreram também na Vimeca, na Scotturb, no SMAS de Oeiras, e na Carris em Cabo Ruivo, Musgueira, Pontinha, Santo Amaro e Miraflores. Neste caso, a empresa assumiu mesmo uma postura provocatória exigindo serviços mínimos para carreiras que pretende eliminar, disse Miguel Tiago, eleito comunista no Parlamento.
Sem regatear esforços na luta, milhares terminaram a jornada com uma grande manifestação. Entre o Rossio e a Assembleia da República, trabalhadores dos sectores público e privado organizados nas respectivas estruturas do movimento sindical de classe, salientaram que «o programa de agressão só aumenta a exploração» e que «a luta continua nas empresas e na rua».
À passagem pela Rua do Carmo, voaram do elevador de Santa Justa pequenas tarjetas que apelaram à concentração que hoje decorre, às 09h30, junto à Assembleia da República. O objectivo é mostrar que os trabalhadores rejeitam o Orçamento de agressão. Que perante a ocupação do País pela troika estrangeira e o roubo do povo pela tridente da política de direita (PS, PSD e CDS), erguem-se os trabalhadores, com coragem e como a grande força colectiva da mudança que são, como referiu Manuel Carvalho da Silva na intervenção de encerramento da manifestação.
Jornalistas em greve
O Sindicato dos Jornalistas (SJ) saudou todos os trabalhadores que aderiram à greve geral, e salientou as significativas participações registadas na RTP e na Lusa.
Em comunicado, o SJ indica uma paralisação global entre 70 a 75 por cento na estação pública de televisão, adesão de jornalistas e outros trabalhadores da comunicação social que teve evidentes efeitos na emissão.
Programas informativos como o Bom Dia «claramente afectado pela falta de meios no terreno e no interior da própria Redacção», e o Jornal da Tarde, «que teve de ser feito em Lisboa e não no Porto, como habitualmente», são exemplos referidos.
Para o SJ, os serviços informativos ressentiram-se dos efeitos da greve ao longo de todo o dia. Cenário idêntico ocorreu no entretenimento, com «o programa Praça da Alegria, transmitido em directo, a ser gravado dois dias antes». No Serviço Público de Rádio, «foi determinada a suspensão dos serviços noticiosos na Antena 2 e na Antena 3» e «suspensas as sínteses informativas das meias-horas» na Antena 1.
Quanto à Agência Lusa, o SJ diz que «a adesão global dos jornalistas ultrapassou os 50%, tendo sido muito significativa nalgumas editorias».
«Noutros órgãos de informação, nomeadamente nas rádios e na imprensa, as adesões foram significativamente menores e tiveram mesmo pouca ou nula expressão nalgumas redacções, factos que o SJ não dissocia do clima de medo e mesmo de intimidação que se vive em inúmeras empresas».
Intelectuais apoiam
Intelectuais dos mais diversos quadrantes profissionais manifestaram a sua concordância com a jornada convocada pela CGTP-IN. Num documento divulgado pela União de Sindicatos de Lisboa, mais de 150 apoiaram publicamente a greve geral.
CGTP demarca-se
de incidentes
Reagindo a informações veiculadas por alguns órgãos de comunicação social, a CGTP-IN emitiu um comunicado de imprensa no qual desmente que a central sindical ou qualquer membro da organização da manifestação por si promovida em Lisboa tenha estado nos incidentes ocorridos ao final da tarde junto à escadaria da Assembleia da República.
A Confederação salientou ainda a sua concordância com o apuramento dos factos e aproveitou para «denunciar o comportamento abusivo, exorbitando as suas competências, por parte de algumas forças de segurança junto de piquetes de greve.
«Não será por certo necessário repetir a forma ordeira, pacífica e estruturada como a CGTP-IN, desde sempre, organizou os seus processos de luta, nomeadamente manifestações e concentrações, e como, também desde sempre, condenou actos de confronto social, mesmo que os compreenda», diz o documento.