Setúbal - Tradição combativa que se reforça
Muitas indústrias viram a produção parada no dia 24
Não renegando a sua tradição combativa, os trabalhadores da Península de Setúbal aderiram de forma massiva à greve geral. Num comunicado do próprio dia, a União dos Sindicatos falava do «aumento generalizado das adesões em todas as empresas e locais de trabalho», comparativamente com a greve geral anterior. Tendo em conta que a paralisação de Novembro de 2010 foi imensa, que dizer da adesão verificada na passada quinta-feira? «Extraordinária» – segundo o Executivo da Direcção da Organização Regional de Setúbal do PCP.
Cedo se percebeu que se estava perante uma grandiosa greve geral. Ainda o dia 24 não tinha começado e já se registava adesões significativas em diversos locais de trabalho. Num momento em que era claro que não haveria na região recolha de resíduos sólidos urbanos (a adesão dos trabalhadores das autarquias situou-se entre os 90 e os 100 por cento), confirmava-se o que era também esperado: nenhum barco cruzou o Tejo devido à adesão a 100 por cento dos trabalhadores da Transtejo e da Soflusa. À meia-noite, em Cacilhas, o cais de embarque tinha as portas fechadas e assim se manteve durante todo o dia. O mesmo sucedeu no Barreiro, no Seixal e no Montijo.
No Porto de Setúbal, a adesão foi também de 100 por cento, o mesmo se verificando com a frota pesqueira da Fonte da Telha, Costa da Caparica, Trafaria e Lavradio. A 100 por cento estiveram igualmente a CP, CP Carga, Refer e os Transportes Colectivos do Barreiro. Nos TST a participação situou-se nos 75 por cento e na Fertagus houve perturbações de tráfego.
Sem trabalhadores nada se produz
Às 11 da noite de dia 23, hora de mudança de turno na Autoeuropa, praticamente não se via vivalma nas imediações da fábrica de Palmela da Volkswagen. Excepção para o piquete de greve e para os deputados do PCP Francisco Lopes e Bruno Dias que com ele contactavam.
Também no parque industrial ali ao lado não se assistia, às primeiras horas da manhã, a grandes movimentações, habituais em qualquer outro dia. «Estamos perante um ataque brutal à democracia, aos direitos constitucionais. Ninguém escapa, novos ou velhos, do sector público ou do sector privado, homens e mulheres, efectivos ou precários», ouvia-se a partir de um carro de som que acompanhava o piquete que tentava persuadir os seus colegas a aderir à greve. A deputada Paula Santos ali esteve a prestar solidariedade.
Na Lisnave o panorama era semelhante: um movimento muito inferior ao habitual pelas sete horas da manhã. No estaleiro entraram apenas os trabalhadores e bombeiros fundamentais para garantir a segurança e alguns funcionários administrativos. Os jovens que todos os dias ali se deslocam a tentar a sorte (numa reedição das famigeradas praças de jorna) acabariam por sair, sem trabalho. Ao final da tarde, a USS/CGTP-IN destacava uma adesão a rondar os 100 por cento.
Tanquipor e EMEF estiveram a 100 por cento; a Alston a 98 por cento e a Visteon a 75 por cento; na Nova AP a adesão foi de 60 por cento e na Delphi 50 por cento. As cimenteiras Secil e CNE e empresas como Refrige, Parmalat, Maxam, SEAE, Montitec e Metalurgia de Alhos Vedros registaram adesões consideráveis. No Jumbo de Setúbal e no Continente do Montijo rondou os 30 por cento. Na Amarsul registou-se uma participação de 100 por cento e na Simarsul atingiu os 80 por cento.
Serviços públicos quase parados
Também no sector da administração pública central se fez sentir o forte impacto da greve. Os hospitais e centros de Saúde registaram forte adesão, particularmente de auxiliares e enfermeiros, e foram largas dezenas as escolas dos ensinos Básico e Secundário que estiveram encerradas ou sem aulas. No Instituto Politécnico de Setúbal a adesão situou-se próxima dos 100 por cento e nos refeitórios dos hospitais do distrito rondou os 80 por cento. Na distribuição postal foi de 65 por cento. Centros da Segurança Social, finanças e tribunais, bem como creches e infantários encerraram completamente ou foram fortemente afectadas no seu funcionamento.
Defender o Arsenal e a soberania
À porta do Arsenal do Alfeite, Bruno Dias, deputado do PCP à Assembleia da República, manifestou solidariedade para com a luta dos trabalhadores arsenalistas e para com o piquete em greve, que ali permanecia. «Tal como temos vindo, muitas e muitas vezes, ao contacto com os trabalhadores do Arsenal do Alfeite, tal como temos realizado diversas iniciativas na Assembleia da República, com intervenções, perguntas, reuniões, procurando dar voz a esta luta dos trabalhadores arsenalistas, em defesa do estaleiro e em defesa do emprego com direitos, perante esta jornada, não podíamos faltar», acentuou Bruno Dias, valorizando a «adesão massiva, de dimensão estrondosa», que aconteceu naquele estaleiro.
Em conversa com o Avante!, o deputado eleito pelo círculo de Setúbal frisou que a elevada adesão ali registada (de 91 por cento) é uma «demonstração de grande consciência de classe e de unidade na acção». Já Rogério Caeiro criticou o facto de o Arsenal do Alfeite «ser uma empresa sem trabalho», o que terá levado a que muitos percebam que «só com a luta, unidos, é que vamos conseguir alguma coisa». Por último, deixou uma palavra de apreço aos deputados do PCP, «que têm acompanhado, de forma extraordinária, os trabalhadores desde o início».
Em resposta, Bruno Dias lembrou que com esta greve os trabalhadores arsenalistas «estão a defender não apenas o emprego e os seus direitos, mas o próprio estaleiro e a soberania nacional».
Resistir a truques e a pressões
Quase se pode afirmar que em algumas empresas nem é preciso fazer greve, basta convocá-la, para que o patronato revele o receio que tem da luta organizada dos trabalhadores. Isto viu-se de Norte a Sul do País e teve uma considerável expressão em várias empresas da Península de Setúbal. Aqui ficam três exemplos.
Na Autoeuropa, a administração decidiu decretar o dia da greve geral dia de «não produção». É ela própria a justificar a decisão com a intenção de «minimizar os efeitos previsíveis» da greve na actividade da empresa e dos seus fornecedores. Este receio confirmou ser fundamentado, já que na Autoeuropa a adesão foi de 95 por cento. No parque industrial variou entre os 70 e os 100 por cento. Em empresas como a Autovision, a Bentler, a Continental Lemers, a Faurecia, a Inapal Plásticos, a SPPM, a Tenneco, a Webastos ou a Vanpro não houve mesmo produção.
Nos Transportes Sul do Tejo (TST) a administração recorreu ao seu expediente do costume em dias de greve geral, fazendo com que alguns autocarros pernoitassem fora das garagens e parques habituais. Procurava, desta forma, evitar que trabalhadores que eventualmente não aderissem à paralisação – ou alguns outros, «contratados» especificamente para esse dia, nomeadamente reformados – tivessem que se confrontar com os piquetes de greve.
A realidade mostrou que a administração dos TST tinha razões para temer este contacto. Dos poucos autocarros que tentaram sair dos postos da Mutela e do Laranjeiro só um o fez, quase atropelando os membros do piquete de greve. Os restantes acabaram por desistir e recolher as viaturas.
No Jumbo de Almada, os truques da administração para minimizar os efeitos da greve geral roçaram a intimidação: nas vésperas do dia 24, a empresa questionou vários trabalhadores acerca da morada para onde deveria ser enviado o táxi para os conduzir ao trabalho. Apesar desta pressão ilegal – diz a lei que ninguém é obrigado a informar antecipadamente da sua adesão a uma greve –, muitos trabalhadores aderiram à paralisação. Isto levou a que alguns chefes tivessem que fazer reposição de produtos e responsáveis de Recursos Humanos organizassem escalas na linha de caixas para que o hipermercado funcionasse.