Realidades diferentes, problemas comuns
O que têm em comum países como a China, Índia, Brasil, Rússia e Portugal?
A resposta à questão podia ser «realidades diferentes, problemas comuns», mas a complexidade do tema que reuniu Liu Chunliang, do PC da China; Nilotpal Basu, do Partido Marxista da Índia; Dimitri Novikov; do PC da Federação Russa; Altamiro Borges do PCdoB; José Carlos Franco do PT; e Albano Nunes e Sérgio Ribeiro, do PCP, no debate de domingo na Cidade Internacional deixou evidente que é necessário aprofundar o intercâmbio de ideias, o conhecimento mútuo para se perceber como nos distintos países se faz frente à crise económica e financeira internacional e o papel que neste contexto desempenham os países em desenvolvimento.
O tempo foi curto para tamanha diversidade, mas como disse Albano Nunes, o mundo vive hoje um processo de rearrumação de forças de que se desconhece ainda as consequências, ao mesmo tempo que o capitalismo, na sua agonia, se torna cada vez mais agressivo nas políticas que remetem para os trabalhadores a factura a pagar pela crise em que se afunda.
Esta é a realidade que os sinais de mudança em países como o Brasil não alteram. Como lembrou José Franco, «desde os anos 90 que a crise do capitalismo é cada vez mais hegemónica, mostrando que neste sistema o desenvolvimento nunca será para todos e que o desenvolvimento de hoje é o antecedente de nova crise amanhã», o que afecta inevitavelmente os países em desenvolvimento, também ditos da periferia. Daí a importância de encontrar alternativas, como estão a fazer os países do Sul da América Latina, empenhados na formação de um bloco económico eficiente. Já Altamiro Borges, pondo os «pingos nos ii», lembrou que o Brasil «é um país capitalista», logo sujeito às consequências da sua «crise profunda, crónica e prolongada», que faz com que os que ainda ontem falavam de «turbocapitalismo» reconheçam hoje que «a crise está a levar o mundo para a barbárie».
Lembrando que os EUA têm hoje o «maior nível de desemprego de sempre» e que a sua «economia totalmente endividada precisa de três milhões de dólares por dia para sobreviver», Borges não duvida que as consequências se vão fazer sentir em todo o mundo, apesar de no momento a América Latina registar um desenvolvimento económico, em grande parte devido às medidas tomadas em vários países para «aquecer» o mercado interno, como sucede no Brasil: aumento do salário mínimo e investimento em programas sociais, ainda que sem enfrentar os problemas estruturais do país.
O gigante chinês
Distinta é a situação na China, onde o PCC, no poder, afirma a vontade de prosseguir na via do socialismo, encontrando a cada passo as respostas que considera adequadas para resolver os problemas. O processo de desenvolvimento acelerado que o país vem vivendo permitiu, nos últimos 30 anos, não só colocá-lo ao nível das grandes potências mundiais como também passar «da satisfação das necessidades básicas da população para a elevação dos níveis de conforto». A China oferece «um modelo de desenvolvimento para acabar com a pobreza», garante, ressalvando no entanto que «cada país tem de seguir o seu caminho em função das suas condições específicas».
O processo não está isento de problemas, reconhece Chunliang, como desvios entre o crescimento económico e as necessidades do povo, acentuar das desigualdades entre população rural e urbana, discrepâncias entre salvaguarda do meio ambiente e crescimento; agravamento das disparidades dos níveis de riqueza, etc., etc., etc.. Mas num país com 1,3 mil milhões de habitantes, como é o caso da China, ter como objectivo o desenvolvimento generalizado e sustentado e dar a cada ser humano uma vida com qualidade «não é uma frase vazia», diz. Por isso o PCC assumiu a «educação como base do desenvolvimento», estendeu a prestação de cuidados de saúde à generalidade da população, espera que até 2010 a população rural esteja coberta com sistema médico, e está a implementar medidas para garantir emprego e segurança social a toda a gente. «O governo chinês, garante Chunliang, está disposto a explorar todos os caminhos para assegurar o bem do povo, e aceita todas as ajudas e toda a solidariedade de todos os países e partidos que estão dispostos a prestar-lhas, como é o caso do PCP».
No top tem dos ricos
Na Índia, onde há cada vez mais agricultores que se suicidam por não poderem enfrentar a crise, e onde 78 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza, há cinco indianos que fazem parte do top tem dos mais ricos do mundo. Este exemplo, dado por Nilotpal Basu, fala por si do agravamento das desigualdades, que atingiu na sociedade indiana níveis nunca vistos. A situação tornou-se «insustentável», disse. Numa tentativa de ultrapassar esta situação, afirmou Basu, os partidos de esquerda decidiram sair da coligação governamental, em rotura com o governo pela sua decisão de aprofundar a aliança económica, política e militar com os EUA, e tentam agora criar um movimento alternativo.
Também da Rússia chegam sinais contraditórios. Depois da destruição da URSS, a Federação Russa ficou nas mãos do capitalismo, do FMI e de outros centros de decisão do imperialismo, afirmou Dimitri Novikov. Alertando para a retórica do governo russo, Novikov lembrou que as autoridades de Moscovo estão ao serviço do capital interno e não dos interesses da população, como atestam as leis que têm vindo a ser aprovadas (da posse da terra, das florestas, dos recursos hídricos, da habitação, do ensino...), todas no sentido da privatização das riquezas nacionais e de serviços públicos até agora nas mãos do Estado. Por isso, sublinhou, o Partido Comunista tem como tarefa «a luta de classes e a luta pela libertação nacional».
Por manifesta falta de tempo, Sérgio Ribeiro não chegou a fazer a sua intervenção, mas deixou aos que acompanharam o debate um «trabalho para casa»: ler a imprensa do PCP, ler o Avante! e o Militante, onde estas e outras questões estão sempre na ordem do dia.
A resposta à questão podia ser «realidades diferentes, problemas comuns», mas a complexidade do tema que reuniu Liu Chunliang, do PC da China; Nilotpal Basu, do Partido Marxista da Índia; Dimitri Novikov; do PC da Federação Russa; Altamiro Borges do PCdoB; José Carlos Franco do PT; e Albano Nunes e Sérgio Ribeiro, do PCP, no debate de domingo na Cidade Internacional deixou evidente que é necessário aprofundar o intercâmbio de ideias, o conhecimento mútuo para se perceber como nos distintos países se faz frente à crise económica e financeira internacional e o papel que neste contexto desempenham os países em desenvolvimento.
O tempo foi curto para tamanha diversidade, mas como disse Albano Nunes, o mundo vive hoje um processo de rearrumação de forças de que se desconhece ainda as consequências, ao mesmo tempo que o capitalismo, na sua agonia, se torna cada vez mais agressivo nas políticas que remetem para os trabalhadores a factura a pagar pela crise em que se afunda.
Esta é a realidade que os sinais de mudança em países como o Brasil não alteram. Como lembrou José Franco, «desde os anos 90 que a crise do capitalismo é cada vez mais hegemónica, mostrando que neste sistema o desenvolvimento nunca será para todos e que o desenvolvimento de hoje é o antecedente de nova crise amanhã», o que afecta inevitavelmente os países em desenvolvimento, também ditos da periferia. Daí a importância de encontrar alternativas, como estão a fazer os países do Sul da América Latina, empenhados na formação de um bloco económico eficiente. Já Altamiro Borges, pondo os «pingos nos ii», lembrou que o Brasil «é um país capitalista», logo sujeito às consequências da sua «crise profunda, crónica e prolongada», que faz com que os que ainda ontem falavam de «turbocapitalismo» reconheçam hoje que «a crise está a levar o mundo para a barbárie».
Lembrando que os EUA têm hoje o «maior nível de desemprego de sempre» e que a sua «economia totalmente endividada precisa de três milhões de dólares por dia para sobreviver», Borges não duvida que as consequências se vão fazer sentir em todo o mundo, apesar de no momento a América Latina registar um desenvolvimento económico, em grande parte devido às medidas tomadas em vários países para «aquecer» o mercado interno, como sucede no Brasil: aumento do salário mínimo e investimento em programas sociais, ainda que sem enfrentar os problemas estruturais do país.
O gigante chinês
Distinta é a situação na China, onde o PCC, no poder, afirma a vontade de prosseguir na via do socialismo, encontrando a cada passo as respostas que considera adequadas para resolver os problemas. O processo de desenvolvimento acelerado que o país vem vivendo permitiu, nos últimos 30 anos, não só colocá-lo ao nível das grandes potências mundiais como também passar «da satisfação das necessidades básicas da população para a elevação dos níveis de conforto». A China oferece «um modelo de desenvolvimento para acabar com a pobreza», garante, ressalvando no entanto que «cada país tem de seguir o seu caminho em função das suas condições específicas».
O processo não está isento de problemas, reconhece Chunliang, como desvios entre o crescimento económico e as necessidades do povo, acentuar das desigualdades entre população rural e urbana, discrepâncias entre salvaguarda do meio ambiente e crescimento; agravamento das disparidades dos níveis de riqueza, etc., etc., etc.. Mas num país com 1,3 mil milhões de habitantes, como é o caso da China, ter como objectivo o desenvolvimento generalizado e sustentado e dar a cada ser humano uma vida com qualidade «não é uma frase vazia», diz. Por isso o PCC assumiu a «educação como base do desenvolvimento», estendeu a prestação de cuidados de saúde à generalidade da população, espera que até 2010 a população rural esteja coberta com sistema médico, e está a implementar medidas para garantir emprego e segurança social a toda a gente. «O governo chinês, garante Chunliang, está disposto a explorar todos os caminhos para assegurar o bem do povo, e aceita todas as ajudas e toda a solidariedade de todos os países e partidos que estão dispostos a prestar-lhas, como é o caso do PCP».
No top tem dos ricos
Na Índia, onde há cada vez mais agricultores que se suicidam por não poderem enfrentar a crise, e onde 78 por cento da população vive abaixo do limiar da pobreza, há cinco indianos que fazem parte do top tem dos mais ricos do mundo. Este exemplo, dado por Nilotpal Basu, fala por si do agravamento das desigualdades, que atingiu na sociedade indiana níveis nunca vistos. A situação tornou-se «insustentável», disse. Numa tentativa de ultrapassar esta situação, afirmou Basu, os partidos de esquerda decidiram sair da coligação governamental, em rotura com o governo pela sua decisão de aprofundar a aliança económica, política e militar com os EUA, e tentam agora criar um movimento alternativo.
Também da Rússia chegam sinais contraditórios. Depois da destruição da URSS, a Federação Russa ficou nas mãos do capitalismo, do FMI e de outros centros de decisão do imperialismo, afirmou Dimitri Novikov. Alertando para a retórica do governo russo, Novikov lembrou que as autoridades de Moscovo estão ao serviço do capital interno e não dos interesses da população, como atestam as leis que têm vindo a ser aprovadas (da posse da terra, das florestas, dos recursos hídricos, da habitação, do ensino...), todas no sentido da privatização das riquezas nacionais e de serviços públicos até agora nas mãos do Estado. Por isso, sublinhou, o Partido Comunista tem como tarefa «a luta de classes e a luta pela libertação nacional».
Por manifesta falta de tempo, Sérgio Ribeiro não chegou a fazer a sua intervenção, mas deixou aos que acompanharam o debate um «trabalho para casa»: ler a imprensa do PCP, ler o Avante! e o Militante, onde estas e outras questões estão sempre na ordem do dia.