Viagem fantástica por sons do mundo
• Miguel Inácio
Num magnífico cenário, onde transbordava amizade, fraternidade, solidariedade, amor, paixão, e muitos outros sentimentos, o Palco 25 de Abril apresentou, sábado e domingo, uma programação diversificada, onde nunca faltou a boa música portuguesa e de outros países. Os géneros dividiram-se pelo rock, o blues, o jazz, o hip hop, a música étnica e os sons de África.
Na sexta-feira, fruto da intempérie que se abateu por todo o País, não se realizou a Grande Gala de Ópera. Nos bastidores, a tristeza dos músicos, interpretes e organização era muita. A esperança, aquela que o povo diz que é sempre a última a morrer, só se esbateu quando se começou a desmontar o espectáculo, que prometia ser um dos melhores que já se fizeram a nível nacional. O próximo ano será, sem dúvida, melhor.
No sábado, dia de sol que irradiava nos rostos dos visitantes da Festa, este espaço abriu, como não podia deixar de ser, ao som da «Carvalhesa». Seguiu-se, logo de seguida, os «X-Wife», um «caso sério» do que se faz de bom em Portugal. Esta formação, constituída por João Vieira, Fernando Sousa e Rui Mais, apresentou-se com muita energia em palco. «Acho que é a primeira vez que estamos num ambiente assim», comentaram, extasiados, sob uma plateia de milhares de pessoas. Durante o concerto, os músicos deram a conhecer o seu trabalho. Um estilo new wave que tem como influências, entre outros, o rock e a música electrónica.
«Traçaram um rumo, marcaram uma identidade». Foi assim que Cândido Mota apresentou, de seguida, os «Mind da Gap», formação do Porto, composta por dois vocalistas (Ace e Presto) e um disc-jockey (DJ Serial), que tem por base o hip-hop, cantado, sempre, em português. Com um espectáculo frenético, esta banda apresentou, na Festa, a sua «matéria prima», alguns dos melhores e mais conhecidos temas dos seus últimos álbuns. «Não Stresses», foi o mais entoado pelo público.
Com um programa vasto, rico e diversificado, actuaram, de seguida, os «Toques do Caramulo» e os «Galandun Galundaina», uma homenagem ao melhor dos reportórios tradicionais, numa viagem pelas cantigas de Miranda do Douro e Caramulo. Em palco, para além das tão apreciadas gaitas de foles, estiveram sanfonas, precursões, flautas, chocalhos, bombos, entre muitos outros instrumentos. Em mirandês, sempre com muita jovialidade, cantaram-se músicas de outros tempos que continuam e fazem parte da nossa vida. Um estilo musical que o público agradeceu com uma estrondosa salva de palmas e muita dança à mistura.
A meio da tarde, numa viagem às diversas culturas do mundo, foi a vez da «Kumpania Algazarra» deliciar os milhares que assistiam àquele espectáculo. Em palco estiveram, entre outros, instrumentos de sopro (clarinete, saxofone, trompete e trombone) que provocaram uma contagiante algazarra de ritmos como o ska, o reggae, o funk e o afro-beat. Um concerto frenético, cheio de boas «vibrações».
Com o dia a insistir em partir e a noite a prometer ser eterna, agraciados com o calor humano que percorria o recinto, subiram ao palco os «Coal Porters», que fizeram uma homenagem a Woody Guthrie, um dos nomes mais importantes da cultura norte-americana do século passado. Aproveitando o seu legado musical, que integra centenas de canções, baladas e improvisações, a banda apresentou um concerto de intervenção política, com atitude e qualidade.
Mais tarde, a «música do diabo» subiu ao Palco 25 de Abril. «Quem gosta de blues no Avante?», perguntou Nuno Mindelis, apresentando, de seguida, o que de melhor se faz neste estilo. «B. B. King é o rei do blues!», acrescentou. O jazz, o rock and roll e a soul music também fizeram parte deste grande espectáculo, que só terminou quando o músico, acompanhado pela sua «Blues Big Band», desceu o palco e foi cumprimentar o público.
Viajámos, de seguida, até ao Mali, terra de Vieux Farka Touré. Com um som apaixonante, durante cerca de uma hora, ouvimos músicas que passaram pelo estilo étnico. Considerado com um «virtuoso» na arte de tocar guitarra, Vieux apresentou uma mensagem política, de alerta, de esperança e de paz.
Com a noite quase a acabar, foi a vez de outro «mestre» subir ao Palco 25 de Abril. «Pega em qualquer instrumento de corda e toca-o como ninguém». Foi assim que Júlio Pereira foi apresentado aos muitos milhares que ali se encontravam. No seu espectáculo, cruzou a universalidade da música com a sua carreira que já dura há mais de 30 anos. Um momento de alegria e de cor, onde as melodias nos faziam sonhar com histórias de encantar. Na sua actuação, com o apoio de uma grande voz feminina, houve ainda referência a José Afonso e, para agrado de todos, tocou a «Carvalhesa».
Os «Da Weasel» tiveram a honra de encerrar o dia. Um grande momento musical onde o «Amor, Escárnio e Maldizer», esteve em destaque. Uns consideram-no comercial, outros a mais aguçada crítica social alguma vez assinalada por esta banda da Margem Sul do Tejo. O que é certo é que todos «fliparam» ao som de músicas como «GTA», «Toda a Gente», «Mundos Mudos» e «Força». No entanto, foi com «Adivinha Quem Voltou» que o público da Festa mais vibrou. O concerto terminou com «Tás na Boa», uma homenagem a Mário Ângelo, roadie que colaborava com a equipa responsável pelo som e imagem do Palco 25 de Abril. «A malta espera que estejas num lugar melhor», disse Pac Man, vocalista da banda.
Momentos únicos
No domingo, foram os «Terrakota» a primeira banda a actuar no grande palco da Festa do Avante!. Um início de tarde repleto de alegria, onde se combinou o ritmo tribal africano com as precursões sul americanas. «Querem descansar?», perguntou Remmy, vocalista, uma força da natureza, com uma presença singular em palco. «Mais uma vez vamos ter de contar a verdade!», disse, lembrando e alertando para as injustiças do mundo em que vivemos. Não parou um só momento e, numa celebração à vida, contagiou o público com a sua felicidade.
Já os «Wraygunn» levaram o rock and roll, puro e duro, cantado em inglês, à Atalaia. Esta formação - constituída por Paulo Furtado, Raquel Ralha, Selma Uamusse, Sérgio Cardoso, Francisco Correia, Pedro Pinto e João Doce –, com um percurso ainda recente, é uma das mais interessantes do panorama nacional. Entre os seus principais êxitos destacam-se as músicas «Keep on Praying» e «She's a Go Go Dancer», temas que surpreenderam. No final, o vocalista foi ter com o público para agradecer o apoio dado.
Depois de terem estado na Festa do Avante!, em 1982, os «Moncada», de Cuba, regressaram este ano com uma mensagem, fundamentalmente, de solidariedade. «Contra o imperialismo e a guerra. Paz e solidariedade entre os povos», lia-se numa faixa junto ao recinto.
As suas músicas reportam-nos a um percurso histórico, de luta e resistência, do povo cubano contra o seu agressor: os EUA.
O sua actuação, de grande interacção com o público, teve apontamentos rítmicos que passaram, entre outros, pelo bolero ao mambo e ao cha cha cha. Durante o concerto fizeram ainda «uma declaração de amor a todos os que estão na Festa do Avante!», tendo interpretado o tema «Yolanda», de Pablo Milanês. Os «Moncada» terminaram com o tema «Comandante Che Guevara». A tarde transformou-se assim numa grande manifestação de apoio a Cuba e à sua Revolução.
Depois do grande Comício que se realizou em frente do Palco 25 de Abril, actuou a «Big Band do Hot Clube de Portugal». Ali, dezenas dos melhores músicos de jazz de Portugal, sob a direcção de Pedro Moreira, apresentaram um espectáculo constituído por várias peças de compositores importantes como Duke Ellington. Um género musical, de grande qualidade, que muito agradou o público da Quinta da Atalaia.
Os «Xutos & Pontapés», com os «Rock & Roll Big Band» - uma orquestra composta por saxofones, trombones e trompetes -, encerram a programação do Palco 25 de Abril. Já quase tudo foi dito sobre o que muitos consideram ser a maior banda de rock português. Êxitos que atravessam gerações e passam de pais para filhos. E foi isso mesmo que se viu na Festa, que acolheu, de braços abertos, o Tim, o Zé Pedro, o João Cabeleira, o Kalu e o Gui. Ali, não faltaram as tão conhecidas «Casinha» «Não Sou o Único», «Mundo ao Contrário», «Fim do Mês», «O Homem do Leme» e «Circulo de Feras». «Está aqui, sem dúvida, a maior Festa político-cultural do País», disse, no final o Zé Pedro.
Após esta actuação, assim como aconteceu nas noites anteriores, ao som da «Carvalhesa», realizou-se um espectacular fogo de artifício, que preencheu de alegria e felicidade todos os presentes naquela que foi, é e será, sempre, a Festa da juventude, da fraternidade, da solidariedade e dos ideais de Abril. A despedida fez-se com lágrimas, muitas de amor, pelos amigos que se fizeram, pelo reencontro de outros, por três dias que se vão perpetuar até à próxima Festa do Avante!.
Num magnífico cenário, onde transbordava amizade, fraternidade, solidariedade, amor, paixão, e muitos outros sentimentos, o Palco 25 de Abril apresentou, sábado e domingo, uma programação diversificada, onde nunca faltou a boa música portuguesa e de outros países. Os géneros dividiram-se pelo rock, o blues, o jazz, o hip hop, a música étnica e os sons de África.
Na sexta-feira, fruto da intempérie que se abateu por todo o País, não se realizou a Grande Gala de Ópera. Nos bastidores, a tristeza dos músicos, interpretes e organização era muita. A esperança, aquela que o povo diz que é sempre a última a morrer, só se esbateu quando se começou a desmontar o espectáculo, que prometia ser um dos melhores que já se fizeram a nível nacional. O próximo ano será, sem dúvida, melhor.
No sábado, dia de sol que irradiava nos rostos dos visitantes da Festa, este espaço abriu, como não podia deixar de ser, ao som da «Carvalhesa». Seguiu-se, logo de seguida, os «X-Wife», um «caso sério» do que se faz de bom em Portugal. Esta formação, constituída por João Vieira, Fernando Sousa e Rui Mais, apresentou-se com muita energia em palco. «Acho que é a primeira vez que estamos num ambiente assim», comentaram, extasiados, sob uma plateia de milhares de pessoas. Durante o concerto, os músicos deram a conhecer o seu trabalho. Um estilo new wave que tem como influências, entre outros, o rock e a música electrónica.
«Traçaram um rumo, marcaram uma identidade». Foi assim que Cândido Mota apresentou, de seguida, os «Mind da Gap», formação do Porto, composta por dois vocalistas (Ace e Presto) e um disc-jockey (DJ Serial), que tem por base o hip-hop, cantado, sempre, em português. Com um espectáculo frenético, esta banda apresentou, na Festa, a sua «matéria prima», alguns dos melhores e mais conhecidos temas dos seus últimos álbuns. «Não Stresses», foi o mais entoado pelo público.
Com um programa vasto, rico e diversificado, actuaram, de seguida, os «Toques do Caramulo» e os «Galandun Galundaina», uma homenagem ao melhor dos reportórios tradicionais, numa viagem pelas cantigas de Miranda do Douro e Caramulo. Em palco, para além das tão apreciadas gaitas de foles, estiveram sanfonas, precursões, flautas, chocalhos, bombos, entre muitos outros instrumentos. Em mirandês, sempre com muita jovialidade, cantaram-se músicas de outros tempos que continuam e fazem parte da nossa vida. Um estilo musical que o público agradeceu com uma estrondosa salva de palmas e muita dança à mistura.
A meio da tarde, numa viagem às diversas culturas do mundo, foi a vez da «Kumpania Algazarra» deliciar os milhares que assistiam àquele espectáculo. Em palco estiveram, entre outros, instrumentos de sopro (clarinete, saxofone, trompete e trombone) que provocaram uma contagiante algazarra de ritmos como o ska, o reggae, o funk e o afro-beat. Um concerto frenético, cheio de boas «vibrações».
Com o dia a insistir em partir e a noite a prometer ser eterna, agraciados com o calor humano que percorria o recinto, subiram ao palco os «Coal Porters», que fizeram uma homenagem a Woody Guthrie, um dos nomes mais importantes da cultura norte-americana do século passado. Aproveitando o seu legado musical, que integra centenas de canções, baladas e improvisações, a banda apresentou um concerto de intervenção política, com atitude e qualidade.
Mais tarde, a «música do diabo» subiu ao Palco 25 de Abril. «Quem gosta de blues no Avante?», perguntou Nuno Mindelis, apresentando, de seguida, o que de melhor se faz neste estilo. «B. B. King é o rei do blues!», acrescentou. O jazz, o rock and roll e a soul music também fizeram parte deste grande espectáculo, que só terminou quando o músico, acompanhado pela sua «Blues Big Band», desceu o palco e foi cumprimentar o público.
Viajámos, de seguida, até ao Mali, terra de Vieux Farka Touré. Com um som apaixonante, durante cerca de uma hora, ouvimos músicas que passaram pelo estilo étnico. Considerado com um «virtuoso» na arte de tocar guitarra, Vieux apresentou uma mensagem política, de alerta, de esperança e de paz.
Com a noite quase a acabar, foi a vez de outro «mestre» subir ao Palco 25 de Abril. «Pega em qualquer instrumento de corda e toca-o como ninguém». Foi assim que Júlio Pereira foi apresentado aos muitos milhares que ali se encontravam. No seu espectáculo, cruzou a universalidade da música com a sua carreira que já dura há mais de 30 anos. Um momento de alegria e de cor, onde as melodias nos faziam sonhar com histórias de encantar. Na sua actuação, com o apoio de uma grande voz feminina, houve ainda referência a José Afonso e, para agrado de todos, tocou a «Carvalhesa».
Os «Da Weasel» tiveram a honra de encerrar o dia. Um grande momento musical onde o «Amor, Escárnio e Maldizer», esteve em destaque. Uns consideram-no comercial, outros a mais aguçada crítica social alguma vez assinalada por esta banda da Margem Sul do Tejo. O que é certo é que todos «fliparam» ao som de músicas como «GTA», «Toda a Gente», «Mundos Mudos» e «Força». No entanto, foi com «Adivinha Quem Voltou» que o público da Festa mais vibrou. O concerto terminou com «Tás na Boa», uma homenagem a Mário Ângelo, roadie que colaborava com a equipa responsável pelo som e imagem do Palco 25 de Abril. «A malta espera que estejas num lugar melhor», disse Pac Man, vocalista da banda.
Momentos únicos
No domingo, foram os «Terrakota» a primeira banda a actuar no grande palco da Festa do Avante!. Um início de tarde repleto de alegria, onde se combinou o ritmo tribal africano com as precursões sul americanas. «Querem descansar?», perguntou Remmy, vocalista, uma força da natureza, com uma presença singular em palco. «Mais uma vez vamos ter de contar a verdade!», disse, lembrando e alertando para as injustiças do mundo em que vivemos. Não parou um só momento e, numa celebração à vida, contagiou o público com a sua felicidade.
Já os «Wraygunn» levaram o rock and roll, puro e duro, cantado em inglês, à Atalaia. Esta formação - constituída por Paulo Furtado, Raquel Ralha, Selma Uamusse, Sérgio Cardoso, Francisco Correia, Pedro Pinto e João Doce –, com um percurso ainda recente, é uma das mais interessantes do panorama nacional. Entre os seus principais êxitos destacam-se as músicas «Keep on Praying» e «She's a Go Go Dancer», temas que surpreenderam. No final, o vocalista foi ter com o público para agradecer o apoio dado.
Depois de terem estado na Festa do Avante!, em 1982, os «Moncada», de Cuba, regressaram este ano com uma mensagem, fundamentalmente, de solidariedade. «Contra o imperialismo e a guerra. Paz e solidariedade entre os povos», lia-se numa faixa junto ao recinto.
As suas músicas reportam-nos a um percurso histórico, de luta e resistência, do povo cubano contra o seu agressor: os EUA.
O sua actuação, de grande interacção com o público, teve apontamentos rítmicos que passaram, entre outros, pelo bolero ao mambo e ao cha cha cha. Durante o concerto fizeram ainda «uma declaração de amor a todos os que estão na Festa do Avante!», tendo interpretado o tema «Yolanda», de Pablo Milanês. Os «Moncada» terminaram com o tema «Comandante Che Guevara». A tarde transformou-se assim numa grande manifestação de apoio a Cuba e à sua Revolução.
Depois do grande Comício que se realizou em frente do Palco 25 de Abril, actuou a «Big Band do Hot Clube de Portugal». Ali, dezenas dos melhores músicos de jazz de Portugal, sob a direcção de Pedro Moreira, apresentaram um espectáculo constituído por várias peças de compositores importantes como Duke Ellington. Um género musical, de grande qualidade, que muito agradou o público da Quinta da Atalaia.
Os «Xutos & Pontapés», com os «Rock & Roll Big Band» - uma orquestra composta por saxofones, trombones e trompetes -, encerram a programação do Palco 25 de Abril. Já quase tudo foi dito sobre o que muitos consideram ser a maior banda de rock português. Êxitos que atravessam gerações e passam de pais para filhos. E foi isso mesmo que se viu na Festa, que acolheu, de braços abertos, o Tim, o Zé Pedro, o João Cabeleira, o Kalu e o Gui. Ali, não faltaram as tão conhecidas «Casinha» «Não Sou o Único», «Mundo ao Contrário», «Fim do Mês», «O Homem do Leme» e «Circulo de Feras». «Está aqui, sem dúvida, a maior Festa político-cultural do País», disse, no final o Zé Pedro.
Após esta actuação, assim como aconteceu nas noites anteriores, ao som da «Carvalhesa», realizou-se um espectacular fogo de artifício, que preencheu de alegria e felicidade todos os presentes naquela que foi, é e será, sempre, a Festa da juventude, da fraternidade, da solidariedade e dos ideais de Abril. A despedida fez-se com lágrimas, muitas de amor, pelos amigos que se fizeram, pelo reencontro de outros, por três dias que se vão perpetuar até à próxima Festa do Avante!.