Das revoltas à teoria da revolução
A Festa do Livro acolheu a apresentação ou o lançamento de mais de dez obras – um espaço privilegiado para dar a conhecer novos textos aos leitores que visitam a Festa, com vista para as letras que os rodearam e para as realidades que elas encerram.
Na noite de sexta-feira, o espaço da Festa do Livro recebeu o lançamento de A Revolta dos Marinheiros de 1936, da autoria de Gisela Santos de Oliveira. Trata-se de um interessante livro que une jornalismo e história e que pretende repôr a verdade sobre aquela revolta histórica, que, como recordou a autora, foi aproveitada pelo regime fascista para aumentar a repressão e a censura sobre a população e pôr a circular propaganda anticomunista.
Os revoltosos – jovens entre os 18 e os 20 anos – exigiam a melhoria das condições de trabalho e de alimentação, um tratamento respeituoso por parte dos superiores e a reintegração de 17 marinheiros expulsos pouco tempo antes. O seu objectivo era chegar a Angra do Heroísmo e libertar os presos políticos, entre eles Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP.
Durante a apresentação, José Casanova afirmou que a obra constitui «um contributo magnífico para o conhecimento da revolta e do tempo em que esta se deu», sendo um «importante trabalho de procura e desmistificação de ideias lançadas pelo fascismo».
1936 foi um ano marcado pelo culminar do processo de fascização do Estado e a Revolta dos Marinheiros insere-se na luta contra o fascismo no País e no mundo. O fascismo crescia em Itália, Alemanha e França e a Guerra Civil de Espanha estalou nesse ano. «Foram tempos difíceis, em que um acto de resistência como este é um acto de grande coragem, determinação e consciência de gente jovem», defendeu o director do Avante!, acrescentando: «Foi um acto de resistência antifascista por parte dos marinheiros, mesmo sabendo que jogavam as suas vidas.»
De facto, cinco dos revoltosos morreram e mais de noventa foram presos e julgados. As penas foram brutais: prisão entre 3 e 20 anos. Cerca de 35 homens foram imediatamente enviados para o Tarrafal.
Obra de Soeiro Pereira Gomes
A Editorial Avante! está a republicar a obra de Soeiro Pereira Gomes, apresentada na Atalaia por Manuel Gusmão, poeta, professor universitário e membro do Comité Central do PCP. Mais do que uma apresentação, tratou-se de uma excelente conferência sobre o autor, abordando a estreita ligação entre a vida e a obra de Soeiro.
Trata-se de um comunista que se tornou escritor ou de um escritor que se tornou comunista? Este foi o ponto de partida da intervenção de Manuel Gusmão, que defende a existência de uma ligação íntima entre ambos os universos: «A obra tem um projecto de sentido, que igualmente unifica a sua vida».
Um dos aspectos mais interessantes será a imaginação de mundos possíveis por Soeiro Pereira Gomes, ordenados de acordo com um desejo de transformação. Tal é visível nas dedicatórias de todos os seus contos e romances. «Dedicava um texto a quem, ao mesmo tempo, dedicava a sua vida. Dedicava àqueles que são as suas personagens de eleição», gente anónima do povo e militantes comunistas.
«Para os filhos dos homens que nunca foram meninos escrevi este livro», lê-se na dedicatória de Esteiros. À luz desta frase, Manuel Gusmão mostrou como o romance implica uma promessa: Soeiro Pereira Gomes espera que os rapazes analfabetos que são os protagonistas do romance se tornem adultos e que os seus filhos vivam já numa outra sociedade, aprendam a ler e se tornem os destinatários da obra. É, pois, uma promessa de que o mundo passará a fazer sentido.
Mas o que faz a grandeza de Esteiros? Segundo Manuel Gusmão, trata-se de um dos melhores romances neo-realistas, como foi reconhecido por dois dos mais importantes críticos literários da época: João Gaspar Simões considera que a obra é praticamente uma obra-prima, enquanto Adolfo Casais Monteiro afirma que as personagens revelam a essencialidade da infância. De facto, como sublinhou, Manuel Gusmão, as crianças não são abstracções de meninos, mostrando «a resistência do humano à brutalidade do capitalismo. E isso é mostrado de forma magnífica».
O Capital
O Pavilhão Central acolheu o lançamento do Tomo IV do livro II de O Capital, de Karl Marx, na tarde de sábado, apresentado por Sérgio Ribeiro, José Barata-Moura e Francisco Melo. Este último, editor das Edições Avante!, referiu que a apresentação é «motivo de regozijo por podermos dispor, em língua portuguesa, em tradução digna de confiança, de um instrumento de análise das configurações actuais das contradições fundamentais do modo capitalista de produção reveladas por Marx e Engels, num momento em que este é atravessado por uma profunda crise».
Esta obra foi estudada a fundo por Lénine, dez anos após a sua primeira publicação, que a aplicou à realidade concreta do desenvolvimento do capitalismo na Rússia. «Lénine actualizou-as criativamente no seu combate contra as concepções dos populistas russos, deu-lhes nova vida e validou-as na medida em que elas mostraram ser capazes de dar conta de uma configuração da realidade outra do que aquela de que Marx partira, na medida em que contribuíram para pôr teórica e praticamente o proletariado russo no caminho da revolução vitoriosa», salientou Francisco Melo.
«Concretamente, a partir da explicação das condições e particularidades da realização (isto é, da venda) das mercadorias desenvolvida por Marx no Livro Segundo, desmistificou os argumentos dos populistas russos de finais do século XIX quanto às vias do desenvolvimento do capitalismo na Rússia e perspectivou a criação de condições favoráveis para a tarefa da classe operária no futuro: o derrube do capitalismo e a transformação socialista da economia russa», explicitou o editor.
Por seu lado, José Barata-Moura afirmou que «O Capital é uma obra de ciência – de demanda de saber fundamentado. É, do mesmo passo, um instrumento para combates na labuta (e na luta) pela transformação e pela reconfiguração do modo de organizar a produção e a reprodução do viver colectivo, à luz de uma crescente e enraizada afirmação de padrões enriquecidos de humanidade. Não estamos, no entanto, nem perante uma obra morta, nem perante uma tarefa acabada.»
A obra não está, pois, terminada porque o capitalismo continua a evoluir. E, se a história da exploração capitalista continua, o estudo tem também de prosseguir. «Compreender e transformar – é o que O Capital nos interpela e concita. Transformar para compreender, e compreender transformando», referiu Barata-Moura: «Sabendo que, na abertura que a história em processo nos desdobra, não vale tudo – e que mesmo aquilo que vale continua a desenvolver-se e a requerer, da nossa parte, um atento, continuado e eficaz exercício de cuidado, de tomada a cargo.»
«O grande mérito de Marx não reside em resolver-nos os problemas, mas em permitir-nos que os coloquemos correctamente no horizonte que vai configurando o espaço do nosso envolvimento interventivo. Saibamos estar à altura de uma herança de humanidade que nos cumpre vivificar – e de um trabalho da história das realidades de que ninguém por nós se pode desempenhar. É neste combate que os comunistas estão e continuarão a estar. Isto é, em toda a consequência da sua dimensão accional: a lutar», concluiu.
Feira do disco
Ao lado da grande tenda onde funcionou a Festa do Livro, estava outra mais pequena onde era a música a ter o lugar de destaque. À disposição estavam discos variados, com especial destaque para os trabalhos dos artistas e bandas que actuaram na Festa. Para além das camisolas de grandes nomes do rock, eram os autógrafos a despertar mais interesse por parte dos visitantes.
Na noite de sexta-feira, o espaço da Festa do Livro recebeu o lançamento de A Revolta dos Marinheiros de 1936, da autoria de Gisela Santos de Oliveira. Trata-se de um interessante livro que une jornalismo e história e que pretende repôr a verdade sobre aquela revolta histórica, que, como recordou a autora, foi aproveitada pelo regime fascista para aumentar a repressão e a censura sobre a população e pôr a circular propaganda anticomunista.
Os revoltosos – jovens entre os 18 e os 20 anos – exigiam a melhoria das condições de trabalho e de alimentação, um tratamento respeituoso por parte dos superiores e a reintegração de 17 marinheiros expulsos pouco tempo antes. O seu objectivo era chegar a Angra do Heroísmo e libertar os presos políticos, entre eles Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP.
Durante a apresentação, José Casanova afirmou que a obra constitui «um contributo magnífico para o conhecimento da revolta e do tempo em que esta se deu», sendo um «importante trabalho de procura e desmistificação de ideias lançadas pelo fascismo».
1936 foi um ano marcado pelo culminar do processo de fascização do Estado e a Revolta dos Marinheiros insere-se na luta contra o fascismo no País e no mundo. O fascismo crescia em Itália, Alemanha e França e a Guerra Civil de Espanha estalou nesse ano. «Foram tempos difíceis, em que um acto de resistência como este é um acto de grande coragem, determinação e consciência de gente jovem», defendeu o director do Avante!, acrescentando: «Foi um acto de resistência antifascista por parte dos marinheiros, mesmo sabendo que jogavam as suas vidas.»
De facto, cinco dos revoltosos morreram e mais de noventa foram presos e julgados. As penas foram brutais: prisão entre 3 e 20 anos. Cerca de 35 homens foram imediatamente enviados para o Tarrafal.
Obra de Soeiro Pereira Gomes
A Editorial Avante! está a republicar a obra de Soeiro Pereira Gomes, apresentada na Atalaia por Manuel Gusmão, poeta, professor universitário e membro do Comité Central do PCP. Mais do que uma apresentação, tratou-se de uma excelente conferência sobre o autor, abordando a estreita ligação entre a vida e a obra de Soeiro.
Trata-se de um comunista que se tornou escritor ou de um escritor que se tornou comunista? Este foi o ponto de partida da intervenção de Manuel Gusmão, que defende a existência de uma ligação íntima entre ambos os universos: «A obra tem um projecto de sentido, que igualmente unifica a sua vida».
Um dos aspectos mais interessantes será a imaginação de mundos possíveis por Soeiro Pereira Gomes, ordenados de acordo com um desejo de transformação. Tal é visível nas dedicatórias de todos os seus contos e romances. «Dedicava um texto a quem, ao mesmo tempo, dedicava a sua vida. Dedicava àqueles que são as suas personagens de eleição», gente anónima do povo e militantes comunistas.
«Para os filhos dos homens que nunca foram meninos escrevi este livro», lê-se na dedicatória de Esteiros. À luz desta frase, Manuel Gusmão mostrou como o romance implica uma promessa: Soeiro Pereira Gomes espera que os rapazes analfabetos que são os protagonistas do romance se tornem adultos e que os seus filhos vivam já numa outra sociedade, aprendam a ler e se tornem os destinatários da obra. É, pois, uma promessa de que o mundo passará a fazer sentido.
Mas o que faz a grandeza de Esteiros? Segundo Manuel Gusmão, trata-se de um dos melhores romances neo-realistas, como foi reconhecido por dois dos mais importantes críticos literários da época: João Gaspar Simões considera que a obra é praticamente uma obra-prima, enquanto Adolfo Casais Monteiro afirma que as personagens revelam a essencialidade da infância. De facto, como sublinhou, Manuel Gusmão, as crianças não são abstracções de meninos, mostrando «a resistência do humano à brutalidade do capitalismo. E isso é mostrado de forma magnífica».
O Capital
O Pavilhão Central acolheu o lançamento do Tomo IV do livro II de O Capital, de Karl Marx, na tarde de sábado, apresentado por Sérgio Ribeiro, José Barata-Moura e Francisco Melo. Este último, editor das Edições Avante!, referiu que a apresentação é «motivo de regozijo por podermos dispor, em língua portuguesa, em tradução digna de confiança, de um instrumento de análise das configurações actuais das contradições fundamentais do modo capitalista de produção reveladas por Marx e Engels, num momento em que este é atravessado por uma profunda crise».
Esta obra foi estudada a fundo por Lénine, dez anos após a sua primeira publicação, que a aplicou à realidade concreta do desenvolvimento do capitalismo na Rússia. «Lénine actualizou-as criativamente no seu combate contra as concepções dos populistas russos, deu-lhes nova vida e validou-as na medida em que elas mostraram ser capazes de dar conta de uma configuração da realidade outra do que aquela de que Marx partira, na medida em que contribuíram para pôr teórica e praticamente o proletariado russo no caminho da revolução vitoriosa», salientou Francisco Melo.
«Concretamente, a partir da explicação das condições e particularidades da realização (isto é, da venda) das mercadorias desenvolvida por Marx no Livro Segundo, desmistificou os argumentos dos populistas russos de finais do século XIX quanto às vias do desenvolvimento do capitalismo na Rússia e perspectivou a criação de condições favoráveis para a tarefa da classe operária no futuro: o derrube do capitalismo e a transformação socialista da economia russa», explicitou o editor.
Por seu lado, José Barata-Moura afirmou que «O Capital é uma obra de ciência – de demanda de saber fundamentado. É, do mesmo passo, um instrumento para combates na labuta (e na luta) pela transformação e pela reconfiguração do modo de organizar a produção e a reprodução do viver colectivo, à luz de uma crescente e enraizada afirmação de padrões enriquecidos de humanidade. Não estamos, no entanto, nem perante uma obra morta, nem perante uma tarefa acabada.»
A obra não está, pois, terminada porque o capitalismo continua a evoluir. E, se a história da exploração capitalista continua, o estudo tem também de prosseguir. «Compreender e transformar – é o que O Capital nos interpela e concita. Transformar para compreender, e compreender transformando», referiu Barata-Moura: «Sabendo que, na abertura que a história em processo nos desdobra, não vale tudo – e que mesmo aquilo que vale continua a desenvolver-se e a requerer, da nossa parte, um atento, continuado e eficaz exercício de cuidado, de tomada a cargo.»
«O grande mérito de Marx não reside em resolver-nos os problemas, mas em permitir-nos que os coloquemos correctamente no horizonte que vai configurando o espaço do nosso envolvimento interventivo. Saibamos estar à altura de uma herança de humanidade que nos cumpre vivificar – e de um trabalho da história das realidades de que ninguém por nós se pode desempenhar. É neste combate que os comunistas estão e continuarão a estar. Isto é, em toda a consequência da sua dimensão accional: a lutar», concluiu.
Feira do disco
Ao lado da grande tenda onde funcionou a Festa do Livro, estava outra mais pequena onde era a música a ter o lugar de destaque. À disposição estavam discos variados, com especial destaque para os trabalhos dos artistas e bandas que actuaram na Festa. Para além das camisolas de grandes nomes do rock, eram os autógrafos a despertar mais interesse por parte dos visitantes.