Palco de surpresas
Os dois palcos principais da Festa do Avante! têm características muito diversas. Se o Palco 25 de Abril aposta em valores seguros da música e em bombásticas revelações do panorama musical nacional e internacional, no Auditório 1.º de Maio a aposta é na busca de sons – novos e velhos – menos conhecidos, populares ou eruditos. E também o público se dirige a este espaço com um espírito diferente. Não melhor nem pior, apenas diferente. Poucas vezes porque conhece os intérpretes e, na grande parte dos casos, com uma grande curiosidade e capacidade de entrega. E o resultado não podia ser melhor, como mais uma vez se comprovou na edição deste ano.
Primeiro dia deu o mote
Quando a Carvalhesa ecoou a assinalar a abertura dos espectáculos no Auditório 1.º de Maio, uma correria de jovens entrou pela tenda adentro e contagiou os que já aguardavam a actuação do cabo-verdiano Jon Luz, o primeiro a animar a noite de música com raízes africanas. A morna misturada com a salsa e com influências do resto do mundo foi envolvendo a assistência que rapidamente encheu a bancada ao fundo da tenda e se ia acomodando frente ao palco. Uns, começaram por dar uns tímidos pézinhos de dança. Outros, sentados na relva, conservavam as forças para mais tarde enquanto moviam a cabeça ao ritmo da musicalidade cabo-verdiana. A banda teve diante de si um público atento cujo entusiasmo foi crescendo à medida que a curiosidade ia fazendo chegar ao auditório cada vez mais convivas.
Coube depois à classificada como sucessora de Cesária Évora, Nancy Vieira, a tarefa de atrair público à tenda do auditório. «Benvindos aos sons da liberdade», exclamou. E era mesmo liberdade que se respirava no auditório. Cada vez mais convivas dançavam, enquanto outros iam preferindo ouvir atentamente a doce voz de Nancy ao ritmo dos funanás, das coladeras, do cola e do sam jon. «Somos um país pobre e a música é uma das nossas maiores riquezas», sublinhou a cantora que soube prová-lo da melhor forma, entregando-se totalmente ao público que já esgotava a tenda. E era bem diversificado, este público cuja mistura etária era uma evidência por todo o espaço.
Dispersos pelo espaço, alguns casais desfrutaram, bem coladinhos um no outro, romanticamente, de uns passos de dança que mereciam ser registados em imagem pela ternura que irradiavam. Um apaixonado casal quarentão, à semelhança de outros mais discretos, ficou na retina de muitos pela forma desinibida e indiferente aos restantes convivas como, apaixonadamente, foram dançando…
Mas um outro momento alto da noite no auditório ainda estava para vir através do reggae dos Kussondulola. O espectáculo teve duas particularidades que contribuíram para uma ainda maior enchente do auditório que já transbordava pelas costuras de tal forma que a parede lateral da tenda teve de ser especialmente aberta para que milhares de visitantes que não couberam pudessem assistir ao espectáculo, da parte de fora. Por um lado, era o espectáculo de sexta-feira mais aguardado por muitos dos visitantes. Por outro, o concerto teve início à meia-noite, após o encerramento dos espectáculos no Palco 25 de Abril, situação que fez convergir ainda mais espectadores.
«Sejam então benvindos à grande Festa da amizade, à grande Festa da consequência», começou o vocalista Janelo por desejar aos convivas. As mensagens de amor, justiça, paz e harmonia foram entoadas em coro por milhares ainda não habituados aos novos trabalhos do grupo mas com a memória bem viva quanto a temas que fizeram dos Kussondulola uma referência no panorama musical português, como foi o caso de «Perigosa» que fez do lago e do auditório um ponto de reencontro para todos os amantes do reggae, onde até os mais idosos não recusaram dançar e conviver entre rastas e jovens de todas as cores, gostos, costumes e tradições.
Marcante e entusiástica voltou a ser, no final, a Carvalhesa que encerrou o primeiro dia de Festa no auditório. Foi, de forma contundente, a constatação da alegria transbordante nos olhos de milhares de pessoas, num mesmo momento conjunto de felicidade, dança e vontade de viver.
Ritmo, paixão e revolução
No sábado à tarde, muitos descansavam à sombra do Auditório, bem como no seu interior. A noite anterior tinha sido de festa e a tarde estava muito quente. Aos primeiros acordes da «Carvalhesa», a anunciar o início dos espectáculos, inicia-se a segunda alvorada do dia e, entre saltos e danças, começa a consulta do programa da Festa. «Ficamos aqui? Sim, parece ser giro!», ouve-se, por estas ou outras palavras, em diversas conversas entre famílias e grupos de amigos.
Ao palco sobe o Realejo, agrupamento que se dedica à criação e interpretação de música de tradição europeia a partir da Idade Média. Tocando instrumentos pouco usuais, e com uma vocalista de voz límpida e também ela pouco usual, o grupo soube cativar a assistência curiosa e ávida de experimentar novas sonoridades. Ou sonoridades conhecidas mas interpretadas de forma inovadora, como foi o caso da célebre «Carvalhesa», que voltou a levantar a assistência, que não conseguia manter o pé no chão.
Em seguida, o Estardalhaço Brass Band continuou a alegria, concedendo-lhe novos moldes e novas sonoridades. Com oito músicos no palco, tocando outros tantos instrumentos – uma bateria e sete instrumentos de sopro –, o agrupamento era, ele mesmo, o espelho da alegria que se vivia no recinto. Com sorrisos estampados na face, músicos e público partilhavam uma mesma e imensa alegria. À alegria dos músicos em interpretar uma música alegre e de qualidade, com uns quantos efeitos psicadélicos, a assistência respondia com aplausos sinceros, danças espontâneas, alegria sincera. «Não há Festa como esta. Foi um prazer e voltem sempre», disse um dos músicos, enquanto interpretava um dos temas.
Os Telectu foram os senhores que se seguiram. Mantendo a tradição «experimentalista», o agrupamento e os seus dois convidados oriundos da ex-Alemanha Democrática, encantaram o público com as suas improvisações. O baterista e percussionista Günter Sommer experimentou de tudo para tocar a sua bateria, utilizando utensílios como luvas de cozinha e toalhas para arrancar som do instrumento. E conseguiu. E bem. Perante um público visivelmente boquiaberto com o virtuosismo apresentado, o trombonista Konrad Bauer improvisou durante largos minutos sozinho – os restantes músicos pararam de tocar e ali ficaram, a olhar e a ouvir – arrancando ao público um interminável aplauso.
Com a subida ao palco do Lusotango, o Auditório 1.º de Maio ganhou um carácter intenso, apaixonado e mesmo provocador. Interpretando de forma magistral o tango de Astor Piazolla, o conjunto conseguiu envolver o público numa atmosfera mágica repleta de sentimentos. Os sons sentidos e intensos do violino, do saxofone e do acordeão, com o piano e o contrabaixo a marcar o tom, não deixavam ninguém indiferente. Quando a vocalista e o par de bailarinos argentinos subiam ao palco o ambiente completava-se e a paixão destilada no palco contagiava o público, de forma particular os muitos casais – de todas as idades – que por ali andavam.
E a paixão virou Revolução, com a actuação do Coro Lopes-Graça da Academia de Amadores de Música. Interpretando canções do seu repertório popular e revolucionário, o coro levou às lágrimas muitos dos presentes, que, de punho cerrado, prolongavam o conjunto de vozes que, no palco, dava vida, de forma exemplar, às melodias e Lopes-Graça e aos poemas de grandes nomes da poesia portuguesa do século XX. Coro e público unidos «como os dedos da mão». A terminar, o coro, dirigido pelo maestro José Robert, interpretou «Acordai» e, juntamente com as centenas de pessoas presentes, «Grândola, Vila Morena».
No sábado à noite foi a vez da música balcânica tomar o seu lugar. Infelizmente, os Mostar Sevdah Reunion, a banda que é expoente máximo na Bósnia-Herzegovina, não pôde contar com a consagrada Ljljana Butler por motivo de doença, mas nem por isso o espectáculo perdeu qualidade. Com o lendário cantor cigano, Saban Bajramovich, um aceleradíssimo violino e uma frenética guitarra que o acompanhava, o público foi-se entusiasmando com o chamado Blues dos balcãs, que levou ao rubro o auditório, que foi fazendo gigantescas rodas e comboios humanos que se foram cruzando e contagiando a assistência.
Depois da forte correria a que obriga o entusiástico ritmo da banda da ex-Jugoslávia, o auditório reservou-se ao jazz do Quinteto Nelson Cascais. Há muito que os aficcionados reservam tempo para não perderem os momentos de jazz no auditório. O público transformou-se numa sóbria e silenciosa moldura humana atenta ao virtuosismo dos executores. Alguns trazem mesmo cadeiras de praia para desfrutarem, comodamente, dos sons do contrabaixo de Nelson e do seu quinteto.
Para quem buscasse um pouco de tranquilidade contrastante com os outros palcos, o auditório foi um mágico recanto. A noite de sábado culminou com uma homenagem à cantora Ella Fitzgerald, interpretada pela cantora Joana Rios. Numa voz calma e segura, foi embalando a plateia, que terminou rendido à sua actuação intimista.
No final, voltou a Carvalhesa e, com ela, centenas de jovens que, correndo da direcção do lago para o auditório fizeram, de novo o espaço transbordar de felicidade e alegria. O segundo dia de Festa não podia ter terminado melhor... e ainda faltava domingo!
Um espaço para todos!
A actuação, a abrir o dia de domingo, do grupo coral Moçoilas, da serra do Caldeirão, foi uma agradável surpresa. O facto de não estar anunciado na revista levou a que muita gente estivesse ali com objectivo de escutar outros sons, mas o que é certo é que não se ouviu nenhum protesto. Longe disso. Quem lá estava gostou e muito. Combinando sonoridades alentejanas e algarvias – ou não fossem dessa zona de charneira que é a serra do Caldeirão – as quatro mulheres revisitaram e actualizaram cancioneiros populares, com íntima ligação à vida, à cultura e à luta do povo daquela região.
Uma hora depois do anunciado, devido à actuação-surpresa do quarteto feminino, foi a vez dos Toques do Caramulo fazerem transbordar o auditório de alegria e ritmo, assim como de pessoas. Os ritmos portugueses, populares, encantaram todos. Com o recinto apinhado de gente jovem, era ver essa gente a saltar, a dançar alegremente, a seguir as coreografias propostas pelos elementos da banda que, no palco, não se mostravam menos alegres e felizes do que o público que haviam encantado.
Depois, a banda que muitos esperavam às 15.30 horas chegou uma hora depois, sem que ninguém se mostrasse de alguma forma irritado por esse facto. Quando os Dazkarieh subiram ao palco para iniciar a sua actuação, o recinto estava cheio de gente, já embalada pelos concertos anteriores. A música heterogénea e fora do comum da banda cativou os fãs e os curiosos, envolvendo todos num ambiente cativante, ao qual ninguém ficou indiferente.
À noite, passada a emoção e a intensidade do comício no palco 25 de Abril, foi a vez do fado tomar o seu lugar junto ao lago, no Auditório 1.º de Maio, primeiro com a actuação do jovem Ricardo Ribeiro e depois com o espectáculo O tempo e o Fado, que integrava os fadistas Maria Amélia Proença, Carla Pires, Marco Rodrigues, Helder Moutinho e António Zambujo. Foi com o sentimento do fado, mais ou menos tradicional, mais ou menos «inovador», que terminou a Festa deste ano no Auditório 1.º de Maio. Para o ano, esperam-se mais surpresas, a serem bebidas com entusiasmo pelos visitantes da Festa, tenham a idade, a origem ou a formação que tiverem.
Primeiro dia deu o mote
Quando a Carvalhesa ecoou a assinalar a abertura dos espectáculos no Auditório 1.º de Maio, uma correria de jovens entrou pela tenda adentro e contagiou os que já aguardavam a actuação do cabo-verdiano Jon Luz, o primeiro a animar a noite de música com raízes africanas. A morna misturada com a salsa e com influências do resto do mundo foi envolvendo a assistência que rapidamente encheu a bancada ao fundo da tenda e se ia acomodando frente ao palco. Uns, começaram por dar uns tímidos pézinhos de dança. Outros, sentados na relva, conservavam as forças para mais tarde enquanto moviam a cabeça ao ritmo da musicalidade cabo-verdiana. A banda teve diante de si um público atento cujo entusiasmo foi crescendo à medida que a curiosidade ia fazendo chegar ao auditório cada vez mais convivas.
Coube depois à classificada como sucessora de Cesária Évora, Nancy Vieira, a tarefa de atrair público à tenda do auditório. «Benvindos aos sons da liberdade», exclamou. E era mesmo liberdade que se respirava no auditório. Cada vez mais convivas dançavam, enquanto outros iam preferindo ouvir atentamente a doce voz de Nancy ao ritmo dos funanás, das coladeras, do cola e do sam jon. «Somos um país pobre e a música é uma das nossas maiores riquezas», sublinhou a cantora que soube prová-lo da melhor forma, entregando-se totalmente ao público que já esgotava a tenda. E era bem diversificado, este público cuja mistura etária era uma evidência por todo o espaço.
Dispersos pelo espaço, alguns casais desfrutaram, bem coladinhos um no outro, romanticamente, de uns passos de dança que mereciam ser registados em imagem pela ternura que irradiavam. Um apaixonado casal quarentão, à semelhança de outros mais discretos, ficou na retina de muitos pela forma desinibida e indiferente aos restantes convivas como, apaixonadamente, foram dançando…
Mas um outro momento alto da noite no auditório ainda estava para vir através do reggae dos Kussondulola. O espectáculo teve duas particularidades que contribuíram para uma ainda maior enchente do auditório que já transbordava pelas costuras de tal forma que a parede lateral da tenda teve de ser especialmente aberta para que milhares de visitantes que não couberam pudessem assistir ao espectáculo, da parte de fora. Por um lado, era o espectáculo de sexta-feira mais aguardado por muitos dos visitantes. Por outro, o concerto teve início à meia-noite, após o encerramento dos espectáculos no Palco 25 de Abril, situação que fez convergir ainda mais espectadores.
«Sejam então benvindos à grande Festa da amizade, à grande Festa da consequência», começou o vocalista Janelo por desejar aos convivas. As mensagens de amor, justiça, paz e harmonia foram entoadas em coro por milhares ainda não habituados aos novos trabalhos do grupo mas com a memória bem viva quanto a temas que fizeram dos Kussondulola uma referência no panorama musical português, como foi o caso de «Perigosa» que fez do lago e do auditório um ponto de reencontro para todos os amantes do reggae, onde até os mais idosos não recusaram dançar e conviver entre rastas e jovens de todas as cores, gostos, costumes e tradições.
Marcante e entusiástica voltou a ser, no final, a Carvalhesa que encerrou o primeiro dia de Festa no auditório. Foi, de forma contundente, a constatação da alegria transbordante nos olhos de milhares de pessoas, num mesmo momento conjunto de felicidade, dança e vontade de viver.
Ritmo, paixão e revolução
No sábado à tarde, muitos descansavam à sombra do Auditório, bem como no seu interior. A noite anterior tinha sido de festa e a tarde estava muito quente. Aos primeiros acordes da «Carvalhesa», a anunciar o início dos espectáculos, inicia-se a segunda alvorada do dia e, entre saltos e danças, começa a consulta do programa da Festa. «Ficamos aqui? Sim, parece ser giro!», ouve-se, por estas ou outras palavras, em diversas conversas entre famílias e grupos de amigos.
Ao palco sobe o Realejo, agrupamento que se dedica à criação e interpretação de música de tradição europeia a partir da Idade Média. Tocando instrumentos pouco usuais, e com uma vocalista de voz límpida e também ela pouco usual, o grupo soube cativar a assistência curiosa e ávida de experimentar novas sonoridades. Ou sonoridades conhecidas mas interpretadas de forma inovadora, como foi o caso da célebre «Carvalhesa», que voltou a levantar a assistência, que não conseguia manter o pé no chão.
Em seguida, o Estardalhaço Brass Band continuou a alegria, concedendo-lhe novos moldes e novas sonoridades. Com oito músicos no palco, tocando outros tantos instrumentos – uma bateria e sete instrumentos de sopro –, o agrupamento era, ele mesmo, o espelho da alegria que se vivia no recinto. Com sorrisos estampados na face, músicos e público partilhavam uma mesma e imensa alegria. À alegria dos músicos em interpretar uma música alegre e de qualidade, com uns quantos efeitos psicadélicos, a assistência respondia com aplausos sinceros, danças espontâneas, alegria sincera. «Não há Festa como esta. Foi um prazer e voltem sempre», disse um dos músicos, enquanto interpretava um dos temas.
Os Telectu foram os senhores que se seguiram. Mantendo a tradição «experimentalista», o agrupamento e os seus dois convidados oriundos da ex-Alemanha Democrática, encantaram o público com as suas improvisações. O baterista e percussionista Günter Sommer experimentou de tudo para tocar a sua bateria, utilizando utensílios como luvas de cozinha e toalhas para arrancar som do instrumento. E conseguiu. E bem. Perante um público visivelmente boquiaberto com o virtuosismo apresentado, o trombonista Konrad Bauer improvisou durante largos minutos sozinho – os restantes músicos pararam de tocar e ali ficaram, a olhar e a ouvir – arrancando ao público um interminável aplauso.
Com a subida ao palco do Lusotango, o Auditório 1.º de Maio ganhou um carácter intenso, apaixonado e mesmo provocador. Interpretando de forma magistral o tango de Astor Piazolla, o conjunto conseguiu envolver o público numa atmosfera mágica repleta de sentimentos. Os sons sentidos e intensos do violino, do saxofone e do acordeão, com o piano e o contrabaixo a marcar o tom, não deixavam ninguém indiferente. Quando a vocalista e o par de bailarinos argentinos subiam ao palco o ambiente completava-se e a paixão destilada no palco contagiava o público, de forma particular os muitos casais – de todas as idades – que por ali andavam.
E a paixão virou Revolução, com a actuação do Coro Lopes-Graça da Academia de Amadores de Música. Interpretando canções do seu repertório popular e revolucionário, o coro levou às lágrimas muitos dos presentes, que, de punho cerrado, prolongavam o conjunto de vozes que, no palco, dava vida, de forma exemplar, às melodias e Lopes-Graça e aos poemas de grandes nomes da poesia portuguesa do século XX. Coro e público unidos «como os dedos da mão». A terminar, o coro, dirigido pelo maestro José Robert, interpretou «Acordai» e, juntamente com as centenas de pessoas presentes, «Grândola, Vila Morena».
No sábado à noite foi a vez da música balcânica tomar o seu lugar. Infelizmente, os Mostar Sevdah Reunion, a banda que é expoente máximo na Bósnia-Herzegovina, não pôde contar com a consagrada Ljljana Butler por motivo de doença, mas nem por isso o espectáculo perdeu qualidade. Com o lendário cantor cigano, Saban Bajramovich, um aceleradíssimo violino e uma frenética guitarra que o acompanhava, o público foi-se entusiasmando com o chamado Blues dos balcãs, que levou ao rubro o auditório, que foi fazendo gigantescas rodas e comboios humanos que se foram cruzando e contagiando a assistência.
Depois da forte correria a que obriga o entusiástico ritmo da banda da ex-Jugoslávia, o auditório reservou-se ao jazz do Quinteto Nelson Cascais. Há muito que os aficcionados reservam tempo para não perderem os momentos de jazz no auditório. O público transformou-se numa sóbria e silenciosa moldura humana atenta ao virtuosismo dos executores. Alguns trazem mesmo cadeiras de praia para desfrutarem, comodamente, dos sons do contrabaixo de Nelson e do seu quinteto.
Para quem buscasse um pouco de tranquilidade contrastante com os outros palcos, o auditório foi um mágico recanto. A noite de sábado culminou com uma homenagem à cantora Ella Fitzgerald, interpretada pela cantora Joana Rios. Numa voz calma e segura, foi embalando a plateia, que terminou rendido à sua actuação intimista.
No final, voltou a Carvalhesa e, com ela, centenas de jovens que, correndo da direcção do lago para o auditório fizeram, de novo o espaço transbordar de felicidade e alegria. O segundo dia de Festa não podia ter terminado melhor... e ainda faltava domingo!
Um espaço para todos!
A actuação, a abrir o dia de domingo, do grupo coral Moçoilas, da serra do Caldeirão, foi uma agradável surpresa. O facto de não estar anunciado na revista levou a que muita gente estivesse ali com objectivo de escutar outros sons, mas o que é certo é que não se ouviu nenhum protesto. Longe disso. Quem lá estava gostou e muito. Combinando sonoridades alentejanas e algarvias – ou não fossem dessa zona de charneira que é a serra do Caldeirão – as quatro mulheres revisitaram e actualizaram cancioneiros populares, com íntima ligação à vida, à cultura e à luta do povo daquela região.
Uma hora depois do anunciado, devido à actuação-surpresa do quarteto feminino, foi a vez dos Toques do Caramulo fazerem transbordar o auditório de alegria e ritmo, assim como de pessoas. Os ritmos portugueses, populares, encantaram todos. Com o recinto apinhado de gente jovem, era ver essa gente a saltar, a dançar alegremente, a seguir as coreografias propostas pelos elementos da banda que, no palco, não se mostravam menos alegres e felizes do que o público que haviam encantado.
Depois, a banda que muitos esperavam às 15.30 horas chegou uma hora depois, sem que ninguém se mostrasse de alguma forma irritado por esse facto. Quando os Dazkarieh subiram ao palco para iniciar a sua actuação, o recinto estava cheio de gente, já embalada pelos concertos anteriores. A música heterogénea e fora do comum da banda cativou os fãs e os curiosos, envolvendo todos num ambiente cativante, ao qual ninguém ficou indiferente.
À noite, passada a emoção e a intensidade do comício no palco 25 de Abril, foi a vez do fado tomar o seu lugar junto ao lago, no Auditório 1.º de Maio, primeiro com a actuação do jovem Ricardo Ribeiro e depois com o espectáculo O tempo e o Fado, que integrava os fadistas Maria Amélia Proença, Carla Pires, Marco Rodrigues, Helder Moutinho e António Zambujo. Foi com o sentimento do fado, mais ou menos tradicional, mais ou menos «inovador», que terminou a Festa deste ano no Auditório 1.º de Maio. Para o ano, esperam-se mais surpresas, a serem bebidas com entusiasmo pelos visitantes da Festa, tenham a idade, a origem ou a formação que tiverem.