Debater e intervir
Sob o tema «A saída da crise. Como superar os défices?», realizou-se, no domingo, à tarde, no Café Concerto de Lisboa, um debate com a participação de Eugénio Rosa e Tiago Cunha. Da plateia, que encheu por completo o auditório, saíram opiniões, críticas às políticas governamentais, felicitações pelo trabalho realizado por Eugénio Rosa, economista, e denunciou-se a intenção deste e de outros governos em privatizar os serviços públicos, nomeadamente a água.
No início do debate, Tiago Cunha, estudante de economia e membro do Sector Intelectual do PCP, fez um enquadramento da questão económica até aos dias de hoje. Sublinhando que «existem diferentes formas de conceber a economia, não sendo esta uma ciência exacta», o jovem comunista declarou que os diferentes ramos da economia estão intimamente conectados com o saneamento das classes sociais, «numa altura em que a ofensiva ideológica é avassaladora, em que os agentes económicos procuram incutir junto das populações que só há um caminho, só há uma via, e que essa via é o neoliberalismo».
«A economia, na sua aplicação prática, é um instrumento que pode ser dirigido para o serviço de alguns, subjugando todos os outros, ou pode ser um instrumento que esteja ao serviço de uma larga maioria. É neste contexto que o Estado pode ter um papel fundamental», elucidou Tiago Cunha, dando a conhecer que o Estado Social na Europa começou a ter mais força em meados do século XX, «face ao produto da luta dos trabalhadores, ao desejo dos povos pela melhoria das suas condições de vida, com a correlação de forças que se seguiu à II Guerra Mundial e a uma tentativa de derrota do sistema capitalista, a um outro modelo de sociedade, o modelo da União Soviética, o modelo social das economias do socialismo».
Conquistas e recuos
No nosso País, continuou, este advento só chega com a Revolução de 1974. «Com a democracia houve avanços na economia, no sistema social, no acesso à cultura. Foi uma altura em que, fruto da luta de muitos anos dos trabalhadores, e do PCP, foi uma altura de conquistas e de grande progressão, em termos económicos. Para a prossecução e o aprofundamento do regime democrático, o Estado chamou a si responsabilidades, através das nacionalizações, e passa a controlar sectores fundamentais da economia», disse.
Segundo Tiago Cunha, «as nacionalizações cumpriam assim um duplo sentido, não só de atingir uma sociedade nova, o socialismo, como romperam claramente com aquilo que estava para traz e que suportava o regime fascista. Com o Estado a assumir factores essenciais como a banca, a energia, a água, os transportes, telecomunicações, mas também nas industrias fundamentais para o País, como o cimento, a siderurgia, a industria de adubos, criou-se um Estado forte, dinâmico, produtor. Pela primeira vez na história, ficaram também consagrados na nossa Constituição da República, e que foram efectivamente implementados, o direito universal à saúde, à educação e à segurança social».
No entanto, este caminho revolucionário começa a sofrer reversos. Ao invés do seu aprofundamento, começou-se a verificar um ataque a estas conquistas. «Este ataque era alicerçado em campanhas de denegrir o sector nacional do Estado, apoiado por instrumentos jurídicos, à margem daquilo que era a constituição, e da sua clara violação. Com o objectivo de estancar o processo do alargamento das funções do Estado, deu-se então a contra-revolução», frisou, chegando o seu raciocínio até aos dias de hoje: «Após a nacionalização da banca, do desmantelamento do sector empresarial do Estado, vêem agora com o ataque as Serviços Públicos. Estas medidas merecem da parte dos comunistas e das forças progressistas uma resposta e um esclarecimento para esta questão. Não há inevitabilidade nenhuma, na economia, como ciência social, pode-se desenvolver criativamente, conforme a posição de classe que se toma, se escolhem caminhos, e que outro caminho é possível. É com a luta dos trabalhadores, dos intelectuais, do povo português, que isso se vai verificar», terminou, sob uma forte salva de palmas.
Obsessão do défice
Por seu lado, Eugénio Rosa, conceituado economista da CGTP-IN, falou sobre a economia e as possíveis soluções para combater o défice orçamental.
«A economia é uma ciência social, não está acima da luta de classes», relatou, pegando em alguns exemplo, nomeadamente o défice dos combustíveis. «Se nós analisar-mos, no nosso País, no quadro da União Europeia, a dependência energética é das mais elevadas, cerca de 88 por cento», disse, apontado soluções: «O nosso défice energético resolve-se, por um lado, investindo mais na produção de energia, energias renováveis, mas também utilizando melhor, de uma forma mais eficiente a energia».
Eugénio Rosa falou também, após análise do programa do Governo, da obsessão do défice. «Este ataque não é direccionado apenas para a Administração Pública, mas sim para a saúde, para a educação, para as pensões sociais, por exemplo, e é ai que vão apertar o cinto. Esta medida não vai só ter consequências na Administração Pública, mas na vida de todos os trabalhadores», avisou, dando exemplo da descomparticipação dos medicamentos.
Música e informação
No sábado realizou-se um outro debate subordinado ao tema «Lisboa e Cesário Verde - Poeta, Povo, Cidade». Foram interlocutores, para além da imensa plateia, Rita Magrinho, Manuel Gusmão e Filipe Diniz.
Para além dos, tão apetecidos, Mojitos e Caipirinhas, das tapas e dos salgados, os visitantes deste espaço puderam ainda assistir ao melhor que há em termos musicais, nacionais e internacionais. Foram eles os Refilon (música de Cabo-Verde), Castro e Salgueiro (Música do Mundo), os Lupanar (música urbana), os King of Spades (blues), a Banda Andarilho (música popular portuguesa), os Kataros Ibéricos (flamenco ibérico) e os Tricotismo (jazz). A abrir programação do Café Concerto de Lisboa, na sexta-feira, pelas 21 horas, com encenação de José Manuel Osório, aconteceu a dramatização do poema «As Portas que Abril Abriu».
Na banca do Café Concerto, podia-se ainda encontrar, para venda, uma medalha comemorativa do 60.º Aniversário da Vitória sobre o Nazi-fascismo, da autoria de João Duarte, a edição número 13 do Caderno Vermelho, uma colecção de postais «Luta e Resistência» e textos de escritores comunistas sobre os «30 anos desde Abril».
Participação democrática
Na área das organizações regionais do PCP, que abarca grande parte da Atalaia, encontravam-se ainda outros dois palcos - Palco de Setúbal e Palco Arraial - dedicados inteiramente à música e à palavra. Ranchos folclóricos, grupos corais, canções tradicionais portuguesas, blues, jazz, foram alguns dos estilos musicais que passaram e encantaram os milhares de pessoas que, durante os três dias, ali assistiram a dezenas de intervenções culturais.
Aqui, sendo a Festa do Avante! o maior acontecimento político-cultural, realizaram-se ainda dois debates, um subordinado ao tema «O Partido» e outro sobre o «O Poder Local Democrático». Neste último, evidenciou-se o papel da CDU, uma presença necessária e insubstituível na defesa dos interesses das populações na dignificação do Poder Local, na solução dos problemas.
No início do debate, Tiago Cunha, estudante de economia e membro do Sector Intelectual do PCP, fez um enquadramento da questão económica até aos dias de hoje. Sublinhando que «existem diferentes formas de conceber a economia, não sendo esta uma ciência exacta», o jovem comunista declarou que os diferentes ramos da economia estão intimamente conectados com o saneamento das classes sociais, «numa altura em que a ofensiva ideológica é avassaladora, em que os agentes económicos procuram incutir junto das populações que só há um caminho, só há uma via, e que essa via é o neoliberalismo».
«A economia, na sua aplicação prática, é um instrumento que pode ser dirigido para o serviço de alguns, subjugando todos os outros, ou pode ser um instrumento que esteja ao serviço de uma larga maioria. É neste contexto que o Estado pode ter um papel fundamental», elucidou Tiago Cunha, dando a conhecer que o Estado Social na Europa começou a ter mais força em meados do século XX, «face ao produto da luta dos trabalhadores, ao desejo dos povos pela melhoria das suas condições de vida, com a correlação de forças que se seguiu à II Guerra Mundial e a uma tentativa de derrota do sistema capitalista, a um outro modelo de sociedade, o modelo da União Soviética, o modelo social das economias do socialismo».
Conquistas e recuos
No nosso País, continuou, este advento só chega com a Revolução de 1974. «Com a democracia houve avanços na economia, no sistema social, no acesso à cultura. Foi uma altura em que, fruto da luta de muitos anos dos trabalhadores, e do PCP, foi uma altura de conquistas e de grande progressão, em termos económicos. Para a prossecução e o aprofundamento do regime democrático, o Estado chamou a si responsabilidades, através das nacionalizações, e passa a controlar sectores fundamentais da economia», disse.
Segundo Tiago Cunha, «as nacionalizações cumpriam assim um duplo sentido, não só de atingir uma sociedade nova, o socialismo, como romperam claramente com aquilo que estava para traz e que suportava o regime fascista. Com o Estado a assumir factores essenciais como a banca, a energia, a água, os transportes, telecomunicações, mas também nas industrias fundamentais para o País, como o cimento, a siderurgia, a industria de adubos, criou-se um Estado forte, dinâmico, produtor. Pela primeira vez na história, ficaram também consagrados na nossa Constituição da República, e que foram efectivamente implementados, o direito universal à saúde, à educação e à segurança social».
No entanto, este caminho revolucionário começa a sofrer reversos. Ao invés do seu aprofundamento, começou-se a verificar um ataque a estas conquistas. «Este ataque era alicerçado em campanhas de denegrir o sector nacional do Estado, apoiado por instrumentos jurídicos, à margem daquilo que era a constituição, e da sua clara violação. Com o objectivo de estancar o processo do alargamento das funções do Estado, deu-se então a contra-revolução», frisou, chegando o seu raciocínio até aos dias de hoje: «Após a nacionalização da banca, do desmantelamento do sector empresarial do Estado, vêem agora com o ataque as Serviços Públicos. Estas medidas merecem da parte dos comunistas e das forças progressistas uma resposta e um esclarecimento para esta questão. Não há inevitabilidade nenhuma, na economia, como ciência social, pode-se desenvolver criativamente, conforme a posição de classe que se toma, se escolhem caminhos, e que outro caminho é possível. É com a luta dos trabalhadores, dos intelectuais, do povo português, que isso se vai verificar», terminou, sob uma forte salva de palmas.
Obsessão do défice
Por seu lado, Eugénio Rosa, conceituado economista da CGTP-IN, falou sobre a economia e as possíveis soluções para combater o défice orçamental.
«A economia é uma ciência social, não está acima da luta de classes», relatou, pegando em alguns exemplo, nomeadamente o défice dos combustíveis. «Se nós analisar-mos, no nosso País, no quadro da União Europeia, a dependência energética é das mais elevadas, cerca de 88 por cento», disse, apontado soluções: «O nosso défice energético resolve-se, por um lado, investindo mais na produção de energia, energias renováveis, mas também utilizando melhor, de uma forma mais eficiente a energia».
Eugénio Rosa falou também, após análise do programa do Governo, da obsessão do défice. «Este ataque não é direccionado apenas para a Administração Pública, mas sim para a saúde, para a educação, para as pensões sociais, por exemplo, e é ai que vão apertar o cinto. Esta medida não vai só ter consequências na Administração Pública, mas na vida de todos os trabalhadores», avisou, dando exemplo da descomparticipação dos medicamentos.
Música e informação
No sábado realizou-se um outro debate subordinado ao tema «Lisboa e Cesário Verde - Poeta, Povo, Cidade». Foram interlocutores, para além da imensa plateia, Rita Magrinho, Manuel Gusmão e Filipe Diniz.
Para além dos, tão apetecidos, Mojitos e Caipirinhas, das tapas e dos salgados, os visitantes deste espaço puderam ainda assistir ao melhor que há em termos musicais, nacionais e internacionais. Foram eles os Refilon (música de Cabo-Verde), Castro e Salgueiro (Música do Mundo), os Lupanar (música urbana), os King of Spades (blues), a Banda Andarilho (música popular portuguesa), os Kataros Ibéricos (flamenco ibérico) e os Tricotismo (jazz). A abrir programação do Café Concerto de Lisboa, na sexta-feira, pelas 21 horas, com encenação de José Manuel Osório, aconteceu a dramatização do poema «As Portas que Abril Abriu».
Na banca do Café Concerto, podia-se ainda encontrar, para venda, uma medalha comemorativa do 60.º Aniversário da Vitória sobre o Nazi-fascismo, da autoria de João Duarte, a edição número 13 do Caderno Vermelho, uma colecção de postais «Luta e Resistência» e textos de escritores comunistas sobre os «30 anos desde Abril».
Participação democrática
Na área das organizações regionais do PCP, que abarca grande parte da Atalaia, encontravam-se ainda outros dois palcos - Palco de Setúbal e Palco Arraial - dedicados inteiramente à música e à palavra. Ranchos folclóricos, grupos corais, canções tradicionais portuguesas, blues, jazz, foram alguns dos estilos musicais que passaram e encantaram os milhares de pessoas que, durante os três dias, ali assistiram a dezenas de intervenções culturais.
Aqui, sendo a Festa do Avante! o maior acontecimento político-cultural, realizaram-se ainda dois debates, um subordinado ao tema «O Partido» e outro sobre o «O Poder Local Democrático». Neste último, evidenciou-se o papel da CDU, uma presença necessária e insubstituível na defesa dos interesses das populações na dignificação do Poder Local, na solução dos problemas.