Utentes contestam gestão privada

Um erro a corrigir

Vítor Andrade é membro da Comissão de Utentes do Hospital Amadora-Sintra que foi constituída em 1995, quando o então já derrotado Governo do PSD, nas vésperas da constituição do novo executivo socialista, entregou à pressa a gestão deste importante e valioso investimento público à gestão do Grupo Mello.

«Avante!» - Quando a Comissão foi criada ainda não se conheciam os efeitos da gestão privada. Quais as razões do protesto?

Vítor Andrade – A Comissão nunca esteve contra a actividade de privados na área da saúde. Pelo contrário, conhecemos vários casos de clínicas privadas, construídas de raiz, que funcionam exemplarmente. A questão é que o hospital Amadora-Sintra, agora Fernando Fonseca, era uma antiga aspiração em especial da população da Amadora, custou muitos milhões de contos ao Estado, ou seja a todos nós, e não vemos razão para que seja uma organização privada a geri-lo e retirar daí lucros. Eles não investiram nada. Desde o terreno, cedido pela Câmara, ao edifício e equipamentos tudo foi pago pelos contribuintes.

Essa é uma questão de princípio. Mas os utentes começaram logo no início a sentir-se prejudicados?

Sim. As discriminações foram logo visíveis e os casos de maus cuidados não tardaram a aparecer, alguns com consequências fatais. Os utentes com cartão «Medis», que é do grupo Mello, têm ali um tratamento preferencial, dispondo até de uma ala para atendimento exclusivo.

Os restantes ficam à espera durante horas e são em geral mal atendidos. Nas urgências, ao fim-de-semana, depois das 20 horas, não existem certas especialidades, como por exemplo a ortopedia, o que faz com que muitos doentes tenham de ser transferidos para outros hospitais. Acresce que os médicos ganham à «peça» e recebem um prémio se fizerem poucos internamentos.

Um hospital não pode ter critérios de rentabilidade económica?

Não se trata disso. Até porque quando se confrontou a experiência do Amadora-Sintra com a do Garcia de Orta, em Almada, que abriu na mesma altura sob gestão pública, constatou-se que este custa menos dinheiro ao Estado e presta mais e melhores serviços à população.

No entanto, o modelo de gestão que o Governo pretende generalizar é muito semelhante ao que já existe no Amadora-Sintra.

Sim. E por isso tem a oposição não só dos utentes como dos próprios médicos. Pensamos que é uma orientação que visa claramente beneficiar interesses privados e que, a não ser invertida, terá resultados catastróficos para as populações e para o País.



Mais artigos de: Em Foco

Serviço público é melhor!

O direito à saúde constitui uma das mais importantes questões no combate por uma sociedade mais justa. A garantia do acesso generalizado da população a cuidados de saúde com qualidade, sem discriminações de carácter económico ou social, é um...

A privatização faz mal à Saúde

O Governo fez aprovar na Assembleia da República uma alteração à Lei de Bases da Saúde, que estipula um novo modelo de estatuto jurídico para os hospitais. Posteriormente publicou os decretos-lei da «empresarialização» de 31 unidades hospitalares. Agora prepara-se para, na prática, privatizar os centros de saúde e os restantes hospitais. Este é um processo que não é novo.

A saúde não pode esperar

Os atrasos no atendimento dos utentes do SNS para a realização de cirurgias, consultas de especialidade ou de outro tipo de prestação de cuidados de saúde são uma realidade absolutamente inadmissível que os sucessivos governos não quiseram resolver.

As injustas taxas «moderadoras»

As taxas ditas moderadoras, na forma que hoje têm, foram criadas na sequência da revisão constitucional, resultante do célebre acordo Cavaco Silva (PSD)/Vítor Constâncio (PS), que veio passar a dizer que a Saúde é «tendencialmente gratuita».

A demagogia do Governo

O Governo defende a sua política com uma intensa e demagógica propaganda, que visa instrumentalizar o descontentamento da população e esconder os seus reais intentos. Eis algumas das suas «verdades».

Uma função insubstituível

Os cuidados primários integrados estão na base da concepção moderna da saúde da população. O médico de família, o enfermeiro e outros profissionais têm um papel insubstituível no acompanhamento dos cidadãos ao longo da vida, sendo determinantes na prevenção da doença.

O País precisa de mais médicos...

A evolução tecnológica, o desenvolvimento das políticas de prevenção da doença e da promoção do bem-estar, a construção de novas unidades hospitalares e de centros de saúde são circunstâncias que exigem mais e melhores recursos humanos na área da saúde.

Factos e números da OMS

Nos últimos 30 anos e em especial depois do 25 de Abril e da criação do SNS, a taxa de mortalidade teve uma evolução impressionante, baixando de 58,6 por cada mil nados vivos, em 1970, para 5,4, em 2000 (ver quadro).

O Hospital Amadora/Sintra nasceu mal

Na construção do Hospital, foi adoptado pela primeira vez o processo de concepção/construção que, segundo o governo do então primeiro-ministro Cavaco Silva, permitiria construir este tipo de equipamentos de forma rápida, barata, e com qualidade. O resultado foi o oposto.

Frases do relatório da Inspecção Geral de Finanças

«Segundo esta entidade [sociedade gestora do Amadora/Sintra] existiam, em Novembro de 2001, 5931 doentes em lista de espera para cirurgia.» «Duas das unidades privadas com quem a HASSG [Hospital Amadora Sintra - Sociedade Gestora] contratou a prestação de cuidados de saúde aos...