• Sérgio Dias Branco

O cinema devolvido ao povo

O CineAvante! avança, confiante. Conquistou um lugar de relevo na Festa e as condições melhoram de ano para ano. O programa de 2018 assinalou o segundo centenário do nascimento de Karl Marx com O Jovem Karl Marx (2017), apresentado por Rui Mota. O filme narra o início da colaboração entre Marx e Friedrich Engels. O que importou para eles, e o que importa para nós, é transformar esse estado de coisas.

Os filmes animados, em colaboração com a Monstra – Festival de Cinema de Animação de Lisboa, preencheram as sessões da manhã. É um trabalho de divulgação do melhor deste cinema, como Vasco Granja fez em vida. Fernando Galrito, director da Monstra, comentou que estes filmes «não têm muita presença na exibição comercial», mas são obras de «experimentação e imaginação» que mostram as possibilidades da criatividade humana.

A aposta na divulgação do cinema português continuou central. Marta Mateus, realizadora de Farpões Baldios (2017), salientou o grande valor da oferta cultural na Festa. O filme evoca memórias de infância em Estremoz, onde a palavra tem muito peso e denso significado. Para ela, o CineAvante! é uma forma de «devolver o cinema ao povo, a quem ele pertence».

Carlos Garrido Santos e Joaquim Bichana Martins, actores de A Fábrica de Nada (2017), sublinharam a raridade deste filme — um retrato da situação dos trabalhadores, das suas vidas e esperanças, e do contexto social e económico. Para Carlos, o mais forte é o processo de «união e ganho de força dos trabalhadores. O filme retrata também a necessidade de transformar o mundo de forma mais profunda e consequente, não sendo suficiente mudar uma empresa», observou Joaquim.

Luz Obscura (2017) é um documentário sobre o impacto da repressão fascista na família de Octávio Pato, no qual os testemunhos dos filhos Álvaro e Rui e da filha Isabel são elementos estruturantes. Para Álvaro, «é uma pedrada no charco que desafia gente da cultura a realizar iniciativas artísticas que revelem o que foi a ditadura fascista». A cineasta Susana de Sousa Dias realçou a importância de o mostrar na Festa, porque «ele está intimamente ligado à história do PCP».

Lília Trajano, actriz de O Caso J. (2017), destacou o acerto de mostrar um filme sobre a violência policial, racialmente marcada, no Brasil, num evento internacionalista que «celebra ideais de liberdade e igualdade». A encenação é marcada, mas dinâmica, com fotografia a preto e branco, utilizando «a lógica de encenação dos “autos de resistência”», explicou o realizador José Filipe Costa.

O programa fechou com um debate sobre o cineclubismo em Portugal, com Luís Pereira (Cineclube da Horta) e Ana Mesquita. Nele se discutiram o passado, o presente, e o futuro dessas associações que foram espaços de intenso activismo anti-fascista e desempenham um papel fundamental no acesso à variedade da arte cinematográfica.

 



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