Avanteatro

A história no pulsar da actualidade

Carlos Nabais

A programação do Avanteatro destacou-se mais uma vez pela qualidade e diversidade dos espectáculos apresentados por grupos de todo o País. Houve marionetas que maravilharam os mais novos, criações de jovens artistas, assim como produções teatrais já com grande notoriedade junto do público. Houve música, cinema e nem sequer faltou a surpreendente exibição de acrobatas, dançarinas, cantores e músicos vindos da província chinesa de Shanxi.

Foram três dias com muitos momentos de divertimento e pura fruição das artes de palco, mas também de interpelação do público para importantes questões da actualidade e de reavivamento da memória do que foi o fascismo e das tragédias que provocou aos povos.

Aliás, o fascismo, a prisão e a tortura, a opressão colonial, a fome e a miséria, a brutal exploração do povo foram temas focados em várias peças, um fio condutor que ligou a programação do Avanteatro, revelando o interesse crescente de várias companhias na abordagem e aprofundamento de períodos e acontecimentos que pertencem à história, mas cuja compreensão é essencial para se entender o presente e lutar por um futuro melhor.

Como referiu Manuela Bernardino, dirigente do PCP, no final da exibição do documentário «Luz Obscura», o avanço de forças de extrema-direita em vários países demonstra que o ressurgimento do fascismo constitui hoje uma ameaça real para os povos. Por isso é preciso continuar a gritar: «Fascismo nunca mais!».

Logo na abertura do palco, a companhia A Barraca apresentou um dos mais importantes espectáculos de teatro actualmente em exibição: «1936, O Ano da Morte de Ricardo Reis», peça baseada no célebre romance de José Saramago. A peça, com dramaturgia e encenação de Helder Costa, recorda-nos alguns acontecimentos ocorridos em 1936: a comemoração dos dez anos do golpe militar de 28 de Maio de 1926, que abriu caminho à implantação do regime fascista em Portugal, apoiado numa polícia política que recebeu instrução da Gestapo, a fundação da Mocidade Portuguesa, da Legião Portuguesa e a criação do campo de concentração do Tarrafal. No mesmo ano Mussolini invade a Etiópia, Hitler intensifica o ataque aos judeus e eclode a guerra civil de Espanha.

A noite prosseguiu com a representação no exterior do espectáculo «Sorriso», da trupe «Teatro Só», seguindo-se no palco a peça «Prelúdio: a mulher selvagem», pelo Teatro Didascália, e a música do grupo «Cindazunda», a encerrar o espaço.

As manhãs foram dedicadas ao teatro para a infância, com as peças «Adormecida», pelo Teatro e Marionetas de Mandrágora, e «Verdi que te Quero Verdi», pela Companhia de Teatro de Almada.

Na tarde de sábado subiu ao palco a peça «O Fascismo (aqui) nunca existiu», pelo Teatro Art'Imagem, sedeado na Maia. O espectáculo que começa com o fim da II Guerra Mundial, em 1945, desenvolve-se em vários quadros que abordam os tempos tenebrosos do fascismo em Portugal, terminando com a manhã libertadora do 25 de Abril.

Os visitantes do Avanteatro tiveram ainda oportunidade de ver o premiado documentário de Susana de Sousa Dias, Luz Obscura, que nos revela fotografias de cadastro de presos políticos pertencentes ao núcleo familiar do militante comunista Octávio Pato (1925-1999). O filme foi também apresentado no CineAvante!, terminando com uma conversa com a realizadora, e os camaradas Álvaro Pato e Manuela Bernardino.

Ao início da noite foi a vez da Estação Teatral apresentar o espectáculo «Há Beira na Revolta», baseado em histórias do povo da Beira Interior, ocorridas entre o século XIX e os meados do século XX.

O tema do ascenso das forças de direita voltou a estar presente no imaginativo espectáculo «Atenção à Direita!», de Cláudia Dias, que contracena com Pablo Fidalgo Lareo, desenvolvendo um diálogo no decurso de um combate de boxe, num ringue montado no exterior do pavilhão.

Noite dentro, o grupo Casa da Esquina apresentou a peça, «Eu uso termotebe e o meu pai também», uma criação de Ricardo Correia, que reflecte a condição de operário e a sua emancipação, bem como as mutações da sua identidade ao longo de várias gerações.

O espaço encerrou com música no palco do Bar, onde Márcio Pinto, em marimba, e Catarina Anacleto, em violoncelo, prestaram um tributo a Zeca Afonso.

Na tarde de domingo, A Barraca voltou a atrair imenso público com o espectáculo «A Pessimista», um monólogo de sátira social, pleno de humor e ironia, interpretado pela jovem actriz Teresa Mello Sampayo.

«Cartas», pelo grupo UMCOLETIVO associação cultural, encerrou o programa teatral deste ano. Aqui é evocada a figura histórica de Amílcar Cabral, primeiro líder do PAIGC, através da correspondência trocada, entre 1946 e 1960, com Maria Helena, sua primeira mulher.

Seguiu-se o ritmo vigoroso e sentido do tango com o quarteto de Daniel Schvetz e por fim A Orquestra de Foles, composta de gaitas e percussões.






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