Concentração da riqueza
Os privilégios e mordomias de que beneficiam os grandes grupos económicos, bem como os colossais lucros por si obtidos, em contraste absoluto com a carga pesada que recai sobre o factor trabalho, não atestam apenas o grau de iniquidade que vigora no sistema fiscal. São ainda o mais eloquente desmentido à tese da «justa repartição de sacrifícios» propalada pelo primeiro-ministro, embuste que na sua versão mais recente assumiu a asserção de que não foi o «mexilhão» a pagar a factura da crise.
Falando desse favorecimento aos senhores do dinheiro, Jorge Machado enumerou algumas das situações que o comprovam, desde os regimes fiscais que abrem a porta à fuga (legal ou ilegal) aos impostos até aos perdões fiscais, passando pelas reduções da taxa social única, pelas PPP ou por outros negócios que rendem milhões do Orçamento do Estado.
Por opção do Governo, ao mesmo tempo que impôs cortes drásticos a quem trabalha ou trabalhou, garantidos foram assim 12 mil milhões para recapitalização da banca, 23 mil milhões em juros da dívida, milhares de milhões em benefícios fiscais (1045 dos quais escondidos da Conta Geral do Estado só em 2012), cerca de cinco mil milhões em PPP.
Quanto aos lucros milionários, os números não são menos impressivos. Entre 2004 e 2013, elencou o deputado do PCP, registou-se os seguintes resultados: a banca acumulou mais de 10 mil milhões de euros, na energia e telecomunicações (Galp e EDP incluídas) a cifra ultrapassou os 27 mil milhões de euros, e no comércio e serviços (onde se inclui a Sonae e a Jerónimo Martins) o bolo atingiu um montante superior a quatro mil milhões de euros. Mais, em menos de uma década, 18 empresas acumularam lucros de mais de 48 mil milhões de euros.
Conhecido é também o reverso da medalha: o definhamento das pequenas empresas em resultado da política do Governo, da falta de procura interna, dos custos de contexto, como a energia.