PCP interpela Governo sobre distribuição da riqueza

Fuga ao País real

A oposição consistente do PCP à política de direita, conjugada com a apresentação das propostas concretas que dão corpo à sua política alternativa, funcionou na perfeição no debate. O mesmo é dizer que atingiu o alvo – e o Governo acusou o toque.

Isso foi patente na forma como aquele e a sua maioria parlamentar procuraram mascarar a realidade, congeminando um País que só existe nas suas cabeças. Assistiu-se assim à ministra das Finanças a puxar pelo «aumento do salário mínimo» e pela «actualização das pensões mínimas», para ilustrar a sua alegada preocupação com os mais desfavorecidos, e ao ministro da Economia a falar de «novo ciclo» já em 2015, fruto das «reformas estruturais» do Governo.

A ausência de bons argumentos para rebater as questões de fundo suscitadas pelo PCP cedo descambou porém na diatribe anticomunista. Os sinais apareceram logo na fase inicial do debate, com o deputado do PSD Nuno Serra a pedir «exemplos de países comunistas» com as mesmas funções sociais do nosso País, e a dizer que «está na hora» do PCP mudar «porque Cuba também já mudou». Com mais ou menos polimento, foi esta tónica que esteve presente nas intervenções de outros deputados dos partidos da maioria, a que não escapou Maria Luís Albuquerque, para atingir a fase de desbragamento com o ministro da Economia, Pires de Lima. «PCP e BE não me dão lições de criação e distribuição de riqueza. A vossa inspiração bolchevista ou trotskista impede-os de olhar para a realidade com um mínimo de objectividade», foi uma das pérolas que saiu da sua boca, ultrapassada no final com outra preciosidade numa referência ao que chamou de «exemplos históricos» do Leste Europeu: «os povos eram condenados à pobreza e à fome».

«Não precisam de falar de um país inventado, falem do País que arrastaram para a miséria», ripostou o líder parlamentar do PCP, depois de ter convidado os membros do Governo e os deputados da maioria PSD/CDS-PP a olharem para as políticas que prosseguiram, cujo resultado, este sim, verdadeiramente, está patente na «fome e miséria a que condenaram os portugueses».

 

 



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