Imigração, pretextos, segurança e opções de classe

Rui Fernandes
As questões da imigração assumem um cada vez maior protagonismo na vida política e social, desde logo em resultado do aumento da sua expressão e também porque, em resultado do aumento da sua expressão, começa a servir de pretexto para a adopção de um conjunto de medidas de alcance mais global.
No plano ideológico a imigração tem servido, como de resto vários exemplos de França, Áustria, etc. tem mostrado, para o ascenso das forças da extrema-direita a partir de um discurso racista e xenófobo, de culpabilização dos imigrantes para tudo o que de mau sucede na sociedade. Agora, vai ganhando terreno as teses de que tem cada vez menos sentido falar de imigração e que aquilo que é correcto dizer-se é que estamos em presença da «mobilidade». É por isso que também vai sendo cada vez mais comum o uso da palavra «migração» ou «migrações». Claro que fogem, desde logo, ao singelo facto de explicar o porquê, então, de legislação específica.
Mas é no plano das medidas de natureza securitária que temos vindo a assistir a um vasto conjunto reuniões e medidas sobretudo ao nível da União Europeia. Desde logo, a intenção de ser adoptada uma Política Comum de Imigração que amarre cada Estado membro.
O PCP está contra tais objectivos, considerando que esta deve ser matéria reservada à soberania de cada Estado, o que não impede políticas de cooperação. Até porque, se outras razões não houvesse, existe uma Convenção Internacional da ONU sobre a protecção dos Direitos de todos os Trabalhadores Migrantes e membros das suas famílias (Resolução nº 45/158 de 18 de Dezembro 1990) que estabelece um vasto conjunto de princípios sobre direitos e liberdades dos migrantes, independentemente da sua situação regular ou irregular, o direito ao reagrupamento familiar e a prevenção ao tráfico de pessoas, etc., aliás, aspectos sobre os quais a União Europeia pretende adoptar normativos. Está bem de ver que esta Resolução da ONU não serve os interesses do capital, daí ignorarem-na. Tanto assim é que, embora aprovada em 1990, só entrou em vigor enquanto instrumento pleno em 2003, ano em que obteve a subscrição do número mínimo de vinte países necessário para o efeito. Nenhum desses países é da União Europeia.
Foi o PCP o primeiro e o único partido a suscitar o problema da não ratificação por parte do Estado português da referida Convenção e agora foi apresentado pelo grupo parlamentar um projecto de Resolução na Assembleia da República visando a sua ratificação.
Enquanto isto, assiste-se a reuniões de ministros da Europa do Sul com vista ao reforço das medidas de natureza securitária no quadro do reforço da Agência Europeia de Fronteiras (FRONTEX), com vista a ser constituída uma espécie de Guarda-Costeira, bem como a exigência para que sejam criadas normas que regulem a intervenção de equipas rápidas nas fronteiras. Ao mesmo tempo, e aparentemente desligado, está em marcha a criação do Centro Marítimo de Análises e Operações que, tudo indica, ficará sediado em Portugal e permitirá a partilha de dados por parte de seis países (Portugal, Espanha, França, Itália, Reino Unido e Irlanda), além de possuir uma componente operacional envolvendo forças policias e meios das forças armadas; a GNR prepara-se para assumir o comando da Eurogendfor (força policial europeia de perfil militar) para o biénio 2007-09 que é constituída por Portugal, Itália, Espanha, França e Holanda; também em instalação está a Agência Marítima de Segurança Europeia, igualmente com sede em Portugal, com o objectivo da vigilância marítima, preocupações ambientais mas que, inevitavelmente, terá um papel muito mais vasto.
Este conjunto de medidas, entre outras, tem nalguns casos a imigração como alvo, noutros casos como pretexto. Mas todas elas confluem para um mesmo objectivo securitário, de restrição de liberdades, de exponencial controlo dos cidadãos.
Todas elas possuem a marca de classe inerente à natureza do capitalismo e esta é a questão central.


Mais artigos de: PCP

Quinze propostas para o desenvolvimento

Mais de um milhar de pessoas, entre delegados e convidados, encheram por completo o auditório do Centro de Artes de Portalegre, no passado domingo, para assistirem uns, os convidados, e outros, os delegados, para participarem e intervirem na 3.ª Assembleia Regional do Alentejo do PCP.

Orçamento vai agravar a desertificação

Encerrando a 3.ª Assembleia Regional do Alentejo, realizada domingo em Portalegre, Jerónimo de Sousa denunciou os novos cortes no investimento público para a grande maioria dos concelhos alentejanos previsto no Orçamento de Estado para 2007. No conjunto dos distritos, o corte previsto significará uma redução de cerca de...

A saúde é um direito, não é um negócio!

No arranque da campanha nacional do PCP em defesa do Serviço Nacional de Saúde, Jerónimo de Sousa reafirmou as propostas dos comunistas para um SNS público, universal e geral.

Governo vai na direcção errada

O Governo está mais apostado em desenvolver «linhas de negócio» favoráveis à entrada dos privados do que em dar resposta aos problemas existentes, afirma o PCP, a propósito das opções estratégicas anunciadas pelo Executivo para o caminho de ferro.

Reforçar o Partido para melhor agir

A Célula do PCP no Arsenal do Alfeite realizou, no passado dia 21 de Outubro, a sua 8.ª Assembleia de Organização, apontando medidas para o reforço da organização do Partido junto dos trabalhadores.

Despenalizar o aborto!

Desde sempre favorável à aprovação de uma lei que despenalize a Interrupção Voluntária da Gravidez sem recurso a referendo, o PCP «participará activamente no processo eleitoral do Referendo, com uma activa intervenção de esclarecimento e mobilização para a desejável e necessária vitória do “Sim”». Para os comunistas,...

Algarve cada vez mais pobre

O Algarve é, a par dos Açores e da Madeira, uma das regiões mais pobres do País, em resultado de uma política de concentração da riqueza e do modelo de desenvolvimento seguido na região, que tem levado à destruição do tecido produtivo. É aliás «curioso», diz a Direcção da Organização Regional do Algarve do PCP, que o elo...

Atentados à democracia

O projecto de regulamento municipal de propaganda política e eleitoral aprovado pela Câmara Municipal de Alcácer do Sal, no dia 10 de Outubro, é claramente «inconstitucional», denuncia a Comissão Concelhia de Alcácer do Sal do PCP. De facto, trata-se de uma matéria da «exclusiva competência da Assembleia da República» e...

Pela recolha do lixo ao sábado

A Comissão Concelhia de Gondomar do PCP exortou a população a prosseguir a sua luta pela recolha do lixo ao sábado. Depois de várias diligências e acções de protesto contra a decisão da Câmara Municipal que pôs fim ao serviço prestado naquele dia, sem qualquer redução da respectiva taxa de resíduos sólidos, os comunistas...