A utopia musicada
Das grossas colunas de som ouviu-se a música, por todos reconhecida, de que os espectáculos vão reabrir.
Muitos apertaram o passo para não perder a «Carvalhesa» porque, afinal de contas, a vida são dois dias e a Festa são três.
«Vingança festiva» no palco dos sonhos
Os Renderfly, abriram os espectáculos de sábado e não defraudaram os milhares de pessoas.
Munidos de técnica apurada no domínio dos sons pop e rock embalaram o público com «Shine» e «Falling Star» numa apoteose para a qual muito contribuíram os ecrãs gigantes. Agradecendo a oportunidade de actuarem «num espaço e num evento ímpar em Portugal», o vocalista saudou a Festa e incitou o público a questionar criticamente a realidade em «Why».
Os Quadrilha, numa fusão entre a música popular e as melodias celtas, fizeram o que melhor sabem, pondo toda a gente a pular.
As letras, cantadas em coro, conjuntamente com a «paleta» de sons étnicos, demonstraram que em palco os Quadrilha convidam à dança. Balançados pela sintonia com o público, solidarizaram-se com o povo Palestiniano e, enquanto saíam do palco, deixavam saudades da mensagem e dos ritmos enebriantes.
De novo convidados para actuarem no sábado à tarde, os Terrakota anunciaram uma «vingança festiva». A banda levou milhares de jovens e menos jovens ao rubro com o reggae, o ska e os ritmos de todo o mundo, interpretados pelos seus sete elementos.
A vocalista, Rosa Maria Paulo esteve muito mais aliviada após um parto bem sucedido e já sem a grande barriga de mãe que exibiu durante este ano, ajudou a arrebatar o público num momento de grande beleza, onde o conteúdo intervencionista das letras de apelo à acção de todos pela paz, por outro sistema mais justo, contra o racismo, as guerras e a destruição ecológica do planeta foram as mensagens predominantes. E deixaram um recado: «Continuem a sonhar. Isso é o que nos faz viver». O bebé Terrakota também esteve na Atalaia.
Da música popular à revolução Catalã
Com um estilo de cantor de flamengo e uma voz a lembrar o saudoso cantor cigano Cameron, Benjamim Escoriza e os Rádio Tarifa uniram a estas características tons de folclore, rock, jazz e blues. Ao pormenor e, de novo, graças aos écrans, pôde ver-se o perfeccionismo destes músicos onde se destacam instrumentos tradicionais como a derbuka (tambor árabe em cerâmica) e a ney (flauta egípcia), os solos magistrais de guitarra espanhola e o baixo eléctrico. Fizeram valer os seus pergaminhos e deram à Festa mais um grande momento.
Coincidindo com as comemorações do seu 30.º aniversário, a Brigada Victor Jara apresentou o seu novo álbum e fez uma retrospectiva do seu trabalho, recordando alguns dos temas recolhidos nos campos de Portugal pelo trabalho etnográfico de Michel Giacometti, até êxitos mais recentes de reminiscências musicais das zonas da raia portuguesa apresentadas em «Danças e folias». Acompanhados por Janita Salomé, os metais de Tomás Pimentel, os Gaiteiros de Melide (Galiza), António Pinto na guitarra e André Sousa Machado na bateria, a Brigada trouxe os sons das gaitas de foles misturados com as canções populares. Manuel Rocha, porta-voz deste grupo, recordou a enorme actividade da Brigada nas campanhas de apoio às propostas «do nosso Partido», lembrou como se formou a banda durante o período revolucionário, no ano de ’75 e fez questão de recordar a passagem do 30.º aniversário do golpe fascista no Chile que, entre milhares de mortos, assassinou também o mestre da música de intervenção, Victor Jara.
Revolução catalã
Comunistas assumidos, de Barcelona vieram os Inadaptats, a banda com maior prestígio entre os jovens revolucionários da Catalunha.
Nunca uma banda deste tipo - que mistura o hard com o rock, o ska, o funk e o rap - tinha tido a projecção que a Festa lhes deu.
O vocalista, Jokin, entrou no palco com uma bandeira do PCP, ao som da qual se ouviu o hino da União Soviética, cantado com a letra original, levando o público ao rubro.
Depois foi o apelo à revolução e à unidade dos trabalhadores, pelo socialismo e o comunismo, ao som de «Canviarem la história» ou «Muti Avalot», a denúncia da repressão que sofre neste momento de forma particular o povo basco, e a solidariedade internacionalista, através do tema «Cuba». Operários na sua maioria, foi com grande tristeza que tiveram que regressar a Barcelona no domingo, para segunda-feira se apresentarem nos seus trabalhos quotidianos. Não sem antes dizerem ao Avante! que realmente, «não há Festa como esta».
Ouvidos à escuta e Cabeças no Ar
Os projectores criaram o ambiente para uma toada intimista. A personalidade de Maria João e Mário Laginha levaram o espectáculo do seu novo álbum, «Undercovers», que transportou o público para uma noite de emoções fortes.
Acompanhados por instrumentistas de eleição, a voz de Maria João e o piano de Mário Laginha percorreram temas contemporâneos a várias gerações presentes. De Caetano a Sting, aos ritmos do jazz mesclado com raízes africanas, o grupo conquistou a multidão.
O momento alto deu-se quando a cantora, num solo de voz, arrebatou toda a gente e obrigou o regresso ao palco para mais uma melodia dançável.
Os quatro cantautores que compõem os Cabeças no Ar fecharam a noite de sábado não se limitando a cantar temas do novo álbum. Para delícia de todos os que lá estiveram interpretaram canções de outros projectos, fazendo a Atalaia cantar em coro músicas como «Os Loucos de Lisboa» ou «Chuva Dissolvente».
Em perfeita empatia com o público, continuaram com músicas que já andam de boca em boca, como «A seita tem um Radar» ou «Primeiro Beijo».
Ska à portuguesa
Os Sloppy Joe abriram o palco, no domingo, e logo milhares de espectadores esqueceram o cansaço provocado pelos dias anteriores, saltando ao som de um ska/reggae marcado de forma determinante pela voz de Marta Campos. Com influências da world music, o espectáculo primou por um apurado ritmo e uma cada vez maior consistência. O público rendeu-se aos ritmos e à percussão dos Sloppy Joe, e foi extravasando felicidade que a banda contagiou a juventude da «Carvalhesa».
O regresso dos Primitive Reason à Festa coincidiu com o último trabalho da banda. Mas não foi apenas «The firescroll» que se pôde escutar. Os seus trabalhos de maior fama em álbuns anteriores também levaram a momentos de grande beleza, onde as letras rap contra o racismo, o sistema e pela paz revelaram o inconformismo da banda.
Força revolucionária na tarde militante
Dos subúrbios operários de Roma chegou a Banda Bassotti que, coerentes com as suas convicções e raízes, fazem da música uma arma contra a injustiça capitalista.
Ao ritmo do Ska e ou do punk-rock, de punho no ar puseram toda a gente a mexer.
A palavra política marca o ritmo da solidariedade com Cuba, Palestina, passando pelo País Basco, a Galiza e a Venezuela.
Com «Luna Rossa» deixaram quase sem fôlego muitos milhares de pessoas que, ainda assim, não pararam quando o grupo cantou «Cuba Sí, Yankee No», ou quando relembraram a guerra civil espanhola e o regime fascista de Franco.
Um gigantesco coro de vozes que entoou o hino da União Soviética e a «Bella Ciao», com a qual se despediram gritando «Viva a bandeira vermelha e o partido dos trabalhadores».
Antes do comício os Tocá Rufar e os alemães Schalmeinkappele deram continuidade ao cancioneiro revolucionário. Numa conjugação harmoniosa de percussão e sopro tocaram melodias históricas do movimento operário mundial, da «A Internacional» à «Bandiera Rossa».
A gaita mágica
A primeira gaiteira da Galiza de prestígio internacional foi um memorável acontecimento musical no começo da noite de domingo.
Cristina Pato fez sonhar todos os que se deliciaram com a sua criatividade.
Os amantes das gaitas puderam apreciar um universo de música tradicional, adaptada a ritmos e sons contemporâneos como o pop e o sinfónico. Foi magia que se sentiu cuidada e trabalhada, reflectindo um grande trabalho sobre as potencialidades da gaita de foles galega, os seus timbre, melodias e escalas antigas e modernas.
«Nesta Cidade», um final memorável
Com um repertório que atravessa gerações, os Xutos & Pontapés realizaram um dos mais marcantes concertos da Festa e fizeram da Atalaia um espaço demasiado pequeno para todos os que se juntaram para o espectáculo de encerramento.
Ao som do rock combativo que sempre caracterizou a banda, o povo embalou para uma noite memorável, cantando a altas vozes.
O grupo agradeceu o carinho demonstrado e «a todos os que constróem a Festa», fazendo votos que «ela possa continuar cada vez melhor».
«Vida Malvada», «Chuva Dissolvente», «Estupidez» ou «Circo de Feras», cantadas em coro, motivaram ainda mais os Xutos que debitaram o melhor rock insubmisso.
Em simbiose com a assistência, coadjuvada pela imagem dos ecrãs gigantes, a multidão foi ao êxtase com «Remar, Remar» e com «A Minha Casinha» obrigando a um regresso ao palco.
A «Carvalhesa» dançada debaixo do fogo de artifício fechou o palco 25 de Abril, deixando a certeza que, para o ano, cá nos voltaremos a encontrar na Festa, a que o povo faz sua.
Muitos apertaram o passo para não perder a «Carvalhesa» porque, afinal de contas, a vida são dois dias e a Festa são três.
«Vingança festiva» no palco dos sonhos
Os Renderfly, abriram os espectáculos de sábado e não defraudaram os milhares de pessoas.
Munidos de técnica apurada no domínio dos sons pop e rock embalaram o público com «Shine» e «Falling Star» numa apoteose para a qual muito contribuíram os ecrãs gigantes. Agradecendo a oportunidade de actuarem «num espaço e num evento ímpar em Portugal», o vocalista saudou a Festa e incitou o público a questionar criticamente a realidade em «Why».
Os Quadrilha, numa fusão entre a música popular e as melodias celtas, fizeram o que melhor sabem, pondo toda a gente a pular.
As letras, cantadas em coro, conjuntamente com a «paleta» de sons étnicos, demonstraram que em palco os Quadrilha convidam à dança. Balançados pela sintonia com o público, solidarizaram-se com o povo Palestiniano e, enquanto saíam do palco, deixavam saudades da mensagem e dos ritmos enebriantes.
De novo convidados para actuarem no sábado à tarde, os Terrakota anunciaram uma «vingança festiva». A banda levou milhares de jovens e menos jovens ao rubro com o reggae, o ska e os ritmos de todo o mundo, interpretados pelos seus sete elementos.
A vocalista, Rosa Maria Paulo esteve muito mais aliviada após um parto bem sucedido e já sem a grande barriga de mãe que exibiu durante este ano, ajudou a arrebatar o público num momento de grande beleza, onde o conteúdo intervencionista das letras de apelo à acção de todos pela paz, por outro sistema mais justo, contra o racismo, as guerras e a destruição ecológica do planeta foram as mensagens predominantes. E deixaram um recado: «Continuem a sonhar. Isso é o que nos faz viver». O bebé Terrakota também esteve na Atalaia.
Da música popular à revolução Catalã
Com um estilo de cantor de flamengo e uma voz a lembrar o saudoso cantor cigano Cameron, Benjamim Escoriza e os Rádio Tarifa uniram a estas características tons de folclore, rock, jazz e blues. Ao pormenor e, de novo, graças aos écrans, pôde ver-se o perfeccionismo destes músicos onde se destacam instrumentos tradicionais como a derbuka (tambor árabe em cerâmica) e a ney (flauta egípcia), os solos magistrais de guitarra espanhola e o baixo eléctrico. Fizeram valer os seus pergaminhos e deram à Festa mais um grande momento.
Coincidindo com as comemorações do seu 30.º aniversário, a Brigada Victor Jara apresentou o seu novo álbum e fez uma retrospectiva do seu trabalho, recordando alguns dos temas recolhidos nos campos de Portugal pelo trabalho etnográfico de Michel Giacometti, até êxitos mais recentes de reminiscências musicais das zonas da raia portuguesa apresentadas em «Danças e folias». Acompanhados por Janita Salomé, os metais de Tomás Pimentel, os Gaiteiros de Melide (Galiza), António Pinto na guitarra e André Sousa Machado na bateria, a Brigada trouxe os sons das gaitas de foles misturados com as canções populares. Manuel Rocha, porta-voz deste grupo, recordou a enorme actividade da Brigada nas campanhas de apoio às propostas «do nosso Partido», lembrou como se formou a banda durante o período revolucionário, no ano de ’75 e fez questão de recordar a passagem do 30.º aniversário do golpe fascista no Chile que, entre milhares de mortos, assassinou também o mestre da música de intervenção, Victor Jara.
Revolução catalã
Comunistas assumidos, de Barcelona vieram os Inadaptats, a banda com maior prestígio entre os jovens revolucionários da Catalunha.
Nunca uma banda deste tipo - que mistura o hard com o rock, o ska, o funk e o rap - tinha tido a projecção que a Festa lhes deu.
O vocalista, Jokin, entrou no palco com uma bandeira do PCP, ao som da qual se ouviu o hino da União Soviética, cantado com a letra original, levando o público ao rubro.
Depois foi o apelo à revolução e à unidade dos trabalhadores, pelo socialismo e o comunismo, ao som de «Canviarem la história» ou «Muti Avalot», a denúncia da repressão que sofre neste momento de forma particular o povo basco, e a solidariedade internacionalista, através do tema «Cuba». Operários na sua maioria, foi com grande tristeza que tiveram que regressar a Barcelona no domingo, para segunda-feira se apresentarem nos seus trabalhos quotidianos. Não sem antes dizerem ao Avante! que realmente, «não há Festa como esta».
Ouvidos à escuta e Cabeças no Ar
Os projectores criaram o ambiente para uma toada intimista. A personalidade de Maria João e Mário Laginha levaram o espectáculo do seu novo álbum, «Undercovers», que transportou o público para uma noite de emoções fortes.
Acompanhados por instrumentistas de eleição, a voz de Maria João e o piano de Mário Laginha percorreram temas contemporâneos a várias gerações presentes. De Caetano a Sting, aos ritmos do jazz mesclado com raízes africanas, o grupo conquistou a multidão.
O momento alto deu-se quando a cantora, num solo de voz, arrebatou toda a gente e obrigou o regresso ao palco para mais uma melodia dançável.
Os quatro cantautores que compõem os Cabeças no Ar fecharam a noite de sábado não se limitando a cantar temas do novo álbum. Para delícia de todos os que lá estiveram interpretaram canções de outros projectos, fazendo a Atalaia cantar em coro músicas como «Os Loucos de Lisboa» ou «Chuva Dissolvente».
Em perfeita empatia com o público, continuaram com músicas que já andam de boca em boca, como «A seita tem um Radar» ou «Primeiro Beijo».
Ska à portuguesa
Os Sloppy Joe abriram o palco, no domingo, e logo milhares de espectadores esqueceram o cansaço provocado pelos dias anteriores, saltando ao som de um ska/reggae marcado de forma determinante pela voz de Marta Campos. Com influências da world music, o espectáculo primou por um apurado ritmo e uma cada vez maior consistência. O público rendeu-se aos ritmos e à percussão dos Sloppy Joe, e foi extravasando felicidade que a banda contagiou a juventude da «Carvalhesa».
O regresso dos Primitive Reason à Festa coincidiu com o último trabalho da banda. Mas não foi apenas «The firescroll» que se pôde escutar. Os seus trabalhos de maior fama em álbuns anteriores também levaram a momentos de grande beleza, onde as letras rap contra o racismo, o sistema e pela paz revelaram o inconformismo da banda.
Força revolucionária na tarde militante
Dos subúrbios operários de Roma chegou a Banda Bassotti que, coerentes com as suas convicções e raízes, fazem da música uma arma contra a injustiça capitalista.
Ao ritmo do Ska e ou do punk-rock, de punho no ar puseram toda a gente a mexer.
A palavra política marca o ritmo da solidariedade com Cuba, Palestina, passando pelo País Basco, a Galiza e a Venezuela.
Com «Luna Rossa» deixaram quase sem fôlego muitos milhares de pessoas que, ainda assim, não pararam quando o grupo cantou «Cuba Sí, Yankee No», ou quando relembraram a guerra civil espanhola e o regime fascista de Franco.
Um gigantesco coro de vozes que entoou o hino da União Soviética e a «Bella Ciao», com a qual se despediram gritando «Viva a bandeira vermelha e o partido dos trabalhadores».
Antes do comício os Tocá Rufar e os alemães Schalmeinkappele deram continuidade ao cancioneiro revolucionário. Numa conjugação harmoniosa de percussão e sopro tocaram melodias históricas do movimento operário mundial, da «A Internacional» à «Bandiera Rossa».
A gaita mágica
A primeira gaiteira da Galiza de prestígio internacional foi um memorável acontecimento musical no começo da noite de domingo.
Cristina Pato fez sonhar todos os que se deliciaram com a sua criatividade.
Os amantes das gaitas puderam apreciar um universo de música tradicional, adaptada a ritmos e sons contemporâneos como o pop e o sinfónico. Foi magia que se sentiu cuidada e trabalhada, reflectindo um grande trabalho sobre as potencialidades da gaita de foles galega, os seus timbre, melodias e escalas antigas e modernas.
«Nesta Cidade», um final memorável
Com um repertório que atravessa gerações, os Xutos & Pontapés realizaram um dos mais marcantes concertos da Festa e fizeram da Atalaia um espaço demasiado pequeno para todos os que se juntaram para o espectáculo de encerramento.
Ao som do rock combativo que sempre caracterizou a banda, o povo embalou para uma noite memorável, cantando a altas vozes.
O grupo agradeceu o carinho demonstrado e «a todos os que constróem a Festa», fazendo votos que «ela possa continuar cada vez melhor».
«Vida Malvada», «Chuva Dissolvente», «Estupidez» ou «Circo de Feras», cantadas em coro, motivaram ainda mais os Xutos que debitaram o melhor rock insubmisso.
Em simbiose com a assistência, coadjuvada pela imagem dos ecrãs gigantes, a multidão foi ao êxtase com «Remar, Remar» e com «A Minha Casinha» obrigando a um regresso ao palco.
A «Carvalhesa» dançada debaixo do fogo de artifício fechou o palco 25 de Abril, deixando a certeza que, para o ano, cá nos voltaremos a encontrar na Festa, a que o povo faz sua.