A Global Media e a falta que faz o sector público

Passaram menos de dois meses desde que foi notícia a mudança de controlo do grupo Global Media, um dos maiores grupos económico-mediáticos a operar no País, que detém títulos como o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, O Jogo ou a Rádio TSF. São escassas semanas que parecem longos meses na vida dos trabalhadores do grupo, com o culminar de um processo escandaloso que em muito faz lembrar os esquemas que levaram à falência do BES.

E o que tem isto a ver com o tratamento mediático do PCP, marcado pela discriminação, manipulação e silenciamento? O que este processo põe a nu é a natureza destes investimentos cruzados de grupos económicos na comunicação social, que suportam prejuízos avultados para manter na sua mão instrumentos decisivos no fazer e desfazer de opinião.

Na origem deste escândalo, como de tantos outros, estão as privatizações: no início dos anos 90 são privatizados o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias, ficando integrados no mesmo grupo, a Lusomundo, que adquire de seguida a TSF. Este vai parar às mãos de uma outra empresa privatizada, a Portugal Telecom que, sintomaticamente, atravessa actualmente um processo de venda que pode passar pela sua desintegração. Uns anos mais tarde, a PT vende a sua participação no sector à Controlinveste, dona de O Jogo, iniciando-se um percurso tortuoso: o grupo viria a mudar de mãos várias vezes, num desfile de capitalistas sem capital e que levaram à situação actual.

Hoje, o grupo tem quatro accionistas, mas é controlado por um fundo do qual só se sabe que tem sede num paraíso fiscal. O esquema faz lembrar os escândalos financeiros recentes: o tal fundo detém 51% de um empresa que, por sua vez, detém 40% da Global Media, que controla através de um acordo assinado com os restantes accionistas.

As alterações foram quase imediatas quando o fundo passou a mandar no grupo: despedimento colectivo para quem não aceitar rescisões «amigáveis», fim de todas as rúbricas na TSF, «dispensa» dos «colaboradores» do JN a recibos verdes (sem os quais o jornal nunca existiria como o conhecemos), com o recurso a velhas e brutais tácticas para fazer vergar quem denunciou a operação em curso: deixando de pagar avenças em Outubro, o subsídio de Natal em Novembro e os salários de todos em Dezembro, usando como justificação a suspensão da venda de uma participação da Global Media e da empresa que a controla na Agência Lusa ao Estado, que já detém a maioria do capital da agência noticiosa.

Ao longo de todo este processo foram múltiplas as denúncias de tentativas de ingerência com motivações diversas por parte de quem foi passando pelo domínio do grupo, dos tempos da PT aos mais recentes, que levaram, neste momento, a que não haja nenhum título do grupo cuja direcção não se tenha demitido em conflito com a administração ao longo dos últimos 4 anos.

Com o aproximar das eleições legislativas, muito se falará em apoios à comunicação social, ou seja, apoios aos grupos económicos que por lá se movimentam. Olhando para a história da Global Media dir-se-ia que a lição a tirar é outra: na origem do mal, como em tantos outros sectores, estão as privatizações – e que falta faz um sector público de comunicação forte e influente, incluindo na imprensa escrita, que sirva de fiel do rigor e da isenção, e dos direitos dos jornalistas e dos trabalhadores do sector.

 



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