Quando a vida não é notícia
A acção do Partido tem sido de grande intensidade nas últimas semanas, nomeadamente através da agenda pública do Secretário-geral, a que assume dimensão mediática mais expressiva. Em números redondos, sem particulares preocupações de exactidão, podemos falar numa média próxima de uma iniciativa a cada dois dias, com mais de 4 mil quilómetros percorridos, de Faro a Bragança, da Nazaré à Covilhã. Contactos com trabalhadores, comícios, almoços, sessões públicas, audições, encontros.
Depois do interesse dos principais órgãos de comunicação social no acompanhamento da Conferência Nacional poder-se-ia esperar que o interesse em ver este colectivo partidário a pôr em prática as decisões ali tomadas se fizesse prolongar. Por exemplo, no contacto com os trabalhadores da Sonae, no complexo logístico da Azambuja – tomando a iniciativa pelos direitos dos trabalhadores: salários, horários, precariedade. O resultado, no plano da acção do PCP, foi um êxito, com muitos trabalhadores a partilharem das preocupações e propostas do PCP, e manifestações de disponibilidade para a luta pela sua concretização; no plano mediático, foi praticamente como se não tivesse acontecido, com a Agência Lusa a ser o único órgão de comunicação social presente.
Casos como este – a que se pode juntar a audição com trabalhadores dos Correios, com idêntica cobertura –, estão intimamente ligados a um enorme vazio que tem marcado as várias entrevistas dadas pelo Secretário-geral após a conferência. Nestas tem-se discutido a vida interna, as relações com outros partidos e até à realidade de outros países, mas sobra sempre pouco (quando algum) tempo e espaço para a realidade do nosso país, dos trabalhadores, dos reformados, dos muitos sectores profundamente afectados pelas injustiças que se vêm agravando, que vivem o dia-a-dia confrontados com um salário ou uma pensão que não está sequer perto de acompanhar a galopante subida da conta no supermercado, da luz, nas bombas de combustível ou na prestação da casa.
Esta realidade – o afastamento, desconhecimento ou apagamento da realidade da vida das pessoas no trabalho jornalístico – é dramática. Não particularmente pelo que isso se reflecte na cobertura enviesada e claramente insuficiente da acção do PCP, mas por significar uma demissão dos órgãos de comunicação social e, em muitos casos, do jornalismo e dos jornalistas de cumprirem o seu papel. Bastaria olhar para as suas próprias redacções para entender a dimensão dos problemas com que os trabalhadores portugueses estão confrontados – sim, porque o que não falta nas redacções são jornalistas com vínculos precários, com salários há mais de uma década na mesma, com horários absolutamente desregulados que só deixam tempo para o descanso, quando este é possível.
Compreende-se que a vida real tenho pouco interesse para os accionistas dos grupos económicos que detêm os principais órgãos de comunicação social, mas estes não cumprem o seu papel enquanto mantiveram este afastamento do dia-a-dia de quem vive na pele as injustiças – que, tantas vezes, também é o caso de quem faz jornalismo em Portugal.