Governo insiste em medidas para reconfigurar o Estado
O Governo vai «desmantelar ministérios e criar instabilidade nos seus trabalhadores, burocratizar e distanciar ainda mais os cidadãos da Administração», sem mostrar «uma vantagem sequer» desta decisão.
A «desconcentração» fragiliza a dimensão universal dos serviços públicos
João Dias Coelho, da Comissão Política do Comité Central do PCP, numa declaração feita ontem, ao final da manhã, no centro de trabalho da Rua Soeiro Pereira Gomes, comentou a anunciada «extinção total ou parcial de estruturas desconcentradas de nove ministérios, entre os quais os da Cultura, da Saúde, e da Educação», «transferindo-as para as CCDR, pondo em causa o seu carácter universal», assim como a extinção das direcções regionais da Agricultura e Pescas, da Natureza e Floresta, das Infra-estruturas, do Emprego e Formação, decidida «depois de as fragilizar».
«Perante o exemplo dos incêndios florestais e dos problemas de segurança, entre outros, os fazedores de opinião ao serviço da ideologia dominante “vendem” a tese de que o Estado falhou, ao mesmo tempo que violam, debilitam e fragilizam a Administração Central do Estado, para justificarem a privatização de serviços e funções», afirmou o dirigente comunista, defendendo que «é nessa dinâmica que o Governo do PS, invocando falsamente poupanças em cargos de direcção», tomou agora estas decisões.
O Governo do PS – acusou Dias Coelho – recusa «trilhar o caminho da criação das Regiões Administrativas, o pilar constitucional que falta ao Poder Local», e «insiste, tal como o PSD e CDS, a IL e o Chega, no caminho de reconfiguração do Estado, baseado numa pretensa desconcentração». Mas esta opção «mais não faz do que fragilizar a dimensão universal de serviços públicos em áreas cruciais para a vida do País», «afrontando mais uma vez o Poder Local democrático, criando mais dificuldades às populações».
Para o PCP, «trata-se de um processo, inseparável do caminho de privatização/externalização ou de criação de PPP, que não foi interrompido pelo Governo do PS». Tal caminho «não garante a capacidade do Estado de cumprir o seu papel na prestação dos serviços e funções que lhe estão cometidos pela Constituição».
Em alternativa, «o que se impõe é a valorização e dignificação dos serviços públicos, dos seus trabalhadores, salários e carreiras, dotar os serviços dos meios e condições para a prestação do serviço público constitucionalmente cometido à Administração Central do Estado, alargando-os a todo o território nacional, contribuindo para a redução das assimetrias regionais, reforçar o Poder Local democrático, partindo das suas competências originárias, repor as freguesias, dar corpo ao processo de regionalização inscrito na Constituição».
Esta política «tem como condição básica o enfrentamento e a ruptura com os interesses instalados e que dominam, directa ou indirectamente, o poder do Estado». Mas, «por opção de classe», nem o Governo do PS, nem o PSD, CDS, IL e Chega estão em condições de assumir esse rumo.
«Só uma política patriótica e de esquerda está em condições de dar resposta aos problemas que o País enfrenta, dotando o Estado dos meios e condições para responder com eficácia, respeitando os direitos e valorizando as condições sócio-económicas dos trabalhadores, assegurando serviços de proximidade às populações», concluiu João Dias Coelho.