Do frenesim ao silêncio
Depois do animado frenesim mediático em torno do último comício do PCP em Lisboa, chegou o dia e as várias teses que visaram lançar o medo e inculcar a ideia de uma pretensa irresponsabilidade caíram por terra. Naturalmente, comprovou-se que o surto epidémico não impede a iniciativa política, antes exige o seu reforço. Como alguns comentadores insuspeitos notaram, o comício do PCP mostrou que as regras sanitárias e a acção colectiva são compatíveis – ao contrário do que foi sendo transmitido a propósito do 1.º de Maio ou até da Festa do Avante!, a somar ao comício.
O interesse trazia, como não era difícil de antever, água no bico. Com a aproximação do comício e, particularmente, com a forma como este decorreu, foi-se desvanecendo. Foi a maior iniciativa de massas no País nesse dia, uma das maiores nos últimos três meses. Mas basta olhar para a atenção que os principais órgãos de comunicação social lhe deram e comparar com outras grandes realizações dessa semana (de espectáculos musicais a manifestações de rua), para perceber a disparidade.
No dia 7 não vimos reportagens televisivas sobre o comício, não ouvimos relatos detalhados nas rádios e na imprensa escrita foram parcos os relatos do que lá se passou. Para lá das referências e de um directo na RTP3 da intervenção do Secretário-geral, no essencial o relato mediático resumiu-se à constatação de que havia distanciamento entre os participantes, a que se acrescentaram uma ou outra referência às fitas que marcavam o chão ou às máscaras usadas por alguns dos participantes. Ou seja, insistiram num não-assunto para esconder as razões que levaram os participantes ao alto do Parque Eduardo VII. Não vimos um único depoimento dos muitos que lá estiveram e que podiam testemunhar as razões daquele comício.
Nos principais jornais diários nacionais, apenas um referiu o comício na primeira página. Num dos jornais ditos de referência, nem uma referência ao comício surgiu na edição do dia seguinte; noutro jornal com grande tiragem, o comício foi resumido à legenda de uma fotografia, subalternizada a uma conferência de imprensa de outro partido.
Se dúvidas persistissem, a cobertura mediática do comício tornou claro o interesse demonstrado: estigmatizar a acção do PCP – tal como sucedeu com a edição deste ano da Festa do Avante! e a especulação em seu torno. Já aqui notámos que em poucas semanas deste ano houve mais peças sobre a Festa de 2020 do que na cobertura da edição do ano passado. O que agora se exige é que os mesmos que se dedicaram nos últimos meses a lançar um anátema sobre a realização da Festa neste ano dediquem atenção idêntica à sua preparação e à sua edição de 2020. Que os que até agora ignoravam a dimensão cultural da Festa e descobriram recentemente que esta é dos maiores acontecimentos no País finalmente a tratem como tal, dando a conhecer a diversidade cultural e política, as condições de protecção sanitária que assegurará, os espaços de tranquilidade, segurança, convívio e solidariedade que a marca.