Grave situação da Habitação no País reclama a intervenção do Estado

SOLUÇÕES O PCP promoveu, no dia 12 de Junho, a audição «Direito à habitação, um imperativo constitucional». A promoção pública de habitação por parte do Estado foi uma das propostas avançadas.

Retratos de um processo e de uma realidade chocantes

«O direito a uma habitação condigna para todos é um imperativo e um direito inscrito no artigo 65.º da Constituição da República Portuguesa» (CRP), que, exceptuando o «período de grande mobilização popular» pós 25 de Abril de 1974, «não recolheu ao longo dos 46 anos de democracia, por parte dos sucessivos governos, a centralidade que a CRP lhe dá enquanto direito universal», salientou, na abertura da audição, João Dias Coelho.

O membro da Comissão Política do Comité Central (CC) do PCP abordou, de seguida, o «momento excepcional, complexo e difícil» decorrente do surto epidémico de COVID-19, com «milhares de famílias a perderem parte ou mesmo a totalidade dos seus rendimentos, seja por via do lay-off, seja com o desemprego». «Este quadro laboral, gerando angústia e desespero face à expectante redução ou falta de meios para a sobrevivência, colocou maior actualidade num conjunto de problemas e situações que atravessam a sociedade portuguesa e que, embora não tenham nascido com o surto epidémico, ganharam, com este, maior acuidade», advertiu.

Entre outros exemplos, citando estudos e inquéritos, João Dias Coelho referiu que «um quarto das pessoas de famílias que ganhavam até 650 euros perdeu todo o rendimento», «um em cada dez habitantes em Portugal vive em alojamentos sobrelotados, num quadro de falta de condições habitacionais» e «os habitantes da capital portuguesa têm de dedicar 50,4 por cento do salário para pagar as rendas das casas onde vivem».

«São retratos de um processo e de uma realidade chocantes onde impera a especulação imobiliária, seja por via do arrendamento, seja pela aquisição de casa própria com a contratação de empréstimos à banca», destacou, frisando: «Este é o resultado da submissão ao capital financeiro que, particularmente nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto», bem como «nas maiores cidades da malha urbana do País», levou «à expulsão de milhares de famílias para as periferias e à descaracterização dos centros históricos».

Também não foi esquecida a «nefasta lei do governo PSD/CDS» que «levou à total precarização do arrendamento e ao despejo de muitos milhares de famílias, merecendo o justo cognome de Lei dos “despejos”», que, apesar das propostas de revogação apresentadas pelo PCP, «ainda se mantém, se bem que com alterações e adiamentos na aplicação das suas medidas mais nefastas».

A sessão – transmitida em www.pcp.pt e nas contas do PCP no Facebook, Twitter e Youtube – contou, depois, com as intervenções de Ilda Figueiredo (vereadora da CDU na Câmara do Porto e do CC do PCP), Lino Paulo (do Grupo de Trabalho da Habitação e do Gabinete de Trabalho para as Autarquias Locais junto do CC), Luís Mendes (geógrafo, professor e do Movimento Morar em Lisboa), Romão Lavadinho (presidente da Associação de Inquilinos Lisbonenses - AIL), e Bruno Dias (deputado na Assembleia da República e do CC do PCP).

Acção em Lisboa
Hoje
, às 18h00, a Associação do Património e da População de Alfama (APPA), com o apoio da Associação dos Inquilinos Lisbonenses e o Movimento Morar em Lisboa, promove a acção «Mais habitação, mais população», no Largo do Chafariz de Dentro.

Assegurar o direito à habitação

Como João Dias Coelho sublinhou, o problema da habitação, embora seja transversal e cada vez mais alargado a sectores intermédios da população, atinge especialmente as classes e camadas mais fragilizadas e dependentes dos rendimentos do trabalho e das baixas reformas.

Tal como o PCP tem colocado, «este é um problema que não é susceptível de ser resolvido por via do chamado mercado, dominado pelo capital financeiro e falho de regulamentação aos mais diversos níveis, do solo à urbanização e da construção à venda e ao arrendamento», e que a COVID-19, com «o aumento das situações de desemprego e de quebra de rendimentos», agravou.

«A solução», reforçou o dirigente comunista, «terá de passar por uma clara assunção da promoção pública de habitação por parte do Estado». «Sem escamotear os passos, ainda que insuficientes, que foram possíveis dar e para os quais o PCP deu uma grande contribuição entre 2015 e 2019», a «questão que está colocada, tal como a CRP diz e a Lei de Bases da Habitação reafirma, é a necessidade de o Estado assumir a incumbência de garantir uma habitação de dimensão adequada, em condições de higiene e conforto e que preserve a intimidade pessoal e a privacidade familiar», destacou João Dias Coelho.

Contributos para o debate

«Felicito o PCP pelas propostas que tem apresentado na Assembleia da República, designadamente a da moratória, rejeitada pelo PS, PSD e CDS, que podia ajudar os problemas dos inquilinos e minimizar os efeitos negativos da pandemia»». Romão Lavadinho

«A habitação é um dos principais problemas do Porto. No Gabinete do Inquilino Municipal há cerca de mil famílias à espera de casa. (…) A estratégia local de habitação aponta para cerca de duas mil habitações a precisar de serem construídas, bem como para a necessidade de reabilitação das ilhas e dos bairros sociais que estão degradados».Ilda Figueiredo

«A cidade de Lisboa tem vivido na última década, de 2009 a 2019, um pico de projecção internacional enquanto destino turístico. Ao mesmo tempo, o seu mercado de habitação tem vindo a conhecer formatos de activo financeiro e acaba por atrair dinâmicas globais de procura e de investimento estrangeiro». Luís Mendes

«Temos em Lisboa preços de venda de habitação acima dos de Roma ou Bruxelas e ao nível dos de Oslo, Copenhaga e Amesterdão. (…) A renda fundiária obtida numa operação imobiliária corresponde sempre à mais-valia decorrente da exploração de mão de obra produtiva. Quando o valor da renda fundiária é portentoso, como aqui acontece, aquilo que resulta é a exploração de quem produz». Lino Paulo

«Propusemos (PCP) que a proposta do Governo, que dá origem à Lei n.º 4-C/2020, fosse mais longe. (…) Defendemos que a perda de rendimentos, total ou parcial, devia reflectir-se no pagamento das rendas. Isso seria também aplicável no caso dos estudantes. Neste caso, os senhorios seriam compensados pelo Estado no valor correspondente». Bruno Dias

 



Mais artigos de: PCP

Faleceu Lurdes Fernandes

Faleceu, aos 74 anos, a camarada Lurdes Fernandes. Nascida em Parada Gonta, Tondela, Viseu, a 24 de Agosto de 1945, Lurdes Fernandes era membro do PCP desde 1977 e funcionária do Partido desde 1980, tendo assumido várias responsabilidades e tarefas nas organizações regionais de Santarém e Leiria. Actualmente desempenhava...

O êxito da Festa constrói-se desde já

IMPLANTAÇÃO À medida que a edição de 2020 da Festa do Avante! vai ganhando forma no terreno, com a realização das jornadas de trabalho, há muito a fazer na sua planificação, preparação e divulgação.

O centenário do PCP nas páginas do Avante!

Abrimos hoje, nas páginas do Avante!, um espaço dedicado às comemorações do centenário do PCP, que decorrem sob o lema Liberdade, Democracia, Socialismo. O futuro tem Partido. Iniciadas no passado mês de Março, no vibrante comício do Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, as comemorações prolongam-se até 2022.Ao longo deste...

PCP insiste no controlo público da EFACEC

O PCP vai apresentar brevemente na Assembleia da República uma proposta visando assegurar o controlo público da EFACEC. Quem o confirmou foi a deputada do Partido eleita pelo círculo eleitoral do Porto, Diana Ferreira, no final de uma reunião com o Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias Transformadoras, Energia e...

Combater fenómenos racistas e xenófobos

Reagindo à vandalização do monumento ao padre António Vieira, em Lisboa, o PCP condena o «acto em si, assim como a sua utilização para exacerbar sentimentos e conflitos que só servem objectivos reaccionários». «Importa não permitir que este acto sirva para animar e inculcar na sociedade portuguesa um clima de...

Garantir o direito a habitar Lisboa

Reagindo ao despejo de «um conjunto de pessoas que vivia num prédio abandonado na freguesia de Arroios», o PCP acusou a Câmara Municipal de Lisboa (CML) de «incapacidade de resposta a graves problemas sociais da cidade», e o vereador do BE, «com responsabilidades directas nesta área», de se ter colocado «à margem». Em...

Do frenesim ao silêncio

Depois do animado frenesim mediático em torno do último comício do PCP em Lisboa, chegou o dia e as várias teses que visaram lançar o medo e inculcar a ideia de uma pretensa irresponsabilidade caíram por terra. Naturalmente, comprovou-se que o surto epidémico não impede a iniciativa política, antes exige o seu reforço....