Alhos, bugalhos e silêncios
Na última quinta-feira, 28, o PCP realizou várias iniciativas de divulgação do Plano de Emergência para o Serviço Nacional de Saúde, apresentado no dia 15 de Maio. Dele constam um conjunto de medidas, como o reforço de profissionais no SNS, a valorização dos seus salários e condições de trabalho e a dotação dos meios necessários para responder não apenas ao surto epidémico mas também às necessidades de cuidados de saúde dos portugueses.
Entre outras, realizou-se uma sessão pública com a participação do Secretário-geral, em Lisboa, que na sua intervenção elencou propostas concretas como o reforço orçamental imediato de 25% para o SNS em 2020 ou o aumento de 800 camas de agudos. Apesar da tremenda actualidade do tema, não foi sobre isso que ouvimos o Secretário-geral falar na comunicação social, com raríssimas excepções. A partir de uma pergunta feita durante a manhã no final das habituais sessões de avaliação da situação epidémica no Infarmed, alguém fez (mais) uma pergunta sobre a edição deste ano da Festa do Avante!. A partir disso, algumas estações de televisão e jornais fizeram de conta que o PCP tinha tirado o dia para falar sobre isso, ignoraram a iniciativa sobre o Plano de Emergência e investiram mais uns minutos na campanha contra a Festa.
Este é um exemplo de um truque velho, que já aqui denunciámos várias vezes. O PCP realiza uma iniciativa sobre uma qualquer temática; à margem, alguém faz uma pergunta sobre qualquer outro tema; logo se transforma a iniciativa sobre alhos numa declaração sobre bugalhos. Um pouco como sucedeu na segunda-feira, Dia Mundial da Criança, em que o que fez notícia (e foram muitos os jornais em que nem isso) foi uma resposta sobre o novo conselheiro do primeiro-ministro.
Já aquando da apresentação do Plano de Emergência, no dia 15, as consequências mediáticas foram idênticas. Por aqueles dias também muito se especulava sobre a Festa do Avante!. As propostas para a saúde apresentadas pelo PCP, com uma declaração publicada nos seus meios e disponibilizada à comunicação social, resumiram-se, em jornais, a uma notícia no Jornal de Notícias, em televisão, a um minuto na SIC Notícias, nas rádios a nada.
Também a declaração de dia 30, sobre a necessidade de defender a Escola Pública como garantia de que nenhum estudante fica para trás, foi ignorada, à excepção de uma «caixinha» com uma frase no Correio da Manhã e uns segundos na RTP3. Nesse dia, à falta da tal pergunta para desviar o assunto, resolveu-se com o silenciamento.
Nas últimas semanas, também a Blitz (a histórica revista de música, transformada pela Impresa num apêndice digital do Expresso) se juntou a esta duplicidade. Depois de ter ignorado por absoluto a edição de 2019 da Festa do Avante!, a especulação sobre a edição deste ano já rendeu mais de uma dezena de artigos. Seria de saudar a redescoberta de que a Festa do Avante! é incontornável no panorama cultural português por parte da Blitz, não fosse adivinharmos segundas intenções nesta súbita atenção.