Romper muros e grades
O PCP foi o principal alvo da repressão fascista. Contra ele, a polícia política (chamando-se PVDE, PIDE ou DGS) mobilizou poderosos meios e não raras vezes desferiu profundos golpes na sua organização. Muitos dirigentes e militantes comunistas passaram largos anos na prisão, sofrendo violentas torturas e pesadas privações. Outros foram mesmo assassinados. Mas nunca o fascismo conseguiu derrotar o PCP que, com profundas raízes nos trabalhadores e no povo, sempre encontrou quem tomasse o lugar dos que caíam.
Mesmo no interior das prisões – fosse em Angra do Heroísmo ou no Tarrafal, em Caxias, Peniche ou Aljube – os comunistas resistiam e mantinham as suas organizações em funcionamento. A luta não parava, mesmo entre os muros de uma qualquer fortaleza.
A reconquista da liberdade era um objectivo sempre presente entre os comunistas presos, pois era lá fora que se travava o combate decisivo contra o fascismo.
Com engenho e determinação, foi possível por diversas vezes romper os muros e grades dos cárceres e devolver à luta os militantes comunistas. Fugas heróicas como a de Peniche, em Janeiro de 1960, ou a de Caxias, no final do ano seguinte, entre muitas outras, ficam marcadas na história da resistência antifascista.
O fascismo matou
«De todas as sementes deitadas à terra, é o sangue derramado pelos mártires que faz levantar as mais copiosas searas.» Assim legendou José Dias Coelho umas das suas famosas gravuras, pouco antes de ele próprio tombar varado pelas balas assassinas da PIDE. Durante os 48 anos de fascismo, muitos foram os resistentes assassinados: a maioria era comunista, mas a repressão também roubou a vida a anarco-sindicalistas, republicanos e outros democratas.
Alguns morreram na tortura, em brutais interrogatórios, ao passo que outros foram cobardemente assassinados a tiro. Houve ainda os que não resistiram aos maus tratos infligidos na prisão – tenham morrido lá dentro ou depois de libertados. Todos são mártires da luta pela liberdade e pela democracia em Portugal.
Militão Ribeiro, Bento Gonçalves, Alfredo Diniz, Catarina Eufémia, Alfredo Caldeira, José Moreira, Ferreira Soares, Germano Vidigal, Manuel Vieira Tomé, Alfredo Lima, Cândido Martins, José Adelino dos Santos, Raul Alves, Agostinho Fineza, Carlos Pato, Soeiro Pereira Gomes, José Gregório, Manuel Rodrigues da Silva ou o já referido José Dias Coelho são apenas alguns dos comunistas que o fascismo assassinou. Outros, como Mário Castelhano ou Humberto Delgado, tombaram também às mãos dos esbirros do fascismo. Mas a luta à qual dedicaram as suas vidas não foi em vão: Abril teve também o seu contributo.
Unidade!
O PCP foi o grande impulsionador e defensor da unidade antifascista. A partir da reorganização de 1940-41, o Partido empenhou-se na criação de uma organização unitária em condições de encabeçar a luta política do povo português contra a ditadura. No III Congresso do Partido, em Novembro de 1943, Álvaro Cunhal afirma estar-se próximo de atingir esse objectivo – em Janeiro do ano seguinte surgia o Conselho Nacional de Unidade Antifascista (MUNAF), onde colaboram comunistas, socialistas, republicanos, católicos, monárquicos, entre outros.
Com o fim da II Guerra Mundial e a derrota do nazifascismo, é criado o Movimento de Unidade Democrática (MUD) – com existência legal por alguns anos, ao contrário do MUNAF, que suporta clandestinamente o novo movimento. O MUD Juvenil, que chegou a congregar 20 mil jovens (com os comunistas a assumir um papel de vanguarda), existiu entre 1946 e 1957, unindo e mobilizando a juventude portuguesa pelos seus interesses. Aproveitando a «legalidade» que o fascismo foi obrigado a conceder nos primeiros anos do pós-guerra, MUD e MUD Juvenil promoveram grandes acções, algumas delas com repercussão nacional.
As campanhas para as várias «eleições» que o fascismo foi forçado a realizar foram aproveitadas pelas forças democráticas para mobilizar o povo português contra a ditadura e para apresentar as suas principais reivindicações. As campanhas presidenciais de Norton de Matos, em 1949, Ruy Luís Gomes, em 1951 e, sobretudo, a de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, em 1958, foram importantes campanhas políticas de desmascaramento do fascismo e mobilização popular. A criação da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), a partir do Congresso Republicano de Aveiro, e a sua intervenção nas «eleições» de 1969 deu também azo a importantes movimentações unitárias.