Afirmação de uma vontade inquebrantável
O Secretário-geral do PCP inaugurou, no dia 30, na Torre do Tombo, uma mostra documental de imprensa prisional comunista, que está patente até 31 de Maio.
Terão sido editados mais de 200 números de jornais prisionais
Da exposição – intitulada Cada fio de vontade são dois braços/ e cada braço uma alavanca, retirado da canção revolucionária Hino de Caxias – constam 65 números de 21 títulos de jornais de presos políticos comunistas, manuscritos nas diversas prisões fascistas entre 1934 e 1945. Como salientou, na inauguração, Silvestre Lacerda, director dos arquivos nacionais, trata-se de um acervo «notável» que se encontra à disposição do grande público graças à colaboração entre a Torre do Tombo e o PCP, a cujo arquivo pertencem os materiais expostos. Entre os jornais patentes (feitos nas diversas prisões fascistas, como Aljube, Monsanto, Penitenciária de Lisboa, Peniche, Angra ou Tarrafal) contam-se O Iniciador; Inter-Caserna; Frente Vermelha, O Condenado Vermelho; Carril Vermelho; Potémkin; Pável; O Fogo; Nova Geração; ou Reduto Teórico. Mas, como testemunharia em seguida Jerónimo de Sousa, estes títulos constituem, seguramente, «apenas uma parte de todos os jornais que terão sido feitos nesses anos e que não foram recuperados até hoje». A avaliar pelo número das séries e pela numeração dos exemplares existentes, prosseguiu, «calcula-se que deverão ter sido editados cerca de 200 números». Trata-se de um «feito verdadeiramente espantoso se se atender às condições em que eram produzidos e aos complexos problemas que os seus promotores tiveram que resolver para trazer à luz do dia os jornais, os fazer circular e os defender os carcereiros». Conhece-se, porém, alguns títulos mais, como é o caso do jornal Thalmann, dedicado ao secretário-geral do Partido Comunista Alemão assassinado pelos nazis, e do qual existe apenas uma cópia. Curiosamente, é também o único do qual se conhece o autor: Alfredo Caldeira, dirigente do PCP na década de 30, e também ele assassinado num campo de concentração – o Tarrafal. Documentos únicos Chamando a atenção para o «prestígio e espanto causado pelos jornais feitos pelos comunistas portugueses», que ultrapassou fronteiras, Jerónimo de Sousa lembrou que, em Setembro de 1935, o semanário francês Le Monde, dirigido então por Henri Barbusse, considerou-os «documentos únicos na história do movimento revolucionário». De facto, «não conhecemos nenhum outro caso de publicações produzidas no interior de cadeias fascistas de outros países» que tenham atingido tal dimensão – pelo número de jornais editados, pela sua existência no tempo, por ser uma prática em quase todas (senão mesmo em todas) as prisões fascistas existentes à época, mas também pelos conteúdos e pela sua qualidade gráfica». Trata-se, é bom não esquecer, de jornais clandestinos feitos nas cadeias, com tudo o que isso implicava: os presos eram sujeitos a uma vigilância rigorosa, e eram frequentes as buscas às salas e às celas; papel, matérias de escrita e mesmo as próprias notícias era algo a que os presos não tinham acesso durante largos períodos. Por tudo isto, realçou Jerónimo de Sousa, «não é difícil imaginar quanto engenho e audácia foram necessários para a sua feitura e também os riscos corridos por quem os fazia ou tão só os lia». Como salientou o Secretário-geral do PCP, estes jornais tinham «objectivos muito precisos, desempenhando como que uma tripla função: a de informação e formação cultural; a de organizadores de colectivos prisionais e a de formação política e ideológica». Sendo trabalhadora a imensa maioria dos presos políticos, e em particular os comunistas, «foi nas cadeias que muitos deles tiveram a possibilidade de elevar os seus conhecimentos culturais, alguns mesmo a possibilidade de aprender a ler». Escrito por presos e para presos, afirmou Jerónimo de Sousa, compreende-se o espaço que ocupa o incentivo a uma postura firme face ao inimigo. Inserindo notícias do exterior, de diferentes casernas de uma mesma cadeia, e de outras cadeias, «estes jornais ajudavam a quebrar o isolamento em que se encontravam os presos, desenvolviam o espírito de solidariedade entre si». A sua leitura impulsionava a luta dos presos por melhores condições prisionais. Património da resistência antifascista A terminar, Jerónimo de Sousa destacou o facto de estes jornais terem sido produzidos «por comunistas, para comunistas», bem como o seu forte vinco de textos teóricos e de natureza ideológica. Isto é, aliás, natural, acrescentou, afirmando que os comunistas eram o «núcleo mais numeroso dos presos políticos». Pelo Boletim Inter-Prisional da organização comunista de Peniche, um dos títulos expostos, fica-se a saber que, nessa prisão, em Janeiro de 1936, dos 168 presos, 102 eram comunistas, 15 anarquistas, 20 republicanos e os restantes de filiação variada, entre os quais três fascistas dissidentes. Nas outras prisões esta relação não seria muito diferente, tornando-se, com o tempo, ainda mais acentuada, «com a desagregação e capitulação de outras forças políticas e sociais». O PCP foi a «única força que, instaurado o fascismo, não se auto-dissolveu e conseguiu erguer uma organização clandestina» – pelas cadeias passaram muitos milhares dos seus militantes, incluindo quase todos, senão mesmo todos, os seus principais dirigentes». Embora escritos por comunistas e destinados a comunistas, estes jornais «devem ser considerados como parte integrante do património da resistência do nosso povo contra o fascismo, da luta pela liberdade e pela democracia», concluiu o Secretário-geral do PCP. Esta exposição, acrescentou ainda, constitui um «acontecimento cultural relevante e uma inegável contribuição para um melhor e maior conhecimento dessa negra realidade que foi a ditadura fascista em Portugal» e a heróica resistência ao fascismo, «sem a qual não teríamos conquistado a liberdade em 25 de Abril de 1974».