«O sentido que se dá à vida»
Jerónimo de Sousa encerrou, sábado, em Coimbra, uma iniciativa que evocou a vida e a obra de Alberto Vilaça, militante comunista, lutador antifascista e intelectual de coragem e têmpera.
«Bastava-lhe a certeza de que os seus ideias eram justos»
O auditório da Casa Municipal da Cultura foi pequeno para acolher todos os que quiseram assistir à sessão de lançamento do livro Alberto Vilaça - 80 anos – O sentido que se dá à vida, obra colectiva publicada pela Calendário com o apoio da Associação Promotora do Neo-Realismo e da Câmara Municipal de Coimbra, cidade à qual aquele destacado militante comunista fica indelevelmente associado.
Mas a dimensão multifacetada de Alberto Vilaça, a sua condição de comunista de toda a vida e de toda a luta, como referiu o secretário-geral do PCP no encerramento da sessão (ver caixa), fazem desta obra, igualmente, um roteiro sobre os acontecimentos mais marcantes da história contemporânea do País. A eles, lembrou Adelino Castro, responsável da editora, Alberto Vilaça esteve sempre ligado.
Numa breve introdução, Castro sublinhou também que a ideia de fazer um livro sobre a vida e obra de Alberto Vilaça nasceu há um ano. Fruto da colaboração estreita com a viúva, Natércia Vilaça, as filhas - sobretudo Raquel Vilaça, que pesquisou o acervo de documentos pessoais e seleccionou 12 textos inéditos -, os professores António Pedro Pita e Luís Reis Torgal – que analisam a obra de investigação e organizam os testemunhos incluídos no volume, respectivamente -, e do amigo e camarada Fernando Miguel Bernardes, foi possível concluir a tarefa.
Uma existência inspiradora
Ao longo das muitas décadas de vida partilhada, Alberto Vilaça foi sempre um companheiro, um amigo e um camarada, disse Natércia Vilaça que, dirigindo-se aos presentes, sublinhou a sua dimensão singular e relatou alguns episódios que o ilustram: das prisões e da luta antifascista; da resistência à repressão e do ânimo e coragem que, mesmo preso, lhe transmitiu ajudando-a a suportar o terror fascista e a recobrar forças para continuar; da construção do Portugal de Abril e do reforço do Partido, da sua influência, intervenção e prestígio em Coimbra.
A infatigável luta de Alberto Vilaça contra a exploração do homem pelo seu semelhante, foi, igualmente, destacada por Fernando Miguel Bernardes, para quem, Alberto Vilaça foi sempre um homem feliz porque lhe bastava a certeza de que os seus ideias eram justos.
A iniciativa onde intervieram também António Pedro Pita, Luís Reis Torgal e a vereadora da Cultura da CM de Coimbra, Maria José Azevedo Santos, terminou com a leitura de poemas de Sophia de Mello Breyner, Joaquim Namorado, Ary dos Santos, Carlos Oliveira e Sidónio Muralha.
Jerónimo de Sousa na Evocação de Alberto Vilaça
Comunista de têmpera e coragem
Intervindo no encerramento da sessão, o secretário-geral do PCP começou por lembrar que «há homens que, pela vida que tiveram, pela luta que travaram, pelas opções que assumiram, pela obra que realizaram, não cabem numa intervenção. Alberto Vilaça é um desses homens», disse.
Ganho desde cedo para a luta antifascista, Alberto Vilaça foi preso pela primeira vez com 17 anos. Três anos depois ingressa nas fileiras do PCP e logo «desenvolve uma intensa actividade no movimento de unidade democrática antifascista». Desde então, acrescentou Jerónimo de Sousa, o aparelho repressivo fascista «passou a considerá-lo como um alvo preferencial prendendo-o por seis vezes por um período de quatro anos e meio».
No cárcere foi «sujeito à tortura do sono durante sete dias e sete noites, passando por Aljube, Caxias e Fortaleza de Peniche». Mas para aquele militante comunista «a prisão não significou um local de medo e de desistência, mas de resistência e luta. Lendo o processo da polícia é possível testemunhar a têmpera e a coragem do camarada Alberto Vilaça».
«Demonstrou com a sua conduta corajosa aquilo que Álvaro Cunhal em condições semelhantes considerou: “na prisão o comunista continua no activo, continua a servir a sua causa”. E era esta profunda convicção, a força do ideal comunista, que o levava, quando regressava à liberdade, a ingressar na acção e na luta», continuou o secretário-geral do PCP.
Incansável mobilizador e intelectual actuante
Desde o fim da II Guerra Mundial, Alberto Vilaça «participou activamente em todas as grandes batalhas políticas travadas em Portugal contra a ditadura», evidenciando «a ímpar característica de, na construção e na luta democrática e antifascista, ser capaz de harmonizar a afirmação da defesa das posições do Partido com a persistente procura de convergência com outras personalidades e sectores democráticos na luta por objectivos comuns», sublinhou ainda Jerónimo de Sousa.
Para além desta, outra dimensão harmoniosa ressaltava da acção do militante comunista conimbricense, disse o dirigente do PCP destacando «a sua ligação estreita a Coimbra, aos seus trabalhadores, ao seu povo, à sua realidade social, política e cultural. Não se cansava de divulgar e promover a cultura e o associativismo, colaborando activa e assiduamente na imprensa regional. Após Abril quando era preciso construir o poder local democrático, lá está o Alberto Vilaça».
Desta multifacetada personalidade, sobressai, também, a «sua dimensão intelectual, como homem de letras e historiador», aduziu.
Exemplo que fica
Nenhuma destas facetas dos seus quase 60 anos de militância pode ser desligada do seu carácter e dimensão humanista. Tendo sofrido a violência repressiva do fascismo, nunca fez da vingança parte do seu ideal, reclamando somente justiça. «Num tempo fustigado pelas injustiças e desigualdades sociais, em que se procura reescrever a história, banalizar e branquear o fascismo, num tempo em que o poder dominante procura fazer prevalecer conceitos e valores do egoísmo, do individualismo, do conformismo, e da desistência, falar de Alberto Vilaça, da sua vida, da sua luta, das suas convicções e do seu ideal comunista tem grande actualidade. Ele sabia que, morrendo, o seu Partido não morreria com ele. Nem ele queria que morresse».
«Quando se participa num processo de transformação da sociedade sabemos, e Alberto Vilaça sabia, que não basta a nossa vida e a nossa luta toda, que outros hão-de vir. Foi uma vida que valeu a pena», concluiu Jerónimo de Sousa.
Mas a dimensão multifacetada de Alberto Vilaça, a sua condição de comunista de toda a vida e de toda a luta, como referiu o secretário-geral do PCP no encerramento da sessão (ver caixa), fazem desta obra, igualmente, um roteiro sobre os acontecimentos mais marcantes da história contemporânea do País. A eles, lembrou Adelino Castro, responsável da editora, Alberto Vilaça esteve sempre ligado.
Numa breve introdução, Castro sublinhou também que a ideia de fazer um livro sobre a vida e obra de Alberto Vilaça nasceu há um ano. Fruto da colaboração estreita com a viúva, Natércia Vilaça, as filhas - sobretudo Raquel Vilaça, que pesquisou o acervo de documentos pessoais e seleccionou 12 textos inéditos -, os professores António Pedro Pita e Luís Reis Torgal – que analisam a obra de investigação e organizam os testemunhos incluídos no volume, respectivamente -, e do amigo e camarada Fernando Miguel Bernardes, foi possível concluir a tarefa.
Uma existência inspiradora
Ao longo das muitas décadas de vida partilhada, Alberto Vilaça foi sempre um companheiro, um amigo e um camarada, disse Natércia Vilaça que, dirigindo-se aos presentes, sublinhou a sua dimensão singular e relatou alguns episódios que o ilustram: das prisões e da luta antifascista; da resistência à repressão e do ânimo e coragem que, mesmo preso, lhe transmitiu ajudando-a a suportar o terror fascista e a recobrar forças para continuar; da construção do Portugal de Abril e do reforço do Partido, da sua influência, intervenção e prestígio em Coimbra.
A infatigável luta de Alberto Vilaça contra a exploração do homem pelo seu semelhante, foi, igualmente, destacada por Fernando Miguel Bernardes, para quem, Alberto Vilaça foi sempre um homem feliz porque lhe bastava a certeza de que os seus ideias eram justos.
A iniciativa onde intervieram também António Pedro Pita, Luís Reis Torgal e a vereadora da Cultura da CM de Coimbra, Maria José Azevedo Santos, terminou com a leitura de poemas de Sophia de Mello Breyner, Joaquim Namorado, Ary dos Santos, Carlos Oliveira e Sidónio Muralha.
Jerónimo de Sousa na Evocação de Alberto Vilaça
Comunista de têmpera e coragem
Intervindo no encerramento da sessão, o secretário-geral do PCP começou por lembrar que «há homens que, pela vida que tiveram, pela luta que travaram, pelas opções que assumiram, pela obra que realizaram, não cabem numa intervenção. Alberto Vilaça é um desses homens», disse.
Ganho desde cedo para a luta antifascista, Alberto Vilaça foi preso pela primeira vez com 17 anos. Três anos depois ingressa nas fileiras do PCP e logo «desenvolve uma intensa actividade no movimento de unidade democrática antifascista». Desde então, acrescentou Jerónimo de Sousa, o aparelho repressivo fascista «passou a considerá-lo como um alvo preferencial prendendo-o por seis vezes por um período de quatro anos e meio».
No cárcere foi «sujeito à tortura do sono durante sete dias e sete noites, passando por Aljube, Caxias e Fortaleza de Peniche». Mas para aquele militante comunista «a prisão não significou um local de medo e de desistência, mas de resistência e luta. Lendo o processo da polícia é possível testemunhar a têmpera e a coragem do camarada Alberto Vilaça».
«Demonstrou com a sua conduta corajosa aquilo que Álvaro Cunhal em condições semelhantes considerou: “na prisão o comunista continua no activo, continua a servir a sua causa”. E era esta profunda convicção, a força do ideal comunista, que o levava, quando regressava à liberdade, a ingressar na acção e na luta», continuou o secretário-geral do PCP.
Incansável mobilizador e intelectual actuante
Desde o fim da II Guerra Mundial, Alberto Vilaça «participou activamente em todas as grandes batalhas políticas travadas em Portugal contra a ditadura», evidenciando «a ímpar característica de, na construção e na luta democrática e antifascista, ser capaz de harmonizar a afirmação da defesa das posições do Partido com a persistente procura de convergência com outras personalidades e sectores democráticos na luta por objectivos comuns», sublinhou ainda Jerónimo de Sousa.
Para além desta, outra dimensão harmoniosa ressaltava da acção do militante comunista conimbricense, disse o dirigente do PCP destacando «a sua ligação estreita a Coimbra, aos seus trabalhadores, ao seu povo, à sua realidade social, política e cultural. Não se cansava de divulgar e promover a cultura e o associativismo, colaborando activa e assiduamente na imprensa regional. Após Abril quando era preciso construir o poder local democrático, lá está o Alberto Vilaça».
Desta multifacetada personalidade, sobressai, também, a «sua dimensão intelectual, como homem de letras e historiador», aduziu.
Exemplo que fica
Nenhuma destas facetas dos seus quase 60 anos de militância pode ser desligada do seu carácter e dimensão humanista. Tendo sofrido a violência repressiva do fascismo, nunca fez da vingança parte do seu ideal, reclamando somente justiça. «Num tempo fustigado pelas injustiças e desigualdades sociais, em que se procura reescrever a história, banalizar e branquear o fascismo, num tempo em que o poder dominante procura fazer prevalecer conceitos e valores do egoísmo, do individualismo, do conformismo, e da desistência, falar de Alberto Vilaça, da sua vida, da sua luta, das suas convicções e do seu ideal comunista tem grande actualidade. Ele sabia que, morrendo, o seu Partido não morreria com ele. Nem ele queria que morresse».
«Quando se participa num processo de transformação da sociedade sabemos, e Alberto Vilaça sabia, que não basta a nossa vida e a nossa luta toda, que outros hão-de vir. Foi uma vida que valeu a pena», concluiu Jerónimo de Sousa.