Via para maior exploração dos trabalhadores

Precariedade é chaga social

A precariedade do emprego é uma das principais componentes da ofensiva neoliberal contra os direitos individuais e colectivos dos trabalhadores, com o objectivo de intensificar a sua exploração, limitar a capacidade de intervenção sindical e fragilizar a acção colectiva.

Não estão em causa trabalhos realmente temporários, mas a utilização abusiva de contratos precários para actividades que têm carácter permanente

O que está em causa não são os trabalhos de natureza objectivamente temporária (como a prestação temporária de serviços, ou a substituição de trabalhadores ausentes por doença ou em licença de maternidade ou paternidade), mas sim a utilização abusiva de contratos precários para actividades e funções que têm carácter permanente, seja nas empresas, seja nos serviços públicos.
As consequências da precariedade - que atinge, nas suas diversas formas, mais de milhão e meio portugueses e portuguesas - são gravíssimas para os trabalhadores e para a própria economia. A insegurança e a instabilidade que provoca põem em causa o exercício de direitos laborais, geram medo e levam à aceitação de condições de trabalho deploráveis, o que afecta gravemente a vida pessoal e familiar dos atingidos. A precariedade enfraquece a organização e fragiliza a contratação colectiva, contraria a qualificação dos trabalhadores, aumenta o risco de acidentes de trabalho, prejudica a protecção social e agrava o risco de pobreza.
O recurso abusivo ao emprego com vínculos precários tem aumentado rapidamente nos últimos anos, sendo hoje um dos principais problemas sociais do País.
Os contratos a prazo são a forma predominantemente assumida pela precariedade, embora o falso trabalho independente e o trabalho temporário (a maioria do qual a prazo) tenham também um grande peso.
Os contratos não permanentes abrangiam 12 por cento dos trabalhadores por conta de outrem, em 1992, e quase o dobro (23 por cento), em 2007. Quanto ao trabalho temporário, estima-se que haja um crescimento de 10 a 12 por cento ao ano.
De acordo com o INE, no 3.º trimestre de 2007, havia quase 900 mil trabalhadores com um contrato não permanente, o colocou Portugal num desonroso terceiro lugar, entre os 27 estados da União Europeia.
Dada a natureza, contrária à lei, do falso trabalho independente, não há dados oficiais sobre a sua real dimensão. Afecta seguramente umas centenas de milhares de pessoas.
O trabalho temporário, segundo algumas estimativas, deverá atingir cerca de 100 mil trabalhadores, metade dos quais em call centers.
O flagelo da precariedade atinge principalmente os jovens. Entre os trabalhadores com idades até 25 anos, a percentagem de contratos não permanentes ultrapassa os 50 por cento. As mulheres estão também mais sujeitas a este tipo de contratos, particularmente se forem jovens (55 por cento, no caso das trabalhadoras com menos de 25 anos). A precariedade do emprego tem aumentado em todas estas camadas, nomeadamente entre os jovens dos 25 aos 34 anos (onde já tem um peso de 36 por cento) e entre as mulheres.
Nos mais afectados pela precariedade de emprego, destacam-se ainda os trabalhadores menos escolarizados (63 por cento dos contratados têm, no máximo, o 9.º ano) e os menos qualificados (29 por cento dos casos referem-se a trabalhadores não qualificados). Mas há sinais de que os vínculos precários (ou mesmo a ausência de qualquer vínculo) estão a alastrar entre os trabalhadores mais qualificados. Entre 1998 e 2006, os contratos não permanentes aumentaram, mais do que nas outras camadas, entre os trabalhadores mais escolarizados e mais qualificados.
Realidade imposta praticamente em todos os sectores, é entre os trabalhadores da construção, da hotelaria, do comércio e serviços que o trabalho precário assume maior expressão, embora esteja a aumentar nas actividades industriais. Estima-se que em toda a Administração Pública já sejam mais de 150 mil os trabalhadores precários, mas o número tende a aumentar, dado o ataque ao vínculo público e as tentativas de implementação do contrato individual de trabalho.

Estimulada
pelos governos


Em vez de pugnarem pelo cumprimento da lei e para fosse contido o recurso abusivo aos vínculos precários, os sucessivos governos e as suas maiorias de suporte no Parlamento permitiram que as normas legais e contratuais em vigor fossem impunemente desrespeitadas. Mais grave que isso, deram o exemplo, levando a precariedade para a Administração Pública, e produziram instrumentos legais para favorecer o alastramento do flagelo.
Foi o caso, mais recente, do Código de Trabalho (em vigor desde Dezembro de 2003) e respectiva lei de regulamentação (Julho de 2004), nos quais a maioria PSD/CDS-PP:
- alargou o prazo máximo de contratação a termo, de 3 para 6 anos.
- manteve uma discriminação aberrante e escandalosa, ao admitir a contratação a prazo de trabalhadores à procura do primeiro emprego e de desempregados de longa duração, independentemente da natureza (temporária ou permanente) do posto de trabalho.
A legislação de apoio à criação de emprego até prevê a redução de contribuições para a Segurança Social, no caso da contratação a termo de trabalhadores nessas situações.


Lutar com resultados

A grave dimensão do trabalho precário levou a CGTP-IN a considerar 2007 como «ano de combate à precariedade de emprego». Foi definido um plano de acção, abarcando todo o movimento sindical unitário, com base na realidade concreta de cada sector, empresa ou local de trabalho. Foram identificadas empresas prioritárias, onde era conhecido o abuso da precariedade do emprego. Mesmo fragilizados pelo vínculo laboral precário, milhares de trabalhadores decidiram ir à luta, apoiados pelos sindicatos de classe. A acção desenvolvida deu resultados, com diversos casos de transformação de contratos a prazo em contratos por tempo indeterminado.
O combate à precariedade foi um ponto central de todas as grandes acções de massas dos últimos meses, com destaque para a greve geral de 30 de Maio de 2007 e a grande manifestação nacional de 18 de Outubro. Nota-se hoje uma maior sensibilização da opinião pública em torno deste objectivo.
Perante a denúncia da situação, o Governo viu-se na necessidade de tomar algumas medidas, como a abertura de um concurso para admitir mais 100 inspectores do trabalho. A pressão para a fiscalização das fornecedoras de trabalho temporário resultou na suspensão de 255 empresas, por não terem alvará ou não cumprirem a legislação. Mas não mudou a linha política dominante.
O trabalho sindical e a luta vão prosseguir e intensificar-se. Com iniciativas em todos os distritos, está a decorrer, desde 16 de Janeiro e até ao início do 11.º Congresso da CGTP-IN, a 15 de Fevereiro, a «Estafeta contra a Precariedade». O objectivo central desta iniciativa da Interjovem e da CGTP-IN é o combate à precariedade no emprego, por via da denúncia de situações concretas, e a divulgação das reivindicações da CGTP-IN sobre esta matéria.
Contra o abuso dos contratos a prazo para necessidades de trabalho permanentes, exige-se que a um posto de trabalho permanente corresponda um contrato de trabalho efectivo. Este é um combate de todos os trabalhadores e, para o seu sucesso, é essencial também a promoção e efectivação da unidade e solidariedade entre trabalhadores que têm vínculos efectivos e trabalhadores que têm vínculos precários.


Mais artigos de: Em Foco

Números que exigem mudança

Há quem viva num Portugal cor-de-rosa. Mas outra realidade emerge já nos números oficiais, a dar razão aos que, como o PCP, exigem a alteração da política.

Despedimento<br>mais fácil, mais rápido e mais barato

O Governo e a sua Comissão do Livro Branco querem facilitar os despedimentos individuais sem justa causa e até pretendem reduzir este conceito para aquém do limite constitucional, aceitando novos motivos como «justos».

Caducidade geral<br>dos contratos colectivos

O Governo e a Comissão querem impor novos mecanismos de caducidade da contratação colectiva, para destruir os direitos que esta consagra, fruto da luta de gerações de trabalhadores.Contrariando a prática quase generalizada de boicote patronal, sobretudo depois de vigorar o Código do Trabalho, a Comissão «pressupõe» que...

Restringir a organização e enfraquecer a acção

O Governo PS, como revela a sua Comissão do Livro Branco, quer atacar a liberdade sindical e enfraquecer a capacidade reivindicativa dos sindicatos, para debilitar a força dos trabalhadores.Ao analisar as propostas nesta matéria, deve-se ter ainda presentes:- o ataque à contratação colectiva, por via da caducidade,- as...

Alargar os horários<br>e cortar nos salários

A flexibilidade do tempo de trabalho foi rebaptizada de «adaptabilidade». Com esta fórmula, a Comissão do Livro Branco e o Governo que a nomeou querem dar mais poder e mais lucros às entidades patronais, em prejuízo da saúde e da vida pessoal e familiar dos trabalhadores. A lei deveria limitar-se a princípios gerais, mas...

Se a lei estorva...

O Governo PS e a sua Comissão do Livro Branco mantêm a possibilidade, criada pelo PSD/CDS-PP, de um contrato colectivo conter normas laborais que sejam, para os trabalhadores, mais desfavoráveis do que as inscritas na lei.

Dizia o ministro...

«Toda a proposta de lei que hoje votamos aponta no sentido de centrar as leis do trabalho na relação individual, ela própria concebida como uma relação de igualdade entre as partes, em detrimento das relações colectivas, o que colide frontalmente com a matriz em que assenta a nossa Constituição laboral.As normas...

A Comissão e o Livro Branco

No final de 2006, o Governo de José Sócrates e Vieira da Silva criou a Comissão do Livro Branco das Relações Laborais, para preparar uma revisão do Código do Trabalho (e não apenas a alteração dos aspectos gravosos deste). Esta revisão mais ampla já surge na linha antes seguida pelo Governo do PSD/CDS-PP e o argumento é...

Uma prova com quatro anos

O Código do Trabalho, em vigor desde Dezembro de 2003, foi apresentado no quadro de uma campanha para fazer passar a ideia de que a legislação laboral era muito rígida e essa rigidez seria responsável pelo atraso económico do País. Os trabalhadores seriam assim os culpados da baixa produtividade e da pouca...

Desenvolver a luta

Perante a difícil situação dos trabalhadores e do povo e face a crescentes injustiças sociais, que o Governo PS e os grupos económicos e financeiros pretendem agravar, é necessário intensificar, aprofundar e generalizar a luta.

Iniciativas legislativas do PCP nos últimos dois anos, em matérias laborais

Projectos de lei - Revogação do Código do Trabalho aprovado pela maioria PSD/CDS-PP e aprovação de uma nova legislação laboral, consagrando direitos e garantias dos trabalhadores- Suspensão das disposições do Código do Trabalho (e sua Regulamentação) relativas à sobrevigência das convenções colectivas de trabalho -...