Desastre natural ou motivação económica?
O que se passou este ano de tão diferente de 2003 que levou a que ardesse uma parte tão importante da serra da Arrábida? O clima está mais ou menos idêntico ao do ano passado, quente, seco e ventoso. Assim, não será apenas este o motivo que levou a um desastre desta dimensão. Em 2003 registaram-se violentíssimos incêndios por todo o país e a Cordilheira da Arrábida escapou incólume. Simples coincidência?
Será coincidência ter vindo a lume alguns dias antes deste acontecimento que se o plano de ordenamento não for aprovado até Outubro toda esta área perderá o estatuto de local protegido? E logo esta zona que foi a primeira a ser considerada reserva natural em 1971, tendo sido posteriormente «transformada» em Parque Natural porque houve reconhecimento da insuficiente protecção conferida pelas medidas preventivas decretadas para a zona.
Vejamos onde teve início o incêndio. Arneiros. Supostamente numa herdade. Acidente? Descuido? Desde há anos que esta zona (e mais adiante o Vale da Rasca) sofre imensas pressões com vista à urbanização uma vez que as terras circundantes, Azeitão, Quinta do Anjo, Palmela, Setúbal já se encontram saturadas. E, por incrível que pareça não é que o sítio até fica relativamente perto das praias da Figueirinha e de Galápos?
É caso para perguntar onde está a prevenção. Onde estão os soldados que iriam patrulhar as zonas mais criticas no que diz respeito a fogos?
É também caso para perguntar onde estão os meios aéreos. Numa zona montanhosa como esta é «normal» que não existam muitos acessos no terreno. Porque é que só no fim do dia se deslocou um pequeno helicóptero para o local? Será que já pensaram porque é que o combate aos fogos com meios aéreos está entregue a privados enquanto que kits para adaptar a aviões da Força Aérea se encontram a apodrecer em hangars?
Tudo isto são especulações, é bem certo, mas não nos podemos esquecer de todo o ambiente envolvente desta serra desde tempos tão distantes. Desde a Idade da Pedra (segundo alguns autores) que o elemento humano na paisagem se começou a sentir. Sempre houve aqueles que se ligaram à serra como uma protectora que lhes permitia sobreviver e outros que tentaram sempre extrair dela o mais que podiam. O facto é que esta Cordilheira é uma zona única em termos de orografia, fauna e flora e também por isso ainda mais pessoas se quiseram aproveitar dessa situação. Primeiro com a caça, depois o campismo selvagem, a construção de «barracas» de férias (e não só) em pleno Portinho da Arrábida, a construção nas encostas e as explorações efectuadas pelas pedreiras que esventram a serra.
Meus senhores, não seria já mais do que altura de pormos fim à hipocrisia reinante no nosso país onde, e como sempre, depois da casa roubada, aprecem alguns senhores nos telejornais, com a lágrima no olho, lamentando mais uma perda quando poderiam ser feitas tantas coisas, por vezes até irrisórias em termos de custos, que ajudariam a salvar o património único que temos em Portugal e, por conseguinte, os nossos próprios Pulmões.
Seria tão ridículo, daqui a alguns anos, termos as nossas mentes iluminadas a negociar o ar que respiramos quando já não restar mais nada.
Espero que ainda exista alguém com bom senso para não continuar a permitir este tipo de vandalismo para a humanidade.
* Antropóloga
Será coincidência ter vindo a lume alguns dias antes deste acontecimento que se o plano de ordenamento não for aprovado até Outubro toda esta área perderá o estatuto de local protegido? E logo esta zona que foi a primeira a ser considerada reserva natural em 1971, tendo sido posteriormente «transformada» em Parque Natural porque houve reconhecimento da insuficiente protecção conferida pelas medidas preventivas decretadas para a zona.
Vejamos onde teve início o incêndio. Arneiros. Supostamente numa herdade. Acidente? Descuido? Desde há anos que esta zona (e mais adiante o Vale da Rasca) sofre imensas pressões com vista à urbanização uma vez que as terras circundantes, Azeitão, Quinta do Anjo, Palmela, Setúbal já se encontram saturadas. E, por incrível que pareça não é que o sítio até fica relativamente perto das praias da Figueirinha e de Galápos?
É caso para perguntar onde está a prevenção. Onde estão os soldados que iriam patrulhar as zonas mais criticas no que diz respeito a fogos?
É também caso para perguntar onde estão os meios aéreos. Numa zona montanhosa como esta é «normal» que não existam muitos acessos no terreno. Porque é que só no fim do dia se deslocou um pequeno helicóptero para o local? Será que já pensaram porque é que o combate aos fogos com meios aéreos está entregue a privados enquanto que kits para adaptar a aviões da Força Aérea se encontram a apodrecer em hangars?
Tudo isto são especulações, é bem certo, mas não nos podemos esquecer de todo o ambiente envolvente desta serra desde tempos tão distantes. Desde a Idade da Pedra (segundo alguns autores) que o elemento humano na paisagem se começou a sentir. Sempre houve aqueles que se ligaram à serra como uma protectora que lhes permitia sobreviver e outros que tentaram sempre extrair dela o mais que podiam. O facto é que esta Cordilheira é uma zona única em termos de orografia, fauna e flora e também por isso ainda mais pessoas se quiseram aproveitar dessa situação. Primeiro com a caça, depois o campismo selvagem, a construção de «barracas» de férias (e não só) em pleno Portinho da Arrábida, a construção nas encostas e as explorações efectuadas pelas pedreiras que esventram a serra.
Meus senhores, não seria já mais do que altura de pormos fim à hipocrisia reinante no nosso país onde, e como sempre, depois da casa roubada, aprecem alguns senhores nos telejornais, com a lágrima no olho, lamentando mais uma perda quando poderiam ser feitas tantas coisas, por vezes até irrisórias em termos de custos, que ajudariam a salvar o património único que temos em Portugal e, por conseguinte, os nossos próprios Pulmões.
Seria tão ridículo, daqui a alguns anos, termos as nossas mentes iluminadas a negociar o ar que respiramos quando já não restar mais nada.
Espero que ainda exista alguém com bom senso para não continuar a permitir este tipo de vandalismo para a humanidade.
* Antropóloga