Essa palavra... Liberdade
«Camarada, já podemos dizer que somos do Partido.»
A frase foi sussurrada numa rua de Lisboa, há 30 anos, numa tarde de Abril que de repente se iluminou.
Lembro-me - que linda é a memória das coisas boas! - do silêncio incrédulo que se seguiu, e quase vejo, hoje como então, as palavras tanto tempo desejadas a abrirem caminho até à sua plena apreensão pelo cérebro, o seu significado a expandir-se por cada partícula do meu ser, a ser analisado com a desconfiança de quem teme crer que o sonho se tenha tornado realidade, a ser enfim sofregamente assimilado e a causar o impacto de um dique que se rompe e tudo leva pela frente, de um vendaval abrindo portas e janelas desde sempre aferrolhadas, de um imenso jorro de luz a rasgar a escuridão, até que uma profunda alegria tomou conta de tudo e a existência teve o sabor de uma vida acabada de nascer.
«E porque é que estamos a falar tão baixo?» Já estávamos a rir e a dançar e ainda a clandestinidade das palavras nos tolhia os gestos, que o passado não se apaga a golpes de borracha.
Gritámos a uma só voz «Viva o PCP!» e subimos a rua abraçadas e a cantar. Ninguém se espantou. Era Abril e a Revolução estava na rua.
Espantosa palavra esta, Liberdade, que pode dizer tudo e não significar nada. Aprendemo-la nos livros e nas canções, escrevemo-la pela calada da noite nos muros e paredes altamente vigiados, repetimo-la em todos os discursos e em todas as línguas, morremos por ela e por ela vivemos, e mesmo assim permanece uma incógnita, uma utopia, que tanto se reforça como se esvanece, que quanto mais se dá por adquirida mais frágil se torna, que quanto menos se exerce mais se degrada.
Pela Liberdade nos unimos e nos separamos, pois se é verdade que todos afirmam defendê-la, o certo é que uns são mais livres do que outros e isso é já uma perversão da própria Liberdade.
Cabe pois perguntar que Liberdade é esta que temos 30 anos depois de a Revolução de Abril ter derrubado o fascismo e de, segundo todos os cânones em vigor na cultura ocidental, termos passado à condição de povo livre.
Abril deu-nos - porque a conquistámos - em primeiro lugar a liberdade de expressão. Ao fim de 48 anos de ditadura em que até pensar, melhor dizendo, sobretudo pensar, era subversivo, as palavras tanto tempo amordaçadas soltaram-se das grilhetas e ganharam o seu lugar no direito de reunião, de manifestação, de expressão por todos os meios. Não significa isto que todos possam dizer tudo, ou que lá onde o lápis azul foi destronado não tenham surgido outras formas mais subtis mas nem por isso menos eficazes de censura, ou que o acesso aos meios que veiculam as mensagens esteja de igual modo à disposição de todos. Significa, isso sim, que o direito foi consagrado na Constituição que importa defender dos que há três décadas encarniçadamente se empenham em esvaziar de conteúdo.
Com Abril ganhámos igualmente a liberdade de associação e com ela a formação dos partidos, o que permitiu o surgimento de novas formações políticas e - nunca é demais lembrá-lo - a legalização do único partido que desafiou o fascismo e durante 48 anos o combateu na clandestinidade, o Partido Comunista Português. Da multiplicidade partidária de então pouco resta hoje, em que vários não significa diferentes, e menos restará no futuro se as forças da reacção conseguirem impor o espartilho da uniformização que constitui a nova Lei dos Partidos. É a «liberdade» para ser igual que uns poucos talharam à medida do único que sempre teve a coragem de ser diferente.
Em Abril abriu-se igualmente a porta à liberdade de escolha, de que as eleições livres são parte integrante, embora isto de ser livre para escolher tenha muito, mas mesmo muito que se lhe diga, que só escolhe de facto livremente quem detém informação bastante para escapar à manipulação. No curto espaço de três décadas de aprendizagem democrática - um nada na História -, os índices de insucesso cedo começaram a crescer e a taxa de abandono aí está nos números gritantes da abstenção, sintoma de incontornável desencanto de um povo que no dia das primeiras eleições livres fez questão de dizer «presente!» em todas as mesas de voto do País.
E porque não há Liberdade sem direitos, muitas mais liberdades nos trouxe Abril ao reconhecer na Carta Magna portuguesa que a saúde, a habitação, o trabalho, a educação, a reforma, a paz são direitos de todos que a todos devem ser assegurados.
Neste percurso cheio de hesitações, desvios, erros, avanços e recuos, naturais uns e deliberados tantos outros, já pouco se reconhece do rumo traçado em Abril. Sem poder económico não há verdadeira liberdade, como todos descobrimos mal ensaiamos os primeiros passos por nossa própria conta e risco, e o poder económico está de novo no poder, como há trinta anos, embora travestido de democrata, assumindo-se como gestor das nossas liberdades e apostado em convencer-nos de que podemos cotá-las na bolsa como investimento seguro, a troco de aceitarmos ficar cegos, surdos e mudos perante a sua política de restauração capitalista.
Há quem chame a isto liberdade, mas tal estado de coisas não é mais do que a «liberdade» de morrer de fome ou de doença, de permanecer na ignorância ou acabar na indigência, de suportar a canga e ser mais um entre a carneirada. Não foi para isso que fizemos Abril.
Quando falamos de Liberdade - e como é importante poder fazê-lo - não se pode deixar de reconhecer que das portas que Abril abriu algumas, demais, foram fechadas. No entanto, e apesar de naturais desalentos, sabemos bem que não há tranca que segure a força dos povos. A vontade dos homens e das mulheres que fizeram Abril tem sementes fundas na terra e desabrocha de forma sempre renovada em cada primavera da vida.
Pela Liberdade se morre porque só em Liberdade se vive no pleno sentido da palavra. E nós estamos vivos.
«E porque é que estamos a falar tão baixo?» Já estávamos a rir e a dançar e ainda a clandestinidade das palavras nos tolhia os gestos, que o passado não se apaga a golpes de borracha.
Gritámos a uma só voz «Viva o PCP!» e subimos a rua abraçadas e a cantar. Ninguém se espantou. Era Abril e a Revolução estava na rua.
Espantosa palavra esta, Liberdade, que pode dizer tudo e não significar nada. Aprendemo-la nos livros e nas canções, escrevemo-la pela calada da noite nos muros e paredes altamente vigiados, repetimo-la em todos os discursos e em todas as línguas, morremos por ela e por ela vivemos, e mesmo assim permanece uma incógnita, uma utopia, que tanto se reforça como se esvanece, que quanto mais se dá por adquirida mais frágil se torna, que quanto menos se exerce mais se degrada.
Pela Liberdade nos unimos e nos separamos, pois se é verdade que todos afirmam defendê-la, o certo é que uns são mais livres do que outros e isso é já uma perversão da própria Liberdade.
Cabe pois perguntar que Liberdade é esta que temos 30 anos depois de a Revolução de Abril ter derrubado o fascismo e de, segundo todos os cânones em vigor na cultura ocidental, termos passado à condição de povo livre.
Abril deu-nos - porque a conquistámos - em primeiro lugar a liberdade de expressão. Ao fim de 48 anos de ditadura em que até pensar, melhor dizendo, sobretudo pensar, era subversivo, as palavras tanto tempo amordaçadas soltaram-se das grilhetas e ganharam o seu lugar no direito de reunião, de manifestação, de expressão por todos os meios. Não significa isto que todos possam dizer tudo, ou que lá onde o lápis azul foi destronado não tenham surgido outras formas mais subtis mas nem por isso menos eficazes de censura, ou que o acesso aos meios que veiculam as mensagens esteja de igual modo à disposição de todos. Significa, isso sim, que o direito foi consagrado na Constituição que importa defender dos que há três décadas encarniçadamente se empenham em esvaziar de conteúdo.
Com Abril ganhámos igualmente a liberdade de associação e com ela a formação dos partidos, o que permitiu o surgimento de novas formações políticas e - nunca é demais lembrá-lo - a legalização do único partido que desafiou o fascismo e durante 48 anos o combateu na clandestinidade, o Partido Comunista Português. Da multiplicidade partidária de então pouco resta hoje, em que vários não significa diferentes, e menos restará no futuro se as forças da reacção conseguirem impor o espartilho da uniformização que constitui a nova Lei dos Partidos. É a «liberdade» para ser igual que uns poucos talharam à medida do único que sempre teve a coragem de ser diferente.
Em Abril abriu-se igualmente a porta à liberdade de escolha, de que as eleições livres são parte integrante, embora isto de ser livre para escolher tenha muito, mas mesmo muito que se lhe diga, que só escolhe de facto livremente quem detém informação bastante para escapar à manipulação. No curto espaço de três décadas de aprendizagem democrática - um nada na História -, os índices de insucesso cedo começaram a crescer e a taxa de abandono aí está nos números gritantes da abstenção, sintoma de incontornável desencanto de um povo que no dia das primeiras eleições livres fez questão de dizer «presente!» em todas as mesas de voto do País.
E porque não há Liberdade sem direitos, muitas mais liberdades nos trouxe Abril ao reconhecer na Carta Magna portuguesa que a saúde, a habitação, o trabalho, a educação, a reforma, a paz são direitos de todos que a todos devem ser assegurados.
Neste percurso cheio de hesitações, desvios, erros, avanços e recuos, naturais uns e deliberados tantos outros, já pouco se reconhece do rumo traçado em Abril. Sem poder económico não há verdadeira liberdade, como todos descobrimos mal ensaiamos os primeiros passos por nossa própria conta e risco, e o poder económico está de novo no poder, como há trinta anos, embora travestido de democrata, assumindo-se como gestor das nossas liberdades e apostado em convencer-nos de que podemos cotá-las na bolsa como investimento seguro, a troco de aceitarmos ficar cegos, surdos e mudos perante a sua política de restauração capitalista.
Há quem chame a isto liberdade, mas tal estado de coisas não é mais do que a «liberdade» de morrer de fome ou de doença, de permanecer na ignorância ou acabar na indigência, de suportar a canga e ser mais um entre a carneirada. Não foi para isso que fizemos Abril.
Quando falamos de Liberdade - e como é importante poder fazê-lo - não se pode deixar de reconhecer que das portas que Abril abriu algumas, demais, foram fechadas. No entanto, e apesar de naturais desalentos, sabemos bem que não há tranca que segure a força dos povos. A vontade dos homens e das mulheres que fizeram Abril tem sementes fundas na terra e desabrocha de forma sempre renovada em cada primavera da vida.
Pela Liberdade se morre porque só em Liberdade se vive no pleno sentido da palavra. E nós estamos vivos.