Alertas e propostas caíram em saco roto

Governo recusou propostas válidas

O Grupo Parlamentar do PCP apresentou vários propostas na Assembleia da República visando a prevenção e o combate aos fogos. O Governo recusou-as.

A reflorestação das áreas queimadas cabe principalmente ao Estado

O Grupo Parlamentar do PCP apresentou vários propostas na Assembleia da República visando a prevenção e o combate aos fogos. O Governo recusou-as.

Associadas à cíclica tragédia que assola o País estão, repetidamente, as lamúrias e as habituais proclamações de governantes garantindo que a partir de agora é a valer e que tudo mudará. A este filme já o País assiste há vários anos, mas quanto a respostas e medidas sérias e efectivas, essas, continuam ausentes.
E não é por falta de diagnóstico ou de identificação quanto às causas de uma catástrofe que todos os anos deixa atrás de si um rasto de destruição e dor, com elevados custos no plano social, económico e ambiental. Como não é por falta de insistentes chamadas de atenção e de propostas concretas como as que o PCP, em vários ocasiões, ao longo dos anos, tem vindo a fazer.
E o mais recente desses contributos foi dado, nem mais nem menos, em finais do ano passado. Em 27 de Novembro de 2002 – fazendo jus à máxima de que os fogos de Verão previnem-se e combatem-se no Inverno – davam entrada na Mesa da Assembleia da República duas iniciativas legislativas da autoria do Grupo Parlamentar do PCP.
Uma, sob a forma de projecto de resolução, materializava um conjunto de recomendações ao Governo com o objectivo de melhorar as políticas de prevenção e combate aos fogos florestais; a outra, em formato de projecto de lei, dava corpo a um verdadeiro «programa de rearborização para áreas percorridas por incêndios florestais».

Intransigência

Debatidas em plenário em 22 de Janeiro último, estas duas iniciativas legislativas do PCP viriam a ter destinos diferentes. No momento da votação, enquanto o projecto de resolução baixou à comissão sem votação, o projecto de lei esbarrou no não intransigente da maioria PSD-CDS/PP.
E foi pena. Neste último caso, porque, como mostraram os acontecimentos mais recentes, as medidas preconizadas pelo PCP – obedecendo no essencial à ideia de que o Estado tem de assumir um papel mais activo nos processo de reflorestação das áreas queimadas – configuram uma inevitabilidade. É que, como então foi sublinhado pela bancada comunista, não tendo os produtores florestais na sua grande maioria capacidade económica para se lançar num programa de rearborização, não pode o Estado ficar impávido a assistir à destruição de um recurso estratégico como é a floresta que contribui para a existência de mais de sete empresas que garantem mais de 164 postos de trabalho.
Por outro lado, no que se refere ao projecto de resolução subscrito pelos deputados comunistas, lamentável é que o Governo tenha feito orelhas moucas às medidas nele preconizadas. Se tivesse sido outra a sua atitude, muito provavelmente – legítimo é supô-lo –, outra teria sido a dimensão da tragédia.
Com efeito – partindo da necessidade de investir sobretudo na prevenção, valorizando os meios de detecção e vigilância, e tendo presente a importância de meios humanos e de combate adequados, bem como a sua coordenação e optimização – no projecto de resolução, entre outras direcções e prioridades, apontada ao Governo era a necessidade de serem acelerados os programas de compartimentação e diversificação da floresta portuguesa, impondo-se, nomeadamente, no quadro da execução da Lei de Bases da Política Florestal, proceder à elaboração urgente dos Planos Regionais de Ordenamento Florestal e dos Planos de Gestão Florestal de acordo com as orientações estratégicas contidas no Plano de Desenvolvimento Sustentável da Floresta Portuguesa.

Em Janeiro passado, em pleno Inverno, reflectindo a importância do tema – as políticas de prevenção e combate aos fogos florestais – , o Avante! dava nas suas páginas cobertura às propostas do PCP para um debate que lhe coube colocar na ordem do dia. Foi, na ocasião, o único órgão de comunicação social a dar o devido relevo ao assunto. A reter, dessa discussão, ficaram as críticas contundentes à inércia do Governo, mas, não menos consistentes, as medidas concretas preconizadas pelos comunistas no sentido da melhoria das políticas de prevenção e combate aos fogos florestais.
Tivessem estes contributos sido acolhidos e, muito provavelmente, o País poderia ter sido poupado ou pelo menos visto minoradas as consequências trágicas da vaga de fogo que o atravessou.


Mais artigos de: Em Foco

O inferno na terra


Sete mil empresas trabalham na área florestal, correspondendo a mais de 170 mil postos de trabalho. Grande parte está afectada devido aos incêndios. Será uma das graves consequências económicas, sociais e ambientais dos fogos.

Os números da catástrofe

A destruição provocada pelos incêndios em Portugal é imensa. Muitos valores ainda não foram calculados, mas, pelos os estragos já avaliados, fica-se com a ideia da extensão da calamidade.Na sexta-feira, o ministro da Administração Interna, Figueiredo Lopes, anunciou que as estimativas oficiais sobre os prejuízos globais...

Das cinzas ao desenvolvimento regional

Transformar as cinzas numa floresta que seja uma mais valia ecológica e um factor de desenvolvimento regional e nacional – é o que defendem «Os Verdes».

Reocupação das zonas rurais é fundamental

O sistema de prevenção de incêndios existente em Portugal nos últimos 25 anos «não é eficiente nem responde às actuais realidades do território», considera a União da Floresta Mediterrânica (UNAC), organização formada por diversas associações de produtores florestais.Em comunicado, a UNAC defende a revisão da Política...

Governo é o principal responsável

«A questão central dos fogos é política», considera a Direcção da Organização Regional de Coimbra do PCP. «Tanto as responsabilidades, como as soluções são do foro político. Não é do clima, dos incendiários, dos milhares de pequenos proprietários florestais que abandonam as suas matas e bouças. O problema é de políticas...

Cronologia de um crime

● No Verão do ano passado, enquanto lavram incêndios em todo o País, o Governo anuncia que no mês de Setembro apresentaria um pacote de medidas com vista à prevenção e combate aos fogos de 2003. Setembro passa e as referidas decisões governamentais não voltam a ser abordadas, sem que se esclareça se tinham de facto...

Responder aos problemas

O reforço do efectivo do Corpo Nacional de Guardas Florestais, das Brigadas de Vigilantes da Natureza e a dinamização das equipas de Sapadores Florestais, bem como, noutro plano, o funcionamento pleno dos postos de vigia, com pessoal habilitado, no mínimo entre 15 de Maio e 15 de Outubro, 24 horas por dia, constituem...

Agir com rapidez

O Governo português foi convidado pela Comissão Europeia a apresentar o mais rapidamente possível uma estimativa da totalidade dos prejuízos provocados pelos incêndios florestais.

Instrumentos comunitários

Fundo de Solidariedade - Na sequência das inundações que atingiram a Europa Central, em Agosto de 2002, os estados-membros, os países em vias de adesão e os países candidatos passaram a beneficiar deste fundo em caso de catástrofe de grandes proporções. Para aceder, os países devem fornecer uma estimativa dos danos...