A crueldade do lucro
Foi com indignação e revolta que os 588 trabalhadores da multinacional inglesa Clark receberam a notícia de que a fábrica onde trabalham, em Castelo de Paiva, vai encerrar. Nas acções de protesto realizadas contaram com muitos apoios solidários mas poucas respostas.
A memória do encerramento da fábrica de Arouca é ainda muito recente
Em dois dias consecutivos, os trabalhadores da multinacional inglesa C & J Clark, sediada em Castelo de Paiva, distrito de Aveiro, deram mostra da sua profunda revolta pela decisão da empresa em encerrar aquela fábrica ainda este ano. Nas acções de luta realizadas, quer no plenário de segunda-feira quer na manifestação que anteontem percorreu as ruas da vila, os trabalhadores expressaram a recusa dos despedimentos e procuravam soluções e respostas para o seu problema, que assume proporções imensas, já que a empresa, com 588 trabalhadores, é a maior empregadora do concelho. Estima-se que directa e indirectamente ligadas à Clark estejam 2 mil pessoas, das cerca de 17 mil que constituem a população do concelho.
Em todas estas acções, e para além da presença solidária da população do concelho, de sindicalistas – entre os quais, na manifestação, o secretário-geral da CGTP, Carvalho da Silva –, de autarcas e de representantes de diversos partidos, esteve o PCP, por intermédio de dirigentes regionais e do deputado Bruno Dias. Os representantes comunistas participaram na manifestação da passada terça-feira e, no plenário do dia anterior, o deputado do PCP dirigiu-se aos trabalhadores, na maioria mulheres, para dar a conhecer a solidariedade activa dos comunistas. Esta solidariedade materializa-se, na prática, por um requerimento e uma resolução parlamentares e uma pergunta da eurodeputada Ilda Figueiredo à Comissão Europeia.
Não é a primeira vez que a Clark leva a cabo um processo desta natureza em Portugal. Em 2001 encerrou uma fábrica em Arouca e, na própria fábrica de Castelo de Paiva, já ocorreram despedimentos. Quando se fixou no concelho, em 1998, a fábrica contava com 800 trabalhadores, que foram reduzidos para os actuais 588 devido à deslocalização de parte da sua produção para fábricas situadas na Índia e na Roménia, para onde a multinacional inglesa pretende deslocar o que actualmente produz na fábrica de Castelo de Paiva.
A história repete-se?
Como vai sendo normal nestas situações, às declarações consternadas de responsáveis governamentais – comprometidos com a política de subserviência ao grande capital nacional e estrangeiro – pouco ou nada se soma no domínio das acções. Foi, aliás, o que aconteceu aquando do encerramento da fábrica de Arouca da mesma multinacional, em 2001. E foi novamente o que sucedeu com os despedimentos na fábrica de Castelo de Paiva há poucos anos atrás. À pergunta, feita em 2001 na Assembleia da República pelo então deputado do grupo parlamentar do PCP, Vicente Merendas, acerca das acções que o governo do PS iria eventualmente tomar para proteger os postos de trabalho na Clark de Arouca, a resposta foi, na prática, nula. A fábrica acabou por encerrar.
Dois anos mais tarde, novamente por intermédio de um parlamentar comunista, no caso Odete Santos, o Governo, agora do PSD/PP, volta a ser inquirido acerca de uma situação dramaticamente semelhante. Não houve ainda tempo para qualquer acção, mas a memória da fábrica de Arouca é muito recente e paira sobre os trabalhadores.
Odete Santos lembrou que a multinacional de calçado havia garantido o funcionamento da fábrica pelo menos até 2006 no momento em que levou a cabo os anteriores despedimentos, considerados pela empresa como necessários para manter os restantes postos de trabalho. Os mesmos que se prepara agora para extinguir.
A Clark recebeu apoios do Estado para se fixar em Castelo de Paiva, na ordem dos 250 mil contos. Estes apoios assumiram ainda a forma de isenções de pagamento de contribuições à segurança social para os postos de trabalho criados no caso de se tratarem de trabalhadores à procura de primeiro emprego. Agora, voltando as costas a tudo isso, parte para outras terras, onde possa pagar ainda menos e explorar ainda mais.
Unidade é o caminho
Eram sete e meia da manhã de segunda-feira e já os comunistas estavam junto às instalações da fábrica Clark a contactar com os trabalhadores e a distribuir um comunicado da direcção regional de Aveiro do PCP. Nesse comunicado, os comunistas expressam a sua inequívoca solidariedade para com os trabalhadores da empresa, atingidos pela ameaça do desemprego.
«A decisão da multinacional inglesa de encerrar a fábrica em Castelo de Paiva é chocante, imoral, injusta e desumana», afirma o PCP que reclama do Governo o cumprimento da resolução que advoga a adopção de medidas legislativas contra a «deslocalização de empresas multinacionais para outros países, depois de terem usufruído de grandes apoios financeiros tirados dos bolsos dos trabalhadores e que foi aprovada por unanimidade na Assembleia da República», incluindo, portanto, os votos da actual maioria.
A injustiça da decisão é ainda maior tendo em conta que as unidades portuguesas da Clark se encontram entre as mais produtivas do grupo e as maiores do País no sector, o que não pode ser desligado da dedicação e capacidade de trabalho dos trabalhadores portugueses. A direcção regional comunista está preocupada com a situação do concelho de Castelo de Paiva, que não tem quaisquer condições para absorver os 588 postos de trabalho da Clark.
Os comunistas confiam que o «caminho para a defesa dos postos de trabalho é a luta e a unidade dos trabalhadores».