O dever
Das cinzas da Segunda Guerra Mundial, da indústria da morte dos campos de extermínio do nazi-fascismo e dos massacres nucleares de Hiroxima e Nagasáqui surgiu em todo o mundo um forte movimento de cientistas empenhados na manutenção da paz e em garantir que os extraordinários avanços da ciência e da técnica não mais seriam usados para matar mais e mais depressa, mas para resolver os graves problemas que assolavam a Humanidade.
Um deles foi o físico francês Frédéric Joliot-Curie, galardoado em 1935 com o Prémio Nobel da Química, que seria o primeiro presidente do Conselho Mundial da Paz, posição que acumulava com a direcção de outra organização internacional constituída nesses anos, a Federação Mundial de Trabalhadores Científicos (FMTC). Mas não esteve só: Iréne Joliot-Curie, a sua companheira (com quem dividiu o Nobel), filha de Marie e Pierre Curie, e o biólogo John Desmond Bernal foram alguns dos muitos a estar ao seu lado. Em registos porventura menos permanentes, mas nem por isso menos empenhados, também Robert Oppenheimer e Albert Einstein ergueram as suas vozes contra a escalada armamentista e pela proibição da arma atómica, que ambos (mais um do que outro, ainda assim) contribuíram para que fosse inventada.
Se pensarmos bem, faz sentido: quem mais do que os cientistas compreende toda a dimensão das potencialidades e dos riscos associados a um determinado avanço técnico ou científico? Têm, assim, o dever moral de tudo fazer para que a ciência e a técnica sirvam a vida e o progresso da Humanidade e não a sua destruição.
Foi precisamente com este espírito que a Organização dos Trabalhadores Científicos (filiada na FMTC) divulgou há dias o Manifesto “Cientistas contra a guerra. Pela Paz, cooperação e desenvolvimento”, lançado por meia centena de «cientistas, intelectuais, formadores, cidadãos», portugueses na sua maioria, e que continua aberto a novos subscritores. E lá está inscrito esse dever, que mobilizou tantos antes deles: o dever de «dar o alarme», o dever de participar activamente «nos esforços necessários para fazer face a ameaças actuais e futuras» – e tantas que são: da corrida a novos e mais sofisticados armamentos à «crescente tendência para a militarização das economias, que fortalece os complexos militares-industriais movidos pelo lucro e alimenta um ciclo global de conflito, guerra e proliferação de armas», ao mesmo tempo que provoca sérios danos no ambiente e desvia recursos e conhecimentos tão necessários noutras áreas, como por exemplo a saúde. Rejeitando a inacção e a neutralidade, que equiparam a cumplicidade, os subscritores do Manifesto garantem que será a História a julgá-los pela sua capacidade de resistir à «lógica da destruição que rege o presente e de construir as condições para um futuro justo, pacífico e viável para todos».
Bravo!




