As bombas e o pão
A escalada de confrontação e guerra em que o imperialismo está apostado caminha de braço dado com a política de agravamento da exploração e das injustiças contra os trabalhadores e os povos. Uma e outra conjugam-se nas opções que visam o favorecimento das grandes potências imperialistas e os interesses dos grupos económicos e das multinacionais. A guerra imperialista não dispensa, antes precisa de intensificar, quer os mecanismos de exploração, quer os instrumentos de repressão e condicionamento ideológico. É a tudo isto a que estamos a assistir neste momento.
É assim na principal potência imperialista, os EUA, com a administração Trump – ao mesmo tempo que multiplica agressões em vários continentes – a elevar o patamar de ataque às classes e camadas sociais mais desfavorecidas nesse país e a intensificar a linha reaccionária e fascizante de muitas das suas políticas. É assim na União Europeia, onde ao mesmo tempo que se desviam milhares de milhões de euros de recursos públicos para alimentar a guerra na Ucrânia ou a compra de armas aos EUA – recusando qualquer caminho de paz – se aprofunda o neoliberalismo, intensificando a ofensiva contra os direitos laborais, o assalto aos sistemas públicos de Segurança Social ou a deriva reaccionária e anticomunista que se assume cada vez mais como doutrina oficial.
E é também assim em Portugal. Com o Governo PSD/CDS a assumir-se como um dos mais fiéis seguidores da estratégia do imperialismo norte americano ao mesmo tempo que avança com o pacote laboral, aposta no desmantelamento e destruição de serviços públicos, promove a especulação na habitação e a privatização de empresas estratégicas. Ao fim ao cabo, o Governo PSD/CDS assume como sua a política das classes dominantes e disponibiliza-se para, no seguimento de governos anteriores, a concretizar. E se daí resultarem impactos no plano económico, como aliás já se estão a sentir no seguimento da agressão dos EUA e Israel ao Irão, não devemos ter qualquer dúvida de que, da parte deste Governo e daqueles que o apoiam ou até o viabilizam, a sua opção será a de fazer recair esses impactos sobre os trabalhadores e o povo, poupando, ou até engordando, os lucros dos grupos económicos e das multinacionais.
Os expectáveis aumentos dos preços a que provavelmente iremos assistir de forma ainda mais agravada nos próximos tempos – seja na energia, alimentos ou habitação – não se combatem alinhando com a estratégia do imperialismo, não se mitigam com medidas confinadas ao plano fiscal como defendem todos os partidos do consenso neoliberal e não se compadecem com as opções da Comissão Europeia e do BCE, que já ameaçam com novo agravamento das taxas de juro em nome do combate à inflação. Pelo contrário, exigem a defesa da paz e a recusa firme do caminho da confrontação e corrida aos armamentos. Reclamam que, para lá da dimensão fiscal, a indispensável regulação dos preços dos bens e serviços essenciais – energia, alimentos, crédito - , impedindo todos os aproveitamentos de quem lucra na paz e espera lucrar ainda mais com a guerra. E tornam ainda mais urgente o aumento significativo dos salários e das pensões que há muito se justificava e que agora se justifica ainda mais. Era só o que faltava que, perante os lucros colossais alcançados pela banca – os maiores de sempre -, pelos grupos económicos que controlam a energia ou a grande distribuição, fossem uma vez mais os trabalhadores e o povo a pagar a factura da guerra imperialista. Mas é isso que pretendem impor.
Nos últimos anos temos assistido a uma autêntica preparação no plano ideológico para se aceitar a guerra como uma inevitabilidade. Basta passar uma noite em frente ao televisor e pular de canal em canal para se perceber a forma como alimentam a lógica da luta do “bem contra o mal”, da defesa da “nossa civilização” e dos “nossos valores” contra o inimigo e o outro. Exibem mapas, bombas, aviões de combate e “kits de sobrevivência” a um ataque nuclear (?!). Falam-nos de novos empregos que a “indústria de defesa” pode proporcionar. E mentem, mentem todos os dias, todas as noites, em todos os canais. Uma máquina que esconde a morte e o sofrimento de milhões de seres humanos e glorifica os protagonistas maiores da política imperialista.
Os perigos inerentes aos objectivos estratégicos do imperialismo podem ter consequências catastróficas. É por tudo isto que é tão importante não desligar a luta pelos salários, direitos, a luta contra o pacote laboral e em defesa do SNS, a luta pelo direito à habitação e contra a especulação, da luta pela paz e cooperação entre os povos. Se há força capaz de conter os promotores da guerra, é a força da luta dos trabalhadores e dos povos pela paz. Alargar essa consciência é tarefa dos comunistas e de muitos outros democratas. Uma luta tão urgente quanto necessária e que irá desaguar já neste sábado nas ruas do Porto e de Lisboa.




