As bombas e o pão

Vasco Cardoso (Membro da Comissão Política)

A escalada de confrontação e guerra em que o imperialismo está apostado caminha de braço dado com a política de agravamento da exploração e das injustiças contra os trabalhadores e os povos. Uma e outra conjugam-se nas opções que visam o favorecimento das grandes potências imperialistas e os interesses dos grupos económicos e das multinacionais. A guerra imperialista não dispensa, antes precisa de intensificar, quer os mecanismos de exploração, quer os instrumentos de repressão e condicionamento ideológico. É a tudo isto a que estamos a assistir neste momento.

É assim na principal potência imperialista, os EUA, com a administração Trump – ao mesmo tempo que multiplica agressões em vários continentes – a elevar o patamar de ataque às classes e camadas sociais mais desfavorecidas nesse país e a intensificar a linha reaccionária e fascizante de muitas das suas políticas. É assim na União Europeia, onde ao mesmo tempo que se desviam milhares de milhões de euros de recursos públicos para alimentar a guerra na Ucrânia ou a compra de armas aos EUA – recusando qualquer caminho de paz – se aprofunda o neoliberalismo, intensificando a ofensiva contra os direitos laborais, o assalto aos sistemas públicos de Segurança Social ou a deriva reaccionária e anticomunista que se assume cada vez mais como doutrina oficial.

E é também assim em Portugal. Com o Governo PSD/CDS a assumir-se como um dos mais fiéis seguidores da estratégia do imperialismo norte americano ao mesmo tempo que avança com o pacote laboral, aposta no desmantelamento e destruição de serviços públicos, promove a especulação na habitação e a privatização de empresas estratégicas. Ao fim ao cabo, o Governo PSD/CDS assume como sua a política das classes dominantes e disponibiliza-se para, no seguimento de governos anteriores, a concretizar. E se daí resultarem impactos no plano económico, como aliás já se estão a sentir no seguimento da agressão dos EUA e Israel ao Irão, não devemos ter qualquer dúvida de que, da parte deste Governo e daqueles que o apoiam ou até o viabilizam, a sua opção será a de fazer recair esses impactos sobre os trabalhadores e o povo, poupando, ou até engordando, os lucros dos grupos económicos e das multinacionais.

Os expectáveis aumentos dos preços a que provavelmente iremos assistir de forma ainda mais agravada nos próximos tempos – seja na energia, alimentos ou habitação – não se combatem alinhando com a estratégia do imperialismo, não se mitigam com medidas confinadas ao plano fiscal como defendem todos os partidos do consenso neoliberal e não se compadecem com as opções da Comissão Europeia e do BCE, que já ameaçam com novo agravamento das taxas de juro em nome do combate à inflação. Pelo contrário, exigem a defesa da paz e a recusa firme do caminho da confrontação e corrida aos armamentos. Reclamam que, para lá da dimensão fiscal, a indispensável regulação dos preços dos bens e serviços essenciais – energia, alimentos, crédito - , impedindo todos os aproveitamentos de quem lucra na paz e espera lucrar ainda mais com a guerra. E tornam ainda mais urgente o aumento significativo dos salários e das pensões que há muito se justificava e que agora se justifica ainda mais. Era só o que faltava que, perante os lucros colossais alcançados pela banca – os maiores de sempre -, pelos grupos económicos que controlam a energia ou a grande distribuição, fossem uma vez mais os trabalhadores e o povo a pagar a factura da guerra imperialista. Mas é isso que pretendem impor.

Nos últimos anos temos assistido a uma autêntica preparação no plano ideológico para se aceitar a guerra como uma inevitabilidade. Basta passar uma noite em frente ao televisor e pular de canal em canal para se perceber a forma como alimentam a lógica da luta do “bem contra o mal”, da defesa da “nossa civilização” e dos “nossos valores” contra o inimigo e o outro. Exibem mapas, bombas, aviões de combate e “kits de sobrevivência” a um ataque nuclear (?!). Falam-nos de novos empregos que a “indústria de defesa” pode proporcionar. E mentem, mentem todos os dias, todas as noites, em todos os canais. Uma máquina que esconde a morte e o sofrimento de milhões de seres humanos e glorifica os protagonistas maiores da política imperialista.

Os perigos inerentes aos objectivos estratégicos do imperialismo podem ter consequências catastróficas. É por tudo isto que é tão importante não desligar a luta pelos salários, direitos, a luta contra o pacote laboral e em defesa do SNS, a luta pelo direito à habitação e contra a especulação, da luta pela paz e cooperação entre os povos. Se há força capaz de conter os promotores da guerra, é a força da luta dos trabalhadores e dos povos pela paz. Alargar essa consciência é tarefa dos comunistas e de muitos outros democratas. Uma luta tão urgente quanto necessária e que irá desaguar já neste sábado nas ruas do Porto e de Lisboa.

 



Mais artigos de: Opinião

Contra o “novo normal”

Os perigos que pairam sobre a Humanidade não cessam de crescer. Todos os dias somos colocados perante renovadas expressões da perversa natureza do capitalismo. Valores e direitos alcançados pelo progresso civilizacional são pura e simplesmente espezinhados. O terrorismo e a pirataria tornam-se, como nos EUA e Israel,...

O dever

Das cinzas da Segunda Guerra Mundial, da indústria da morte dos campos de extermínio do nazi-fascismo e dos massacres nucleares de Hiroxima e Nagasáqui surgiu em todo o mundo um forte movimento de cientistas empenhados na manutenção da paz e em garantir que os extraordinários avanços da ciência e da técnica não mais...

Rastejantes mordomias

A agressão ao Irão é ilegal, ilegítima e criminosa. Os seus objectivos são evidentes: criar as condições para o velho projecto sionista e imperialista do “grande Israel”; eliminar qualquer resistência à conclusão do genocídio do povo palestiniano; instaurar uma “ordem regional” às ordens dos EUA que não admite relações...

Cautelas

O Governo acaba de anunciar a criação de um Grupo de Trabalho para dar aos directores das escolas poderes para definirem quem pode entrar nas escolas e que tipo de actividades aí se podem realizar. Parece-nos oportuno deixar alguns alertas à navegação porque, como sempre, estamos a ver como isto começa, mas não fazemos...

Irracionalidades

1. Há um país cujos dirigentes se guiam por um parágrafo de um texto religioso que pode datar, ao que dizem, de há uns 3500 anos. Nele o deus privativo dessa gente (o seu “escudo”, diz esse texto) dá aos descendentes de Abraão a terra que vai do Nilo ao Eufrates, e incita-os a correr dela os 10 povos que a habitam....