“A” de quê?
Foi noticiado na semana passada que a agência de notação financeira Fitch subiu o “rating” de Portugal de A- para A, com perspectiva estável. Recorde-se que a Fitch não é nenhuma entidade pública, mas sim uma das três agências de notação financeira que estão nas mãos do grande capital, por quem foi criada.
Segundo a Agência Lusa, a Fitch apontou vários motivos para subir a classificação de Portugal, como a redução contínua da dívida, uma posição orçamental equilibrada, défices reduzidos a partir de 2026, o aumento das exportações e um crescimento resiliente.
Mal a notícia era divulgada, já o Governo se punha em bicos de pés para garantir tratar-se de um «reconhecimento do trabalho» por si feito, pelas famílias e as empresas.
Ora, sobre o assunto, pondo água na fervura, que é o mesmo que dizer, chamando a atenção para a realidade sócio-económica do País, o Secretário-Geral do PCP, Paulo Raimundo, afirmou que a subida do “rating” de Portugal para A choca com a vida difícil de quem trabalha, sublinhando que aquele A só pode significar «Aumento dos custos dos alimentos, dos custos da eletricidade, das dificuldades de quem trabalha», do custo de vida e das dificuldades dos portugueses.
Ironizou mesmo, afirmando que até chegou tarde à iniciativa em que participava em Vila Nova de Famalicão, por causa das grandes manifestações de contentamento que encontrou na rua relacionadas com a subida do “rating”, agora anunciada.
De facto, o que a realidade mostra é que a vida dos portugueses está pior, como se nota nos baixos salários e baixas pensões, nas dificuldades no acesso ao Serviço Nacional de Saúde, no drama da habitação, na Escola pública onde, na abertura do ano lectivo, milhares de alunos não têm professor a pelo menos uma disciplina, no anúncio de aumento das propinas que tornará ainda mais difícil a frequência do Ensino Superior, numa floresta dizimada pelos incêndios, num aparelho produtivo ainda mais fragilizado, nas privatizações.
É o retorno à velha tese de Montenegro: «a vida das pessoas não está melhor, mas a do País está muito melhor».
Ora, o que deveria ser dito, para corresponder à verdade, seria: «Nem o País nem a vida das pessoas estão melhores. Mas a vida dos grupos económicos, dos detentores da riqueza, do capital monopolista, essa sim, está muito melhor».
É isso e só isso que o que agência Fitch deveria fazer notar, se tivesse sido criada para retratar a verdade. Mas não é essa a sua missão. Foi criada para servir o seu criador e qualquer notação financeira que venha a fazer nunca trairá os seus interesses.




