Não é pato

Anabela Fino

“Se anda como um pato, grasna como um pato, tem penas e voa como um pato, então, provavelmente é um pato”. Certo? Humm, nem por isso. Quer dizer, depende, tem dias. Vejamos exemplos em que aquele provérbio, atribuído ao influente sindicalista norte-americano Emil Mazey, fica sujeito à discricionariedade.

Segundo o Relatório Global sobre o Estado da Democracia 2025, do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (International IDEA), com sede em Estocolmo, em 94 dos 173 países abrangidos, 54%, registou-se em 2024 um declínio em pelo menos um indicador de desempenho democrático em comparação com 2019. Ou seja, a democracia regrediu. Registe-se que por democracia se deve entender a democracia burguesa, que como Lénine fez o favor de nos ensinar, “sendo um grande progresso histórico em comparação com a Idade Média, continua a ser sempre – e não pode deixar de continuar a ser sob o capitalismo – estreita, amputada, falsa, hipócrita, paraíso para os ricos, uma armadilha e um engano para os explorados, para os pobres”. Pois bem, esta “democracia” regrediu, e de acordo com a mesma fonte tal vem sucedendo de forma consistente há cerca de uma década. Reconhece-se a existência de um declínio “grave e sustentado”, de um “problema”, mas dizem-nos que “não devemos entrar em pânico”, e que “não se trata de uma crise da democracia”.

Cá está. Não é pato.

O factor com maior retrocesso foi a liberdade de imprensa, que sofreu o seu maior recuo global desde 1975, com raras excepções, como é o caso do Brasil. O primeiro semestre de 2025, refere o Relatório, “evidenciou até que ponto a incerteza radical continua a ser uma característica marcante do contexto global”, marcado pelo regresso de Trump à Casa Branca. O International IDEA emitiu 20 alertas (o dobro dos registados nos dois anos anteriores), dando conta de casos em que o governo dos EUA “enfraqueceu e aboliu regras, instituições e normas que moldaram a democracia americana”. Cita-se, a título de exemplo, restrições à liberdade académica, criminalização de protestos, disputa de resultados eleitorais, limitação do acesso dos media à Casa Branca e o contorno de processos judiciais. Apesar destes dados só virem a ser reflectidos no relatório de 2026, reconhece-se que constituem “mais incentivo a líderes populistas autoritários do que a candidatos pró-democracia”.

Em declarações à Lusa, um dos autores do Relatório, Alexander Hudson, disse que os cidadãos devem “prestar atenção, em cada país, às manifestações específicas do declínio democrático, como o declínio na liberdade de imprensa, que é generalizado”. Um bom conselho, sobretudo quando os media regurgitam imbecilidades sobre drones que não mataram ninguém e mal soltam um pirolito sobre o assassinato dos 11 passageiros da embarcação abatida pela Marinha dos EUA perto da Venezuela, em alegado combate à droga, sem provas, sem mandato, sem julgamento.

Se fosse Putin, ou Maduro, tínhamos pato. Sendo Trump, grasna-se baixinho.

 



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