Compulsão reaccionária
As compulsões são por definição um comportamento reproduzido por impulso e de maneira repetitiva e exagerada. Não estranha, assim, que por impulso subliminar o Conselho de Ministros, na sua resolução a propósito do 25 de Novembro, se tenha referido às eleições de 1976 – as segundas, após as eleições de 1975 para a Assembleia Constituinte – como as “primeiras eleições livres e democráticas“!
Conhecido que é o inconformismo de PSD e CDS, bem secundados pelos demais apêndices reaccionários, para com a Constituição da República, melhor se percebe que, mais por instinto do que por cuidado posto na escrita, se tenha soltado da ponta da caneta o que lhes povoa a alma e que mal disfarçadamente lá vão tolerando. É da psicologia! Uma dimensão comportamental que tem, também, na propensão para a mentira factor não desprezível.
Seguramente por isso aí está todo o cortejo de mentiras, de falsificação histórica e distorção dos factos para apresentar o 25 de Novembro não pelo que foi mas pelo que dizem ter sido (golpe contra-revolucionário e não contra-golpe); pelo que acabou por não ser mas que alguns (não todos, faça-se justiça) ambicionavam que tivesse sido (um golpe que travasse a dinâmica revolucionária e o processo de transformações e conquistas que a CRP veio a consagrar, reprimisse e ilegalizasse o PCP, liquidasse o regime democrático). É isso que verdadeiramente os põe a lamuriar. Subjacente a impulsos compulsivos ditados por um indisfarçável reaccionarismo o que se esconde sobre estas anunciadas “comemorações” é essencialmente um acto revanchista contra a Revolução de 25 de Abril, de desvalorização e afrontamento aos seus valores e conquistas. Uma opção movida por um recalcado e antidemocrático inconformismo com Abril, um tardio assomo de ajuste contas da direita com esse acto maior da história do nosso País.
Uma operação só explicável pela crescente presença de concepções reaccionárias na sociedade portuguesa e por uma cada vez mais clara afirmação de forças, organizações e partidos movidos por um ideário, mais ou menos declarado, retrógrado, antidemocrático e fascizante. Na qual crescentemente o Governo, e quem o compõe, se insere.




