Pirataria de fato e gravata
«A Lone Star deverá distribuir prémios de 1,1 mil milhões de euros pelos gestores envolvidos no negócio do Novo Banco, um terço do apoio público dado pelo Fundo de Resolução.» É assim que começa a notícia na qual o Público dá nota do esquema de distribuição de “prémios de gestão” montado pela Lone Star no processo de venda do NB aos franceses do BPCE.
Confesso que o valor astronómico a distribuir entre administradores do Novo Banco e da Lone Star me surpreendeu. O PCP já tinha denunciado o crime económico que constituiu todo o processo que envolveu a resolução do BES, a criação do Novo Banco, a sua entrega à Lone Star (ficando o Estado responsável por todo o risco da operação) e a venda anunciada neste verão do NB aos franceses do BPCE. Ao todo foram consumidos, em termos líquidos, pelo menos 6,5 mil milhões de euros de recursos públicos, o que constituiu seguramente o maior rombo provocado por um só processo de corrupção e gestão danosa da banca privada (se somarmos o conjunto de bancos privados objecto de intervenção pública desde 2008 os valores seriam superiores a 16 mil milhões de euros). Mas desconhecíamos qual o valor do saque que ficou no bolso dos operacionais do assalto.
Segundo o Público, John Grayken, o fundador do Lone Star e presidente não executivo, arrecadará só ele cerca de metade dos 1100 milhões de euros. O restante será dividido pela cúpula da Lone Star, e de forma mais modesta, pelos administradores – incluindo portugueses – do NB. Haverá ainda milhares de milhões de euros de dividendos que serão distribuídos aos accionistas da Lone Star no final do exercício. Um escândalo!
Mas a divulgação desta notícia não teve a repercussão que se exigia. Nenhum outro órgão de comunicação social lhe pegou e não consta que, com excepção do PCP, mais alguma força política se tenha importunado com tal. Diga-se que a proposta que o PCP apresentou para travar a venda do Novo Banco (na qual o Estado detém 25% do capital) teve no mês de Julho o voto contra de PSD, Chega, IL e PS e até o Livre se absteve invocando que, ao contrário da privatização, o controlo público do NB «não é uma prioridade». Mas o conluio destas forças políticas com este crime económico e o silêncio da generalidade de uma comunicação social cada vez encaixada na agenda reaccionária, não apagam o acto de pirataria a que, em pleno século XXI, o nosso País foi sujeito e que vamos continuar a denunciar.




