Peças de qualidade e mais público reafirmam importância do teatro
A edição deste ano do Avanteatro, com um espaço renovado, quer em termos acústicos quer nas condições para acolher os grupos de teatro e o público, voltou a afirmar o teatro na Festa do Avante! como uma das formas mais importantes de mostrar aquilo que muitas vezes é esquecido e ostracizado pelos meios de comunicação social, mas que é uma mensagem de luta que se concretiza através da liberdade de criação, da alegria de contar histórias, com temas actuais, e em desafiar o público para questionar o quotidiano e não ficar indiferente.
Um programa diversificado para crianças, jovens e adultos deu corpo à celebração dos 50 anos de Abril, podendo ler-se no programa do Avanteatro que «há 50 anos que não somos obrigados a fazer ensaios de censura!!!», mostrando a importância da liberdade conquistada e o propósito de continuar a defendê-la.
O espectáculo de abertura, com a sala cheia, apresentou o texto Maiakovski – O Regresso do Futuro, interpretado pelo Teatro de Ferro & Teatro de Marionetas do Porto. Uma viagem no tempo com os olhos no futuro, em diálogo com o presente, revisitou o universo de Maiakovski e a sua máquina-do-teatro. Vários elementos cénicos, juntando actores e marionetas, com impacto junto do público, deram expressão à ruptura com as estruturas tradicionais, levando ao diálogo entre o activismo político, o desejo amoroso e o trabalho da poesia, recebendo o aplauso do público.
Na manhã de sábado, a peça infantil Lua Cheia para Todos – Pequenas Fábulas de La Fontaine, interpretada por Ana Enes e Maria João Trindade, interagiu com crianças e adultos. Máscaras e marionetas levaram a todos os que assistiram, a magia dos diálogos entre o corvo, a raposa, o cavalo, o burro e o lobo, criando momentos de alegria e de grande participação num mundo que tem uma forte relação com o quotidiano de todos. No final, de pé, o público manifestou o seu agrado.
O sol intenso da tarde não impediu que a sala ficasse repleta, para assistir ao espectáculo pelo Grupo Artístico da Província de Anhui (da China), que se apresentou também no Auditório 1.º de Maio. Uma apresentação de várias expressões da cultura chinesa como a ópera de mudança de rosto, acrobacia, dança, canto e interpretação de oboé que recebeu aplausos permanentes do público. Uma intensidade espectacular que galvanizou o público.
Um pouco mais tarde realizou-se, no espaço exterior do Avanteatro, uma homenagem a Fernanda Lapa e a Joaquim Benite, nos 80 anos do seu nascimento. Participaram na sessão José Peixoto, actor e encenador, Rodrigo Francisco, dramaturgo, encenador e director da Companhia de Teatro de Almada, Vítor Santos, actor, Lucinda Loureiro, actriz, e Paula Santos, membro da Comissão Política do Comité Central do PCP. Uma sessão em que o público também participou com testemunhos sobre os homenageados. Foi consensual que Fernanda Lapa nos faz muita falta. Na sua riquíssima carreira destacou-se na representação bem como no ensino e formação. Fundou a Escola de Mulheres, em 1995. Militante do PCP, teve sempre uma militância, activa, presente e empenhada, de grande dedicação ao Partido.
Sobre Joaquim Benite, fundador da Companhia de Teatro de Almada e do Festival de Teatro de Almada, foi realçado o seu papel na luta pelo apoio ao teatro pelos poderes públicos, a importância que dava à mobilização de públicos e o seu empenhamento para que o teatro de arte possa ir muito para além do mero entretenimento e abordar os problemas da vida das pessoas. Na intervenção do PCP foi referido, nomeadamente, a importância desta sessão sobre estes dois importantes activistas em defesa do teatro e da cultura, afirmando, também, as propostas da PCP visando a criação de um Serviço Público de Cultura, o prosseguimento da luta para que lhe seja afectado de 1% do OE e o reconhecimento e a valorização da função social dos criadores e dos trabalhadores da cultura.
Na noite de sábado foram apresentadas duas peças. A primeira, uma estreia no Avanteatro, A Festa, de Spiro Scimone, interpretada pelo Grupo Dois, uma comédia divertida que tratou das relações pessoais e da incomunicação que hoje faz parte do quotidiano de muitos. Com uma intensa relação com o público onde os gestos e os silêncios traduziram a dificuldade de entender o princípio, meio e fim do que pretensamente se queria dizer com as palavras. Teve grande aceitação do público.
A segunda peça, Final Feliz, pela Produções Acidentais, uma criação a partir de textos de vários autores que trouxe ao público o problema da libertação da mulher, a questão da submissão, até na sexualidade. Mensagens fortes que colocaram a questão de ainda hoje existirem discursos e práticas sociais que impossibilitam uma verdadeira libertação das mulheres.
Na manhã de domingo, no espaço exterior do Avanteatro, tivemos As Mãos das Águias, interpretado pelo O Plano /Galateia. Uma peça para a infância a partir de textos de Mia Couto, Miguel Jesus e Luís-Bernardo Honwana. Uma encenação criativa que rodava em torno do cenário, com uma grande interactividade com os mais novos e com o público. Histórias extraordinárias que levaram a viajar no tempo, lá quando o bater das asas das águias era o único ponteiro do tempo o que recebeu um enorme aplauso do público.
A terminar a edição deste ano tivemos Amor de Dom Perlimpim com Belisa em seu Jardim, pelo Teatro da Terra. Uma peça de Lorca que aborda os temas universais e intemporais do amor e da traição. Uma obra grotesca, uma farsa que termina em tragédia. Uma peça que questionou o público sobre a desconstrução da relação entre o homem e a mulher. Teve grande aplauso do público.
O público regressou em pleno ao Avanteatro, com sala cheia, confirmando o papel importante que o teatro tem na Festa do Avante!, sendo uma expressão viva da liberdade que Abril conquistou.