Não há futuro para o mar sem os pescadores

Sábado, num almoço com pescadores em Peniche, o Secretário-geral do PCP alertou para a intenção do Governo de implementar «uma floresta no mar» ao «serviço dos grandes interesses dos grupos de energia».

«Temos um País e uma costa que foi empurrada para o empobrecimento»

Paulo Raimundo referia-se à discussão pública simulada sobre as áreas de implantação para energias renováveis offshore, um investimento em geradores eólicos ao longo da costa portuguesa. O conjunto das oito zonas previstas ocupará uma área correspondente a três mil quilómetros quadrados na faixa costeira entre as seis e as 12 milhas, precisamente onde estão concentrados os principais pesqueiros nacionais.

«Isto é mau, mas é ainda mais complexo porque há quem esteja a negociar as milhas de ocupação dessas torres sem ouvir a opinião daqueles que todos os dias olham para o mar como fonte de rendimento, que são os pescadores» lamentou, considerando não haver «compreensão» para este «caminho errado».

«Os grupos económicos decidem, fazem a encomenda e o Governo e os partidos que acompanham esta opção política decidem em função desses interesses», acrescentou.

Estas declarações aconteceram no armazém de pesca de Pedro Jorge (que naquele dia celebrava o seu aniversário), num almoço com várias dezenas de pescadores de vários pontos do distrito de Leiria, que, como o Secretário-geral do PCP qualificou, é «gente muito sofrida», cuja vida «é determinada, literalmente, ao sabor das marés».

Na sua intervenção acentuou ainda que «hoje trabalhamos mais e ganhamos menos», num País onde «se empobrece a trabalhar», e que, também no sector das pescas, há um conjunto de reformados que é obrigado a trabalhar porque a sua pensão é muito «baixa».

Outra das ideias trazidas por Paulo Raimundo foi a da necessidade de criar «condições de segurança para trabalhar», uma «questão fundamental em todas as profissões», mas em particular no sector da pesca.

Efeito 0

Na iniciativa, inserida no âmbito da acção nacional «Mais força aos trabalhadores», foram dados alguns exemplos de diferença entre os preços em lota e os preços no consumidor. Em 2022 a sardinha foi paga aos pescadores a um preço médio de 1,17 euros; a cavala 0,44 euros, o carapau 1, 36 euros; o polvo a 8,17 euros; o biqueirão a 3,42 euros.

«Não é preciso sermos uns “carolas” em matemática e economia para perceber que há uma diferença brutal entre aquilo que se paga a quem pesca e, depois, no produto final, no supermercado», destacou Paulo Raimundo, criticando a «especulação» de preços criada pela distribuição e realçando que a medida «IVA zero» teve «efeito 0 no bolso de cada um de nós». Defendeu por isso a necessidade de controlar e fixar preços sobre os produtos do cabaz alimentar essencial.

Défice alimentar

O Secretário-geral do PCP lamentou ainda a enorme diferença entre a pesca que Portugal vende e compra ao estrangeiro, que faz aumentar a dependência externa alimentar. Em 2022 o défice no sector da pesca voltou a disparar e fixou-se em mais de mil e 300 milhões de euros negativos.

«Temos um País e uma costa que foi empurrada para o empobrecimento», apesar das «condições que temos para aumentar, e muito, a nossa produção alimentar».

O problema é que «há forças, outros interesses e países que decidem quantos barcos é que Portugal pode ter, quais as espécies que se podem pescar e a quantidade». «Dispensamos bem os bitaites e conselhos sobre a pesca e os pescadores do nosso País. Temos gente com conhecimento, sabedoria, entrega, com condições de definir o rumo e a política que o País precisa, também no sector da pesca», frisou Paulo Raimundo.

Na mesa daquele almoço do PCP, com o Secretário-geral estiveram Vasco Cardoso, da Comissão Política, Luís Caixeiro, responsável pelo distrito de Leiria, Pedro Varão, responsável pela Comissão Concelhia de Peniche, Alexandre Caneira, coordenador do Sindicato da Pesca do Centro e da Federação dos Sindicatos do Sector da Pesca, e Pedro Jorge, pescador e dono do armazém onde se realizou o almoço.

 

Histórias de vida

«Os trabalhadores da pesca não vão trabalhar ao sábado à noite como pretendia a Associação Centro Litoral da Figueira da Foz e o Governo. Queriam que a Doca Pesca funcionasse sete dias por semana por causa de um contrato com o Mercadona». Alexandre Caneira

«Naquela lancha apanhamos mar com 4 e 5 metros de altura. Sofremos bastante. Não temos horário de trabalho e os rendimentos são cada vez menos». Francisco

«Estou reformado 15 anos. Agora o meu trabalho é de agulha, a arranjar as redes do cerco. Nunca explorei ninguém nem gosto de ser explorado». Fernando

«O reforço da unidade dos pescadores faz-se com o reforço dos seus sindicatos. É este o caminho que temos de percorrer. Os pescadores são os únicos trabalhadores portugueses que podem ir para casa sem receber o salário mínimo nacional». Nuno Teixeira

«Tenho 21 anos e sou pescadora na ilha da Berlenga. Estou aqui para mostrar que é possível trabalhar nesta terra extraordinária», mas «é preciso valorizar mais o sector da pesca». Maria

«Fui pescador de arte xávega. Há quatro anos decidi não voltar mais ao mar. Foi uma decisão difícil. Acontece que o meu amor pelo mar estava a ser utilizado por outras pessoas para me explorar, quase para me escravizar. (…) Quem está à frente desta pesca artesanal são os armadores. Um tractor que puxa a manga de arte xávega ganha o mesmo que 12 pescadores». Jorge

«Hoje, muitas embarcações conseguem andar ao mar porque nelas trabalham muitos cidadãos asiáticos e vindos dos PALOP. Temos que dar condições aos pescadores para ingressar no sector e ter uma vida condigna». João Delgado

«Para se conseguir uma renovação geracional na pesca é preciso valorizar os rendimentos, a estabilidade laboral e as condições de trabalho», bem como «garantir a segurança a bordo e assegurar a formação profissional adequada aos profissionais de pesca». José António Amador

«Com dois pequenos barcos de pesca, tenho desenvolvido uma luta muito grande pela pesca sustentável. A pesca grande está a dizimar o sistema». Pedro Jorge



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