Jornalismo ou televendas?
Temos passado os últimos dias com o foco mediático centrado na TAP e na comissão parlamentar de inquérito, em que tem abundado o ruído, para gáudio dos que anseiam pela reprivatização da companhia aérea e de quem se prepara para a receber, ao fazer contas de subtrair ao montante que terá a pagar por ela.
O BE, de quem partiu a proposta da comissão de inquérito, dá por si ultrapassado na corrida pelos holofotes por outros partidos, como a IL, que têm desempenhado de forma bem mais eficaz o papel a que aquela comissão estava destinada: a justificação política da decisão criminosa de privatizar a TAP. Mas podia não ter sido assim. O PCP fez uma proposta de alteração ao objecto da comissão de inquérito, alargando-o ao processo de privatização decidido pelo governo PSD/CDS, de Passos e Portas. Com o que já na altura se sabia, e mais ainda com o que se vem sabendo, uma comissão de inquérito que olhasse seriamente para aquele processo seria o melhor contributo para afastar o discurso das inevitabilidades sobre esta, como de outras privatizações, mas o BE e o PS rejeitaram essa proposta.
Este facto passou e continua a passar relativamente despercebido do tratamento mediático do tema, mesmo depois de se saber que David Neeleman usou uma aldrabice envolvendo a compra de aviões pela própria TAP para a comprar a preço de saldo: ou seja, usou dinheiro da companhia (até então pública) para a comprar. Mas mesmo com a restrição do seu âmbito, a comissão de inquérito tem sido útil para revelar a génese dos muitos problemas e escândalos que vão sendo destapados. Começando na gestão privada da TAP, de que é exemplo a contratação de Alexandra Reis (a ex-administradora e fugaz Secretária de Estado que serviu de catalisador a todo este processo) e a sua promoção ao Conselho de Administração da companhia (indicada pelos privados), até às práticas de gestão privada seguidas já com a TAP reintegrada no sector público, como os escandalosos prémios de gestão para os administradores (numa empresa em que os trabalhadores continuam com cortes salariais significativos) ou a forma opaca e submetida a interesses particulares como continuam a ser tomadas as decisões pela Administração (como a negociação da indemnização para a saída de Alexandra Reis).
Tudo isto tem sido levado pelo PCP às audições que já decorreram, mas a narrativa mediática continua centrada num leilão em torno da demissão de ministros e de quem defende mais e melhor a privatização da companhia. Aliás, tem sido o PCP a denunciar o rol de ilegalidades em que a gestão da TAP tem estado envolvida, do acordo de afastamento de Alexandra Reis, violando o Estatuto do Gestor Público, à inexistência de contratos de gestão que torna nula, por exemplo, a nomeação do administrador financeiro da empresa.
Uma observação séria do que se já se conhece seria bastante para, caso a informação e o esclarecimento prevalecessem na cobertura mediática, pôr em evidência os danos da sanha privatizadora a que a empresa foi sujeita por PS e PSD. Mas, mais uma vez, o critério mediático é o de promover quem está apostado na destruição de tudo o que é público.