Supermercado fechado na Páscoa

Margarida Botelho

No próximo domingo, domingo de Páscoa, os supermercados da cadeia Lidl estarão fechados. Não por especial devoção religiosa nem por desapego da administração aos lucros que sempre consegue, mas porque a luta dos trabalhadores no ano passado assim obrigou. A greve de 2022 conquistou esta importante vitória em 2023.

Sem querer fazer futurologia, talvez não seja muito arriscado prever que desse encerramento não virá grande mal ao mundo: as famílias não ficarão sem comer, o Lidl não abrirá falência, a Terra continuará a girar. Os trabalhadores do Lidl é que terão um domingo para si, para fazerem o que bem entenderem dele – o que, nos dias que correm, não é vitória pequena.

Na manifestação nacional de 18 de Março, o CESP, o sindicato que representa os trabalhadores do comércio, lançou uma iniciativa legislativa de cidadãos para propor à Assembleia da República a redução do horário do comércio: até às 22 horas de segunda-feira a sábado, e encerrando aos domingos e feriados, naturalmente sem perda salarial.

A questão é muito sentida pelos trabalhadores do sector: longuíssimos e desregulados horários de trabalho, todos os dias da semana, praticamente todos os dias do ano, tornam a vida um inferno, com dificuldades em descansar, ter tempo para o lazer e para a vida privada, ou até de ter transporte à noite para ir para casa.

Mas também é sentida pelo comércio tradicional e de rua, esmagado com a concorrência tantas vezes desleal das grandes superfícies, dos centros comerciais e das grandes multinacionais, e de todos os outros sectores arrastados por estes horários loucos, da logística à segurança, passando pela limpeza.

Este é um exemplo de como a luta dos trabalhadores pelos seus interesses – salários, horários, vínculos – é na verdade uma luta que faz caminho para uma outra sociedade, organizada com outros princípios que não o da busca incessante de lucro e mais lucro. Uma sociedade onde o trabalho faz parte da realização pessoal de cada um, onde há tempo para viver, onde os recursos são usados de forma racional. Uma luta que continua!




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