Mais um passo para a confrontação

Pedro Guerreiro

A adesão da Fin­lândia à NATO é um passo grave

A Fin­lândia foi for­mal­mente in­te­grada na NATO a 4 de Abril, data em que este bloco po­lí­tico-mi­litar be­li­cista e ofen­sivo as­si­nalou 74 anos. Re­corde-se que a NATO foi criada pelos EUA em 1949, con­tando com o ali­nha­mento ini­cial de mais 11 países, in­cluindo da di­ta­dura fas­cista em Por­tugal.

Há mais de 30 anos que a Fin­lândia está a ser gra­du­al­mente en­vol­vida na NATO, sendo con­si­de­rada «um dos mais ac­tivos par­ceiros e um va­lioso con­tri­buinte para as ope­ra­ções e mis­sões di­ri­gidas pela NATO nos Balcãs, no Afe­ga­nistão e no Iraque» (1). A Fin­lândia tem vindo a par­ti­cipar em es­tru­turas, ma­no­bras, pro­gramas e ope­ra­ções – ou seja, em guerras e ocu­pa­ções – pro­mo­vidas por este bloco po­lí­tico-mi­litar. Como afirma o pre­si­dente da Fin­lândia, «temos es­tado a bordo há já muito tempo» e «sempre de­sen­vol­vemos as nossas ca­pa­ci­dades de tra­ba­lhar em con­junto com a NATO» (2). Os de­sen­vol­vi­mentos que agra­varam a guerra na Ucrânia em 2022 ser­viram de pre­texto para in­te­grar a Fin­lândia como membro pleno da NATO.

O Se­cre­tário-Geral da NATO re­petiu até à exaustão que se tratou de um «dia his­tó­rico». De certa forma assim será, mas não pelos mo­tivos que pro­clama. Efec­ti­va­mente, tratou-se de um dia que marca o com­pleto aban­dono por parte da Fin­lândia da sua tra­di­ci­onal po­lí­tica de não-ali­nha­mento, pros­se­guida após a Se­gunda Guerra Mun­dial, du­rante a qual, re­corde-se, havia sido aliada da Ale­manha nazi.

Uma po­lí­tica de não-ali­nha­mento que per­mitiu à Fin­lândia aco­lher a Con­fe­rência sobre Se­gu­rança e Co­o­pe­ração na Eu­ropa, que ha­veria de adoptar a Acta Final de Hel­sín­quia, em 1975. Acta que re­a­firmou im­por­tantes prin­cí­pios para as re­la­ções in­ter­na­ci­o­nais, a se­gu­rança co­lec­tiva e o de­sen­vol­vi­mento de re­la­ções de co­o­pe­ração, entre os quais a igual­dade so­be­rana dos Es­tados, a re­so­lução pa­cí­fica dos di­fe­rendos in­ter­na­ci­o­nais ou a au­to­de­ter­mi­nação dos povos.

A adesão da Fin­lândia à NATO é o co­ro­lário do en­se­jado aban­dono do es­ta­tuto de neu­tra­li­dade deste país – e das po­si­ções de prin­cipio que o ca­rac­te­rizam – e a sua as­su­mida in­serção na es­tra­tégia de con­fron­tação e guerra de­ter­mi­nada pelos EUA, em que se in­sere o cerco mi­litar à Rússia. Um cerco con­cre­ti­zado através dos in­ces­santes alar­ga­mentos da NATO ao Leste da Eu­ropa – du­pli­cando os seus mem­bros em duas dé­cadas –, um dos fac­tores que está na origem do agra­va­mento da si­tu­ação na Eu­ropa e da ac­tual guerra na Ucrânia, onde é cada vez mais evi­dente que se trata de uma guerra por pro­cu­ração da NATO contra a Rússia.

A re­a­li­dade de­monstra que o alar­ga­mento da NATO e a am­pli­ação do seu âm­bito de in­ter­venção à es­cala global – in­cluindo à Ásia-Pa­cí­fico, vi­sando par­ti­cu­lar­mente a China –, nunca sig­ni­ficou maior se­gu­rança, mas sim uma maior ameaça à paz e à se­gu­rança na Eu­ropa e no Mundo. A in­serção da Fin­lândia neste pro­cesso re­pre­senta um salto qua­li­ta­tivo, par­ti­cu­lar­mente grave, que re­força a pre­sença da NATO junto às fron­teiras da Rússia, co­lo­cando aquele país nór­dico na pri­meira linha da es­tra­tégia de con­fron­tação e guerra pro­mo­vida pelos EUA, a NATO e a UE.

Os povos as­piram à paz, à se­gu­rança, à co­o­pe­ração, ao de­sar­ma­mento – e não ao ca­minho do mi­li­ta­rismo, do alar­ga­mento de blocos po­lí­tico-mi­li­tares, da es­ca­lada ar­ma­men­tista e da guerra para o qual o im­pe­ri­a­lismo está a em­purrar a Hu­ma­ni­dade.

______________________

(1) https://​www.nato.int/​cps/​en/​na­tohq/​to­pics_49594.htm

(2) https://​www.nato.int/​cps/​en/​na­tohq/​opi­ni­ons_213464.htm?se­lec­te­dLo­cale=en




Mais artigos de: Opinião

O Alentejo não é um terreiro!

Foi divulgado no passado dia 17 de Março, pela Associação de Defesa do Património de Mértola, um estudo, que envolveu várias instituições académicas, sobre o clima e a «saúde» dos solos em 13 dos 14 concelhos do distrito de Beja (exceptuando Odemira). O título é lapidar: «Baixo Alentejo com 94% de susceptibilidade à...

Supermercado fechado na Páscoa

No próximo domingo, domingo de Páscoa, os supermercados da cadeia Lidl estarão fechados. Não por especial devoção religiosa nem por desapego da administração aos lucros que sempre consegue, mas porque a luta dos trabalhadores no ano passado assim obrigou. A greve de 2022 conquistou esta importante vitória em 2023. Sem...

Pobre «classe média»

Há dias um jornalista escrevia, relatando a dificuldade de alguém em aceder a habitação própria, que essa pessoa tinha um rendimento de 1000 euros, ou seja, «pertencia à classe média». Insólita afirmação que poderá ter várias justificações. Ou o jornalista é um dos muitos profissionais da informação cujo salário alinha...

Afirmar os valores de Abril - questão fundamental

É no quadro da afirmação dos valores de Abril que se inscreve a luta que os trabalhadores e o povo hoje travam pelos direitos e por uma alternativa patriótica e de esquerda, que, rompendo com a política de direita e as suas desastrosas consequências na sociedade portuguesa, ponha Portugal na...

O apelo e o projecto

A Constituição fez anos – 47! – no domingo e nesse mesmo dia foi apresentado um Manifesto que reclama o cumprimento do projecto nela consagrado e se apela à sua divulgação. Aceitemos o desafio e lembremos alguns dos princípios inscritos naquele que é um dos mais belos e progressistas textos constitucionais do mundo....