O Alentejo não é um terreiro!
Foi divulgado no passado dia 17 de Março, pela Associação de Defesa do Património de Mértola, um estudo, que envolveu várias instituições académicas, sobre o clima e a «saúde» dos solos em 13 dos 14 concelhos do distrito de Beja (exceptuando Odemira). O título é lapidar: «Baixo Alentejo com 94% de susceptibilidade à desertificação.» Segundo o estudo, 38% daquele território apresenta susceptibilidade crítica à desertificação, 35% muito elevada e 21% elevada. Na margem esquerda do Guadiana, os valores sobem quase aos 100%, com 96% da área susceptível à desertificação (32% crítica, 37% muito elevada e 27% elevada). De acordo com os autores, a tendência será a de um aumento da degradação e aridez dos solos em função de vários factores, entre os quais é referenciado o das monoculturas intensivas e superintensivas.
Esta conclusão vem reforçar todas as preocupações do PCP sobre as monoculturas intensivas (nomeadamente de olival e amendoal) que ocupam já a maioria dos terrenos agrícolas do sistema de rega do Alqueva e que se estendem por mais de 240 mil ha em todo o Alentejo. Trata-se de exploração capitalista selvagem da terra, contrária aos interesses económicos e sociais da região e do País. Uma desumana e desumanizada exploração dos campos do Sul, levada a cabo por um pequeno punhado de grupos económicos, essencialmente estrangeiros ou luso-estrangeiros, vários deles ligados à gestão de capital de risco, que está a pôr seriamente em causa a preservação dos solos, a impedir diversificação e diversidade de culturas, a destruir fauna e flora tradicionais, a mudar por completo a paisagem do Alentejo e a desarticular equilíbrios sociais e territoriais.
Um chorudo negócio com impacto quase residual na criação de empregos, que se alimenta do trabalho quase escravo e que olha para uma região não como o que ela é – pessoas, território, economia, tecido social, história e cultura – mas sim como um gigantesco terreiro ao serviço da sua ganância. É necessário, e cada vez mais urgente, uma ruptura com este rumo, e uma nova política de posse e uso da terra no Alentejo, pondo-a ao serviço de quem nela vive e trabalha, ao serviço da região e do País, e não de predadores milionários.